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Peter Jackson celebra Get Back: “O mais incrível e íntimo material dos Beatles já filmado”

Fã da banda, diretor de O Senhor dos Anéis chegou a contar uma mentirinha para a Disney durante a produção

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Peter Jackson celebra Get Back: “O mais incrível e íntimo material dos Beatles já filmado”

A história da música ganha um capítulo especial nesta quinta-feira (25) com o lançamento do documentário The Beatles: Get Back no Disney+. Baseado em filmagens que ficaram trancadas a sete chaves por mais de 50 anos, a produção é resultado de um dos mais árduos trabalhos da carreira de Peter Jackson. Diretor da trilogia O Senhor dos Anéis e beatlemaníaco de carteirinha, o cineasta revelou os vários segredos da produção em uma coletiva em que o Nerdbunker participou a convite da Disney.

Planejado inicialmente como um filme, a produção virou um evento em três partes que revela em detalhes o cotidiano dos Garotos de Liverpool durante a gravação de Let it Be, o último álbum de estúdio da carreira. Para resgatar esse pedaço da história, Jackson analisou mais de 130 horas de material bruto, restaurou parte dele com a ajuda de inteligência artificial e ainda contou com a ajuda de membros da banda para convencer o estúdio a transformar um longa em uma minissérie com o triplo da duração. Uma saga homérica que, nas palavras do diretor, só teve início porque ele “estava no lugar certo na hora certa”.

O cineasta lembra de ter conhecido o Beatle Paul McCartney muitos anos atrás, na estreia de O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (2002). A amizade entre os dois começou pois como fã, Peter Jackson perguntou sobre a famosa lenda de que a banda quase produziu um filme baseado na obra em um projeto ambicioso que teria direção de Stanley Kubrick (Laranja Mecânica; O Iluminado). Porém, a semente para Get Back só seria plantada mais de 15 anos depois.

Peter Jackson afirma que foi chamado à Apple Corps para conversar com o CEO Jeff Jones e o produtor Jonathan Clyde sobre uma parte de realidade virtual que a dupla estava planejando para uma exposição sobre a banda. Como quem não quer nada, o cineasta perguntou sobre as gravações de Deixa Estar (Let it Be), documentário lançado em 1970 que mostrou pela primeira vez as gravações do disco Let it Be:

“Não queria agir como fã, mas uma das coisas que sempre me perguntei nos últimos 40 anos é o que aconteceu a toda a filmagem não utilizada no filme Deixa Estar? Sempre tive curiosidade sobre isso. Sabia que [o diretor] Michael Lindsay-Hogg filmou muita coisa que não havia sido usada. Não fazia ideia se isso havia sobrevivido ou a quantidade de material. Não havia livros sobre isso, então perguntei”.

Para a surpresa do diretor, havia aproximadamente 60 horas de vídeo e mais de 130 horas de áudio no total, mesmo que a própria dupla nunca tenha visto esse material. Quando eles afirmaram que estavam pensando em examinar os registros para talvez pensar em outro documentário, Peter Jackson perguntou se eles já tinham escolhido algum diretor para comandar o projeto. Com a negativa, ele aproveitou a ocasião para vender o próprio peixe e acabou escolhido para a tarefa.

Do céu ao inferno

Não demorou muito para que a empolgação com o projeto desse lugar a uma preocupação enorme. Desde que os Beatles acabaram, criou-se uma lenda de que a gravação de Let it Be foi um período terrível para a banda — lenda alimentada pelo conteúdo de Deixa Estar. O medo de exibir uma guerra interna fez com que ele considerasse abandonar o projeto:

“Eu disse a eles: ‘olha, se esse período for tão miserável quanto deve ser, não vou querer fazer um filme disso. Mas preciso ver antes’. Porque não havia chance de que eu fosse pegar várias filmagens deploráveis dos Beatles para tentar fazer um filme feliz, e eu não iria fazer um triste. Eu estava com um pouco de medo, porque no fundo da minha mente ficava pensando nisso.”

O cineasta afirma que se sentou para assistir às filmagens tomado pelo medo, mas para sua surpresa o material era “inacreditável” de uma forma positiva. Citando que houve sim momentos tensos como problemas na produção e até o período em que George Harrison deixou a banda momentaneamente, não havia nada incomum acontecendo ali:

“É apenas a vida, sabe? Não é a separação dos Beatles. É um projeto ambicioso, provavelmente ambicioso até demais, e coisas deram errado, isso acontece. Mas os caras eram tão engraçados que foi ótimo. E não é o que eu tive em mente por 30, 40 anos. Simplesmente não era e eu acabei pensando ‘bem, o que é isso?’.”

Ele afirma que essa visão negativa sobre este período não era exclusiva dos fãs, e que até mesmo Paul McCartney e Ringo Starr foram surpreendidos ao se ver tão alegres na filmagem:

“A questão é que se você tem 60 horas do mais incrível e íntimo material dos Beatles já filmado, você não quer que sejam 60 horas de brigas e miséria. Seria a maior frustração do mundo. A boa notícia é que não é. A ótima notícia é que esse material incrível que os próprios Beatles trancaram em um cofre por 50 anos por acreditar que era horrível, não é. E então cinco décadas depois você ouve Ringo dizer ‘Isso não é o que pensávamos que fosse’.”

Após aceitar o serviço, Peter Jackson e sua equipe arregaçaram as mangas para restaurar as filmagens para que elas tivessem a melhor qualidade de vídeo e áudio possível. O processo foi facilitado graças à experiência com o documentário Eles Não Envelhecerão, em que sua equipe desenvolveu um programa para recuperar filmagens da Primeira Guerra Mundial, que aconteceu há mais de 100 anos atrás.

Se a parte visual teve uma ajudinha com a experiência anterior do diretor, por outro lado o áudio exigiu um trabalho completamente diferente. Isso porque as gravações aconteciam durante os ensaios da banda, então era comum que uma conversa importante fosse interrompida por um riff de guitarra ou a virada de uma bateria. Para resolver esse problema, a equipe de Get Back recorreu a uma inteligência artificial que aprendeu o som das vozes e de cada instrumento. Dessa forma, fitas de áudio mono — em que o som é transmitido por apenas um canal único — puderam ser mixadas e editadas como se tivessem sido gravadas nos dias atuais.

A máquina do tempo de Peter Jackson

Com tudo pronto, o trabalho da equipe foi transformar horas e mais horas de filmagem bruta em uma história. A grande motivação de Peter Jackson na montagem da produção foi transformar Get Back em uma espécie de “máquina do tempo” em que o público teria a chance de experimentar o cotidiano dos Beatles sem interferir, apenas vê-los trabalhando. Para isso, ele tomou a decisão de não acrescentar nada que já não estivesse filmado e aproveitar o trabalho da inteligência artificial, que possibilitou a revelação de horas de conversas que permaneceram décadas escondidas pelo som dos instrumentos:

“Nos permite ouvir os Beatles contando a história. Não queria edição, não queria fazer gravações atuais para que as pessoas contassem a história. Apenas queria vê-los. Eles precisam contar a própria história, como se estivessem em janeiro de 1969.”

Mentindo para a Disney: como o filme virou uma série

The Beatles: Get Back foi anunciado originalmente como um filme. A produção só se tornou oficialmente uma minissérie durante a pandemia, quando o lançamento saiu dos cinemas e passou para o Disney+. Porém, Peter Jackson se lembra que dificilmente a produção sairia como um longa: “O plano era fazer em duas horas e meia, mas na verdade [o corte final] nunca chegou perto de ter essa duração na realidade.”

A grande dificuldade encontrada pelo diretor e o montador Jabez Olssen (Rogue One) foi encaixar tanto material em apenas um filme. Logo de início eles decidiram que a história seria concluída com a exibição do histórico show no terraço do prédio da Apple Corps — a última apresentação do grupo antes do fim. Como só esse trecho ocuparia 45 minutos, sobraria pouco tempo para o restante dos 21 dias que compõem a história.

Com a preocupação de que o material voltasse a ser escondido do público novamente por acreditar que “qualquer coisa que não usássemos seria colocada de volta em um cofre por mais 50 anos”, ele explica que o fechamento dos cinemas deu mais tempo à equipe para trabalhar no corte final. Na época, Jackson disse à Disney que estava trabalhando na versão de duas horas e meia, quando na verdade planejou um corte bruto de seis horas. Para a aprovação da versão mais longa, ele contou com uma ajuda de peso:

“Enviei aos Beatles antes de mandar para a Disney. (…) Disse ‘olha caras, farei o que vocês quiserem, mas honestamente não sei o que fazer, como prosseguir com isso’. Essas seis horas significam que para cada dia ao invés de dois ou três minutos, teríamos 15 ou 20, e isso dá tempo para contar a história. Então os Beatles disseram ‘sim, ótimo, bacana. Vamos fazer isso, está ótimo’.”

Jackson afirma que Get Back marcou o período em que ele mais passou em uma sala de cortes em sua carreira. Para efeito de comparação, ele revelou que cada filme de O Senhor dos Anéis levou entre oito meses e um ano para ser concluído. Mas no final das contas, o que fica é a satisfação. “Poderia fazer isso por oito anos e ainda seria o melhor momento da minha vida. Não estou reclamando.”

A aprovação dos Beatles

Como o apoio de Paul McCartney e Ringo Starr indicam, a dupla ficou muito satisfeita com o resultado final de The Beatles: Get Back. Peter Jackson afirma que conseguiu sentir essa benção durante toda a produção, especialmente depois que o diretor Michael Lindsay-Hogg contou que os membros da banda ficavam interferindo no processo de montagem de Deixe Viver. Cinquenta anos depois, a recepção foi ao contrário:

“Quando mostrei a eles, esperava algumas notas. Quando fiz O Senhor dos Anéis, a Warner me deu seis ou sete páginas de notas, sabe? (…) Esperava que um dos Beatles dissesse (…) ‘você pode cortar isso? porque acho que…’, algo assim. O máximo que recebi foi ‘isso foi incrivelmente estressante de ver, era tudo muito cru, meu Deus. Mas é definitivamente a história dessa época, então não mude nada’. Pela primeira vez na vida me pediram para não mudar nada.”

Peter Jackson afirma que essa escolha foi muito corajosa por parte dos músicos, já que eles não são mais as mesmas pessoas que eram na época das gravações. Porém, ao não ter medo de mostrar quem eram de verdade, eles deram ao mundo um documento histórico com uma “importância que supera qualquer sentimento pessoal.”

O diretor demonstrou muito orgulho ao comentar sobre a reação de Paul McCartney ao documentário. Como dito acima, o Beatle também tinha em mente que as gravações de Let it Be foram desastrosas, especialmente no que diz respeito à relação com John Lennon:

“Acho que Paul tinha a impressão de que quando eles começaram as gravações de Get Back o relacionamento dele com John meio que colapsou e dissolveu. Essa era a memória que ele tinha, o que não é fato.”

Jackson indicou que foi parcialmente motivado pela ideia de provar a Paul que as coisas aconteceram de forma diferente, acreditando que Get Back poderia ter o mesmo efeito de objetos que fizessem lembrar os bons tempos:

“Paul nos mostrou uma fotografia que Linda [McCartney, esposa do Beatle falecida em 1998] tirou em 1968 em que ele e John estão sentados juntos. Ele disse ‘ah, sempre adorei essa foto porque mostra a gente trabalhando junto’. Estava lá sentado pensando ‘Paul, nós temos 60 horas que são exatamente o que está nessa foto. Temos vocês se amando e escrevendo juntos, como na foto. Espera até você ver, você vai pirar’. E acho que ele meio que pirou.”

O primeiro episódio de The Beatles: Get Back já está disponível no Disney+. A minissérie vai ganhar novos episódios na sexta-feira (26) e no sábado (27).


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