Terra-Média: Sombras da Guerra | Review

Um jogo que continua à sombra do sucesso do seu antecessor

Jeff Kayo Publicado por Jeff Kayo
Terra-Média: Sombras da Guerra | Review

Terra-Média: Sombras da Guerra chegou com um propósito um tanto ambicioso: conquistar seu espaço dentro do universo criado por J.R.R. Tolkien. No entanto, a aventura de Talion e Celebrimbor vai se diluindo e apesar de momentos gloriosos, leva o jogador a lugar nenhum. E sem querer, acabou afastando a maioria daqueles que já se aventuraram nos livros originais e conhecem seus personagens.

Depois do sucesso de Sombras de Mordor, achar que a Monolith já estava com uma continuação agendada não fazia de ninguém um vidente. Tirando um detalhe ou outro relacionado ao final do primeiro game, a história apresentada até ali era consistente e se firmava como um bom spin-off. Continuar aquilo era arriscado.

Curiosamente, Sombras da Guerra consegue empapuçar o mingau da vingança, colocando novos elementos na aventura do Guerreiro Brilhante como uma tentativa de deixar de lado os motivos pessoais (que faziam a história funcionar), para assumir uma posição mais altruísta de salvar a todos e vencer Sauron de uma vez por todas. E lá se vai o suspense todo porque já sabemos como tudo termina de acordo com os livros.

Desta vez os escritores arriscaram mais e decidiram que era uma boa colocar no jogo personagens icônicos da obra de Tolkien, com mudanças significativas em relação às suas contrapartes clássicas. Quem conta toda a aventura de Sombras da Guerra é Laracna, que agora assume uma forma humana, não sei se a escolha é um sinal de coragem, de ingenuidade ou de prepotência.

Temos também como adversário principal de Talion, o Rei Bruxo de Angmar, um Balrog e tantas outras criaturas de participação crucial nos livros oficiais, derrubou em muito as minhas expectativas de encontrar um desfecho interessante para o jogo.

Na contramão de tudo isso, a construção e transformação da personalidade de Celebrimbor, agora com muito mais destaque no game dá aquela esperança de que as coisas poderiam melhorar. Não são raras as ocasiões em que nos indagamos sobre quem é realmente cruel nesse contexto todo.

Com a mão na massa

É tiro e queda. Assim que pegamos no controle já notamos a semelhança com o jogo anterior. Neste caso, a sensação de se sentir “em casa”, devo confessar que não me fez sentir muito bem. A mesma física, o mesmo layout de botões, os mesmos golpes (na primeira impressão), e claro, os mesmos problemas de Sombras de Mordor.

“Em time que está ganhando não se mexe”, esse é o ditado, não? Nos games, não é bem assim que funciona. Sombras da Guerra parece muito com uma expansão do game original, sem ineditismo sequer na animação de corrida ou escalada do personagem. Claro, temos uma execução nova aqui e ali, um pulo espectral bastante acrobático, a habilidade de parar o tempo enquanto atiramos flechas em pleno ar, mas é muito pouco para a continuação de um game que levou mais ou menos uns três anos para dar as caras.

O combate continua fluindo muito bem, misturando ataques acrobáticos com o constante apertar de um único botão, mais a precisão do momento exato para um contragolpe certeiro que decapita o adversário. Pelo menos em relação ao combate você não ficará entediado tão cedo.

O novo sistema de evolução permite a compra de habilidades e suas subclasses, que podem ser ativadas uma de cada vez. E tem muito golpe para destravar, o que instiga aquele desejo incessante de se jogar no meio de um acampamento orc e apenas brandir sua espada livremente, tudo em nome do “grind”. Da mesma forma que o anterior, certos movimentos são destravados somente com o desenrolar da história.

No que diz respeito a equipamentos, talvez seja esta a maior mudança do game: espadas, armaduras, mantos, arco, adaga e runas agora podem ser adquiridas e equipadas. Cada uma delas apresenta suas respectivas vantagens e estão divididas por classe. A troca de equipamentos inclusive, muda o visual do personagem e são coletados da mesma forma que as runas no game anterior, vencendo adversários especiais.

Em Sombras da Guerra é um pouco mais fácil encontrar equipamentos bacanas. Isso porque eles aparecem aos montes. A classe de cada item é verificada através do nível do adversário, então para adquirir aquele equipamento lendário especial, basta procurar por um orc lendário. Fácil, mas não tão fácil, e já explico a razão disso.

Os orcs no geral são distribuídos em tribos específicas. Os orcs lendários de cada uma dessas tribos lhe concedem armas que correspondem a um set especial com bônus de atributos quando utilizados em conjunto. No entanto, é você que decide eliminar a ameaça e conquistar uma nova arma, ou dominá-la para que ela lute a seu lado e proteja seus domínios.

Senhor Brilhante contra o mundo

Talion e Celebrimbor não são exatamente as pessoas mais legais da Terra-Média. Tirando os pouquíssimos humanos encontrados na aventura, todo o resto da população é composta de orcs. E leve em consideração de que ambos preferem orcs mortos a qualquer outro tipo de interação.

Graças ao poder de dominação, é possível que Talion recrute os mais variados tipos de feras (três, na real), inclusive os poderosos wyverns, novidade na franquia, além dos orcs para a sua causa. E esta é a grande ferramenta do jogo, que dá início a um modo de conquista de território inédito no game, e até que interessante num primeiro momento.

Cada fortaleza encontrada no mapa pode ser conquistada. Para isso é preciso que Talion e Celebrimbor criem seu próprio exército recrutando capitães para lutar por eles. E de vez em quando você cruzará o caminho de orcs compenetrados, difíceis de serem derrotados e empenhados em arrancar a sua cabeça. Agora imagine ele seu “migo”, lutando em prol da sua vontade? Por isso a dificuldade em escolher uma arma ou um companheiro de armas.

A parte ruim é que leva tempo para construir um exército 100% eficiente. Alguns capitães mais fortes demoram a aparecer, e eles sempre são nivelados de acordo com a experiência do jogador. Encarar um orc de nível 30 enquanto você é 22 de nada adianta, já que não será possível corromper a sua mente. O pior mesmo é que tudo pode ser resolvido através de microtransações disponíveis no menu do jogo.

Estraga a diversão? Talvez. Atrapalha o andamento da aventura? De forma alguma. É possível chegar ao final do game sem realizar uma compra sequer. Além de orcs lendários, dá para comprar qualquer tipo de equipamento também.

Esse mundão de terra a se perder no horizonte, é seu

O novo mapa da Terra-Média é muito grande. Diferentemente dos mapas de mundo aberto tradicionais, as regiões são divididas em áreas fechadas e cada uma delas com três das famosas “Ubi Torres”. Essas torres continuam exercendo uma das funções mais banalizadas dos mundos abertos dos games que é o de delimitar os segredos espalhados na área.

Além disso, ter uma infinidade de coisas para fazer não necessariamente é sinônimo de diversão dentro de Sombras da Guerra. O sistema Nemesis, aquele que reinventa seus inimigos de acordo com a sua forma de jogar, retorna e está ligeiramente melhorado.

Novas situações fazem parte da lista de melhorias do sistema Nemesis. Entre elas, a chance de um inimigo morto retornar – se ele tiver sido envenenado ou queimado até a morte, as chances de vocês se reencontrarem são altas.

Outra novidade é que, graças ao modo de exército e dominação, temos também o sistema de traição. Em certas situações (fora da campanha principal), é possível que algum soldado do seu exército se rebele contra você, assim sem mais nem menos. Então é bom ficar preparado e nunca confiar totalmente num orc, mesmo que ele pareça a pessoal mais leal que você já conheceu.

O tom de repetição entre cada uma das missões acontece mesmo dentro da campanha principal. Tem momentos incríveis? Alguns. Frustrações? Vestir uma skin de Celebrimbor jovem ou a luta com um Balrog são bons exemplos de coisas que podiam ter ficado muito melhores.

E não podia deixar de faltar o componente online do jogo. Ou podia, já que é um game focado na experiência imersiva da narrativa solo, mas enfim. É possível invadir fortalezas de outros jogadores, acumular pontos e subir no ranking. Também dá para vingar jogadores que pereceram em combate e realizar tarefas semanais que os desenvolvedores colocam a disposição de todos. É tudo tão ou mais genérico que este parágrafo, de verdade.

Terra-Média: Sombras da Guerra não é um jogo ruim. O problema é que o mesmo não se atualizou, permanecendo à sombra do sucesso do seu antecessor, se me permitem o chiste. Ironias à parte, no ano em que Assassin’s Creed se reinventou, o game da Monolith, que era tratado como um “AC, só que legal”, estagnou como jogo e tenta se estabelecer como um elo perdido com os livros de Tolkien. Spoiler: não conseguiu isso também.


Terra-Média: Sombras da Guerra  está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC.

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