Sweet Tooth – Primeira Temporada | Crítica

Buscando esperança no apocalipse, série da Netflix atenua a barbárie da HQ original em uma aventura deslumbrante

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Sweet Tooth – Primeira Temporada | Crítica

Com a pandemia de coronavírus ainda em andamento, a Netflix tomou uma decisão corajosa ao apostar em uma adaptação da HQ Sweet Tooth, uma história que ocorre em um futuro pós-apocalíptico em que parte da humanidade foi extinta. A saída encontrada na primeira temporada foi atenuar a barbárie presente na obra original e investir em uma aventura deslumbrante que busca esperança em meio ao apocalipse.

Sweet Tooth se passa em um mundo chacoalhado por dois misteriosos eventos simultâneos: o surgimento de uma inexplicável doença mortal chamada Flagelo e o aparecimento dos híbridos, bebês que são parte humanos e parte animais. A série acompanha Gus (Christian Convery), um garoto-cervo que precisa descobrir o mundo após viver uma década isolado com seu pai (Will Forte) em uma cabana na floresta.

A jornada de Gus em deixar a cerca que o protegia — de forma literal e figurativa — apresenta os dois extremos desse mundo pós-Flagelo. De um lado, há pessoas que se tornam cruéis e abrem mão da própria humanidade por motivos variados, que vão desde sobrevivência à ganância por poder. Do outro, há quem busque tornar o mundo um lugar melhor, em uma luta constante para reencontrar a felicidade em meio aos destroços.

Acompanhar Gus é visualizar diferentes ângulos desse cenário pela perspectiva de uma criança doce e ingênua. Devido à natureza do garoto, inocente e inexperiente em relação a interagir com outros seres humanos, os sentimentos são amplificados. Os perigos parecem mais ameaçadores, ao mesmo tempo que as vitórias soam mais saborosas.

Um dos grandes trunfos de Sweet Tooth é traduzir esse ponto de vista deslumbrado do garoto para a criação de seu mundo. Cada um dos vários cenários da produção é convidativo e exala vida, constantemente convidando o espectador a explorá-los. Juntos, o design de produção e a fotografia criam palcos perfeitos tanto para a ação explosiva, quanto para o drama comovente — os dois pontos fortes da produção.

Porém, esse mundo fantástico não seria o mesmo sem personagens marcantes, o que a série também entrega. Além de Christian Convery, que traz uma ingenuidade cheia de energia para Gus, o elenco conta com performances inspiradas em praticamente todos os núcleos. A teimosia resignada de Nonso Anozie o torna a companhia perfeita para o garotinho na pele de Tommy Jepperd. Figura importante na história, o “Grandão” revela aos poucos a profundidade de um homem que tenta se esconder em uma fachada de durão.

Gus e Tommy Jepperd em Sweet Tooth
Gus e Tommy Jepperd em Sweet Tooth (Foto: Kirsty Griffin/Netflix)

O mesmo pode ser dito de personagens que ganham mais espaço na série. Isso serve tanto para personagens que já existiam na HQ, como o Dr. Aditya Singh (Adeel Akhtar) e Wendy (Naledi Murray), quanto para novos rostos como Aimee (Dania Ramirez) e Ursa (Stefania LaVie Owen). Com motivações e códigos morais distintos, cada um deles adiciona complexidade ao mundo pós-Flagelo. Chega a ser uma pena que o General Abbot (Neil Sandilands) não tenha a mesma sorte, se saindo melhor como uma sombra que cerca os mocinhos do que quando passa a fazer parte da ação.

O grande desafio de Sweet Tooth está nos momentos em que a busca pela esperança impede a narrativa de abordar outros sentimentos. Buscando dar conclusões positivas para os variados percalços de Gus, o roteiro por vezes tira o impacto de eventos que exigiam uma dose a mais de coragem.

Ainda que a primeira temporada esteja recheada de momentos genuinamente emocionantes, há também uma boa porção de ocasiões em que a comoção bate na trave. É quase como se a produção colocasse uma rede de proteção em volta dos espectadores para tirar o gosto amargo dos contratempos enfrentados por Gus e Jepperd o mais rápido possível.

Essa escolha destaca a principal diferença entre a série e a HQ original: o tom. Ao contrário da produção da Netflix, o quadrinho de Jeff Lemire publicado pela DC/Vertigo traz uma visão crua e selvagem para esse mundo pós-apocalíptico. Com isso, o seriado troca horror e pessimismo por uma aventura fantástica que funciona.

Voltada para um público mais jovem, Sweet Tooth poderia ter sua história comprometida por uma “sanitização” que não acontece. O live-action abre mão da barbárie do gibi de forma consciente e a substitui por novos ingredientes. O resultado é uma versão “alternativa” que encanta em seus próprios termos.

Ao fim de oito episódios, o saldo final é extremamente positivo. O emaranhado de jornadas que a temporada promove é empolgante e cria um crescendo que explode em uma conclusão primorosa. Colhendo as sementes que plantou, Sweet Tooth finalmente coloca todas as peças no tabuleiro e vislumbra um futuro empolgante à sua frente. Nada mau para uma produção que busca trazer beleza e esperança a um mundo que definitivamente precisa de ambos.

div-ad-vpaid-1
div-ad-sidebar-1
div-ad-sidebar-halfpage-1