Street Fighter: 30th Anniversary Collection | Review

Certas coisas nunca mudam: três décadas depois, um hadouken ainda é um hadouken.

Jeff Kayo Publicado por Jeff Kayo
Street Fighter: 30th Anniversary Collection | Review

Se você, assim como eu, já tinha idade suficiente para andar sozinho para lá e para cá pela sua cidade nos anos 90, com certeza teve o prazer de experimentar o maravilhoso mundo das casas de fliperamas. Aquele tipo clássico de estabelecimento que nossas mães diziam ser reduto de “viciados, maloqueiros e drogados”, mas que a qualquer oportunidade que se apresentasse, era para lá que íamos, sem dúvida alguma.

O motivo era simples: desvendar os mistérios daquele jogo um contra um, com oito personagens diferentes de tudo que já havia sido apresentado até então, e provar para todos que ninguém no bairro era um adversário digno dos nossos talentos. Street Fighter II era febre mundial e o pontapé inicial da revolução de um gênero.

Street Fighter: 30th Anniversary Collection resgata o clássico Street Fighter II e os demais membros da sua família, num total de 12 jogos e os reapresenta numa embalagem inédita a todos que, de alguma maneira, contribuíram para a sua popularidade na época, e também aos que não tiveram a oportunidade de conhecer o início da franquia em seu habitat natural.

12 jogos para sair na mão com o amiguinho

Do terrível (em todos os sentidos) Street Fighter, de 1987, à terceira edição de Street Fighter III, bastante divulgado através do EVO Moment #37, a coletânea apresenta cinco versões de Street Fighter II (World Warrior, Champion Edition, Hyper Fighting, Super e Super Turbo), os três Street Fighter Alpha e os três Street Fighter III (New Generations, Second Impact e 3rd Strike).

Todos os jogos são representações perfeitas dos originais, incluindo aqui todos os seus acertos e erros. Balanceamento? Nem pense nisso, os jogos apresentados aqui funcionam exatamente como no passado, inclusive com todos os seus truques, intactos. Deseja utilizar o Akuma na versão Super Turbo? Vai ter que puxar o segredo do fundo da sua memória. Quer jogar Street Fighter Alpha 3 no formato dois contra a CPU ao mesmo tempo? É só lembrar do macete usado na versão arcade do jogo e pronto.

(Dica: aperte o quadrado [no PlayStation 4] em cima do jogo escolhido e “refresque a sua memória” com todos os segredos ali já separados para você)

Gosto bastante dessa seleção de jogos porque no passado, não consegui despender um tempo satisfatório em Street Fighter Alpha 3. Aliás, esse era o game que eu menos gostava da série Alpha, talvez por ele ter sido lançado num momento da minha vida em que eu dedicava todo meu tempo livre à SNK e seus jogos. Mas agora, tirando a limpo essa opinião do passado, até que não acho o game mais tão chato.

Zangief parece que vai se afogar nos seus músculos. Repare que existe uma borda especial ao redor da tela para cada jogo da coletânea

Acho incrível imaginar que todo mundo vai ter uma chance similar de voltar atrás em algumas opiniões pessoais.

Nova geração de jogadores

É muito comum escutar reclamações (ou elogios, vai de cada um) em cima da dificuldade acentuada dos jogos do passado. No mundo dos arcades isso tinha um propósito claro: arrancar seu dinheiro. Jogos de fliperama precisavam ser difíceis e com jogatinas rápidas, incitando o desespero e a vontade de continuar aquela partida perdida. Os jogos de plataforma faziam muito bem o seu trabalho, mas o ápice apenas foi alcançado com os jogos de luta.

Se não for derrotado pelo adversário da CPU, que seja pelas mãos do seu melhor amigo, ou rival, tanto faz. Vender fichas era o único propósito dos donos desses estabelecimentos, e perder para o computador ou para um adversário de verdade tanto fazia, o que importava era a rotatividade de jogadores, muito maior se considerarmos o tempo médio de uma partida (dois minutos, mais ou menos).

Sem querer, toda essa ganância deu origem a uma comunidade de jogadores, que valorizava o esforço pessoal de cada jogador, mas ao mesmo tempo era bastante competitiva e muitas vezes problemática. Nascia a FGC, ou a comunidade dos jogos de luta.

O modo de treinamento só funciona para os jogos com suporte online e vem bastante completo

Óbvio que o conceito da derrota iminente dos fliperamas foi deixado de lado nesta versão da coletânea. Dá para diminuir a dificuldade do jogo e foi inserido até um modo de treino para o jogador se familiarizar com os comandos. O modo inédito dentro dos jogos clássicos vem munido de praticamente todas as ferramentas da modernidade, mas só funciona para os games que tem suporte online.

Isso porque ninguém vai dar mole no online, mas isso é outra história. Quatro jogos do pacote vem com suporte de partidas online: SFII Hyper Fighting, SFII Super Turbo, SFA3 e 3rd Strike. Partidas ranqueadas ou casuais, elas vem com aquela opção de jogar o modo para um jogador enquanto se espera por partidas online.

Difícil falar sobre a latência das partidas ainda, visto que os testes foram feitos antes do jogo ser lançado, daí a falta de jogadores para experimentar mais do online era meio óbvia. Por enquanto, as poucas partidas que disputei funcionaram muito bem, mas não servem como referência incontestável para todos.

Street Fighter III 3rd Strike tem suporte online e é uma versão fiel ao jogo original do fliperama, sem novos balanceamentos

Em jogos de luta competitivos no geral, apenas o perdedor pode trocar de personagem entre as partidas. Essa regra nasceu principalmente por conta do famigerado counterpick — do tipo saber de antemão que o adversário vai jogar “pedra” no jankenpô, aí você preparar o “papel” para vencer sempre –, mas também por conta de que nos arcades, só era possível escolher bonecos uma vez por ficha.

E a coletânea de 30 anos de Street Fighter traz para esses jogos um modo versus inédito (para suas versões arcade). Pode parecer bobeira para muitos, mas não precisar resetar o jogo para a troca de jogadores fará com que os campeonatos retrôs desses jogos se desenrolem de forma muito mais rápida.

Itens de colecionadores

A linha do tempo de Street Fighter conta da sua origem, em 1987 até seus dias atuais

Com um pouco mais de tempo em mãos para navegar por todo o museu de Street Fighter: 30th Anniversary Collection, deu para ver que o trabalho de curadoria visual foi impecável. Muitas das ilustrações encontradas nessa parte dos extras são inéditas, mesmo se colocarmos na mesa todos os livros de história de Street Fighter.

A linha do tempo de Street Fighter é fácil navegar com o controle e também de se localizar. Quando o jogo faz parte do conjunto de obras disponibilizado no pacote, ele aparece em destaque e com a opção de iniciar o game dali mesmo.

O passo a passo do shoryuken de Ryu em 3rd Strike é um show de pixels crocantes

Outra coisa maravilhosa que ficou muito melhor de se acompanhar dentro do jogo foi a evolução dos sprites dos personagens. Desde o primeiro Street Fighter, é possível acompanhar as mudanças que todos os lutadores do jogo sofreram ao longo dos anos. Todas as suas representações em quadros separados, mostrando o passo a passo de um hadouken, shoryuken ou tatsumaki senpuu kyaku.

Mas é preciso fazer uma ressalva dentro de tudo isso. Apenas Street Fighter e Street Fighter II contém suas histórias narradas como legendas de fotos na parte de documentação das franquias Street Fighter. Nem a série Alpha (Zero) ou Street Fighter III carregam legendas que explicam as decisões da equipe de desenvolvimento do jogo, ou comente sobre as pessoas que fizeram parte da produção dos mesmos.

Infelizmente, explicações como essa só estão presentes nos especiais de Street Fighter e Street Fighter II

Uma pena, porque seria imensamente gratificante saber o que se passava pela cabeça dos desenvolvedores na hora que decidiram voltar no tempo e contar o passado dos personagens da franquia, ou então os motivos que os levaram a mudar completamente o elenco para Street Fighter III.

Mesmo assim, Street Fighter: 30th Anniversary Collection é um item de colecionador indispensável a você, fã de Street Fighter, membro da comunidade dos jogos de luta e que não deixa desafios sem resposta. Gerações de jogadores que se encontram no mesmo ponto de convergência da pancadaria virtual entre sprites super detalhados e o desejo de ser o melhor custe o que custar.