Tragédia e subversão: por que você deve dar uma (nova) chance aos prelúdios de Star Wars

Analisamos como os três filmes lançados em meados dos anos 2000 carregam uma trama cheia de significados

Pedro Siqueira Publicado por Pedro Siqueira
Tragédia e subversão: por que você deve dar uma (nova) chance aos prelúdios de Star Wars

Antes de mergulhar neste texto, responda uma coisa. Qual é o seu Star Wars? Quando você pensa na saga espacial, quais filmes ou momentos vêm à sua cabeça? Se você é nerd como nós, é provável que boa parte do seu gosto foi moldado pela franquia de George Lucas. Mas levantamos essa provocação logo de cara porque, como qualquer boa franquia que perdura no panteão da cultura pop por mais de quatro décadas, é possível dizer, sem medo, que cada pessoa tem seu próprio Star Wars.

Para este jornalista, por exemplo, Star Wars veio no início dos anos 2000, com uma cópia VHS surradinha de Uma Nova Esperança (1977), tido por muitos como o clássico absoluto da franquia. Mas a paixão tão arrebatadora quanto uma rajada do mais potente cristal Kyber veio para valer com a Trilogia Prelúdio, formada pelos Episódios I, II e III, lançados entre 1999 e 2005. Não é exagero arriscar que uma história parecida ocorreu com grande parte dos fãs que viveram os lançamentos na época, visto as defesas fervorosas dos três filmes em fóruns e redes sociais como o Reddit, onde até os memes da trilogia têm uma comunidade própria.

Logo, você pode imaginar que há uma explicação relativamente fácil para os, à época, “novos” filmes da franquia serem mal recebidos por uma parte considerável daqueles que já conheciam e amavam Star Wars. Alguns dirão que se trata de uma questão geracional, outros vão argumentar que foi ali que, envolto nos milhões de “motivos” para fazer novos filmes, George Lucas passou a seguir mais as inclinações comerciais do que artísticas na hora de criar histórias, mas o fato é que boa parte do novo (e bom) conteúdo relacionado à franquia, desde jogos como Star Wars Jedi: Fallen Order (2019) até participações especiais e temas revisitados dos prequels em The Mandalorian (2019), têm bebido do conteúdo lançado lá atrás, há mais de 20 anos, nos prelúdios.

Em maio deste ano, o revisionismo parece culminar com a estreia da tão sonhada aventura solo de Obi-Wan Kenobi em uma minissérie do Disney+, vivido pelo mesmo Ewan McGregor dos prelúdios e com Hayden Christensen também de volta como Anakin Skywalker/Darth Vader.

Natalie Portman, Liam Neeson, Ewan McGregor e Jake Lloyd em A Ameaça Fantasma

Se boa parte do que está saindo sobre Star Wars atualmente vem dos prelúdios, não seria a hora de repensar se, de fato, apesar dos problemas estruturais, os filmes têm mais valor do que inicialmente se imagina, e não só por questões afetivas? Ou, em uma provocação maior ainda: será que a franquia teria a mesma força por décadas sem todo um novo universo aberto pelos novos filmes, responsáveis por cativar uma geração inteira à franquia?

Mas o que há de tão fascinante nos prelúdios? Como a história de um garoto pobre de um planeta deserto, contada quase de novo, pode trazer momentos de grande profundidade que possibilitam uma reflexão sobre a história da franquia como um todo, e até mesmo do modo de produção das histórias de herói modernas?

“Medo leva à raiva… raiva leva ao ódio…”

Para refrescar a memória, A Ameaça Fantasma (1999), Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005) exploram, basicamente, como até o mais aparentemente perfeito dos heróis pode ser quebrado com o mundo à sua volta. Ou, talvez, até mesmo pela carga e a responsabilidade da predestinação ele seja levado ao fracasso. A tragédia de Anakin Skywalker é o tema central dos três filmes, e começa a ser construída, obviamente, ainda na infância.

No primeiro filme, o futuro Jedi é visto em versão mirim com o ator Jake Lloyd. Mesmo pequeno, Anakin (assim como Luke na primeira trilogia) carrega o arquétipo clássico da jornada do herói de Joseph Campbell, aquele que será chamado para uma grande aventura que irá mudar o resto de sua vida. Mas, em uma subversão do conceito, Anakin caminha para a própria ruína.

Queda de Anakin permeia a trilogia

Não vamos entrar no mérito se é ou não uma boa ideia desmistificar uma figura icônica como Darth Vader ao ponto de o vermos até na infância, mas esses momentos são necessários para estabelecer como o caminho Jedi, via de regra, é destinado ao fracasso.

Parece contraditório que os guardiões da Paz na Galáxia, que partem justamente do sentimento de amor pelo próximo, sejam forçados a abdicar daquilo que deveria tornar a causa ainda mais nobre. Do que vale a batalha, sem ter por quem lutar?

A partir daí, a lenta queda de Anakin e, por consequência, da ordem Jedi, se liga com a ascensão do Império Galáctico, sob as conspirações políticas do ardiloso senador (depois Chanceler e então Imperador) Palpatine (Ian McDiarmid). E se um herói pode cair, o que dizer então de uma democracia inteira?

“Então é assim que morre a democracia…”

A guerra, por definição, sempre esteve na essência mais básica de Star Wars (estamos falando de GUERRA nas Estrelas, afinal). Mas se a tragédia de Anakin é explorada em um nível pessoal, Lucas ampliou esse escopo para um plano mais geral mostrando como até mesmo a mais forte das democracias, ainda que com suas falhas, pode sucumbir.

Durante os três filmes, vemos a ascensão política de Palpatine por meio da criação de um inimigo oculto, uma “ameaça fantasma” que desestabiliza as mais sólidas estruturas da República. Um inimigo, na realidade, inexistente para ambos os lados, mas que transforma a Galáxia inteira no palco para o retorno dos sombrios Sith.

O carismático senador influencia todo o jogo político ao seu favor para chegar ao poder. Chega a ser assustador como Palpatine, apesar de obviamente ser um vilão, opera relativamente dentro dos parâmetros da lei. E se você pensa em tudo isso e fica com a impressão de que já viu algo parecido no mundo real, tenha certeza de que foi exatamente o que Lucas planejou. Durante a entrevista de lançamento de A Vingança dos Sith no Festival de Cannes de 2005, o cineasta diz:

“Quando buscamos tratar do mal, uma das primeiras ideias foi como uma democracia vira uma ditadura. As relações entre o que fizemos na Guerra do Vietnã com o que está ocorrendo hoje [no caso, na época] no Iraque é inacreditável. Numa visão mais pessoal, quisemos abordar como uma boa pessoa se torna má, e parte dessa observação é que a maioria das pessoas más se julgam boas. Acreditam fazer o que fazem pelos motivos certos.”

Na trama, Palpatine instiga o estopim das Guerras Clônicas, provocando conflito entre a República, liderada em combate pelos Jedi e as tropas de clones, contra sistemas separatistas que buscam se desvincular do governo. Mas o vilão, na verdade, controla os dois lados do conflito, e torna a ideia de um inimigo que, para todos, parece tangível, a oportunidade perfeita para gerar a dúvida sobre o funcionamento da República em um governo igualitário, e até mesmo demonizar e perseguir a Ordem Jedi, transformando-os em traidores aos olhos da opinião pública. Não seria exagero relacionar o arco do vilão como uma crítica direta ao populismo visto por líderes mundiais em diferentes países do mundo, em situações muito parecidas.

Palpatine consagra seu golpe à democracia em A Vingança dos Sith

Em 2005, Lucas se referia, como citado anteriormente, ao conflito no Iraque, mas mesmo então reconhecia que a história se repetia, assim como na Guerra do Vietnã, nos anos 1960 e 1970. Agora, quase 17 anos depois, percebemos que muita coisa segue se repetindo. E em Star Wars, boa parte da culpa cai justamente sobre quem deveria defender a igualdade.

“Muito seguros de si, eles estão…”

Até os anos 1990, o que se sabia da época de ouro dos Jedi pela Galáxia era o curto relato de Obi-Wan (Alec Guinness) em Uma Nova Esperança, ou histórias do universo expandido situadas nas décadas e séculos antes da trilogia prelúdio, em livros, quadrinhos e games. Nos filmes, a Ordem Jedi está no auge.

Cavaleiros Jedi… heroicos, mas soberbos

Mas, se em um primeiro olhar, você pode encará-los como os guerreiros honrados e imbatíveis, símbolos da luta pela esperança no Universo, uma análise mais cuidadosa revela que é justamente aí que está o maior problema da Ordem, que soube ser explorado por Lucas.

Se você duvida, deixamos as palavras do próprio Luke Skywalker em Star Wars: Os Últimos Jedi (2017):

“Agora que estão extintos, os Jedi são romantizados. Divinizados… Mas se você arrancar fora o mito e observar seus feitos, o legado dos Jedi é o fracasso. Hipocrisia. Arrogância… No auge de seus poderes, eles permitiram que Darth Sidious surgisse, criasse o Império e os dizimasse. Foi um mestre Jedi o responsável pelo treinamento e criação de Darth Vader.”

Para além das atuações, para muitos, duvidosas, da overdose de CGI em praticamente todas as cenas e… bem… de Jar Jar Binks (não se preocupe, isso realmente não temos como defender), a trilogia prelúdio consegue contar uma história coesa justamente por subverter o que se espera de uma jornada de herói clássica. Pare e tente lembrar quantas histórias, ou até mesmo trilogias por aí, são pouco a pouco construídas justamente para que os heróis NÃO se deem bem no final?

Trilogia conclui com a ascensão do vilão

No fim das contas, o que tentamos mostrar é que mesmo com toda maluquice que de fato acontece nos três filmes, a base de toda a história carrega um grande e corajoso arco narrativo, que merece a sua reavaliação.

Se servir de estímulo, parte dessa jornada vai ganhar um novo capítulo em 27 de maio, com a estreia da minissérie Obi-Wan Kenobi, seguindo as aventuras do mestre Jedi 10 anos depois de A Vingança dos Sith. A produção do streaming Disney+ terá dois episódios na estreia, seguidos por mais quatro capítulos semanais. E agora, que tal arriscar assistir (ou reassistir) aos três filmes sob uma nova perspectiva?

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