Obi-Wan Kenobi chega à metade da temporada misturando faroeste e horror

Terceiro episódio da série de Star Wars já chegou ao Disney Plus

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Obi-Wan Kenobi chega à metade da temporada misturando faroeste e horror

Um dos grandes charmes de Star Wars sempre foi a mistura de diferentes inspirações que vão desde as space-operas, passam por samurais e chegam até a eventos históricos. Portanto, não é uma surpresa que Obi-Wan Kenobi promova uma mistura de faroeste e horror em seu terceiro episódio.

Lançado nesta quarta-feira (1º) no Disney+, o capítulo promove um encontro esperado enquanto planta sementes para o futuro da minissérie – e da saga como um todo.

[A partir daqui, spoilers do terceiro episódio de Obi-Wan Kenobi]

A Parte III começa com um Obi-Wan (Ewan McGregor) a bordo de um transporte de carga transtornado pela descoberta de que Anakin Skywalker está vivo. O Jedi aposentado pede auxílio ao fantasma de seu mestre, Qui-Gon Jinn, mas recebe memórias sobre a tragédia de como seu ex-pupilo se tornou o maligno Darth Vader.

Essas divagações servem como uma breve preparação para que a série finalmente mostre o grande vilão da saga Star Wars em toda a sua glória. Imponente por si só, a aparição do Sith ganha um peso extra graças a fatores do mundo real, já que o que vemos em tela é o corpo de Hayden Christensen, o Anakin da trilogia prelúdio, com a voz de James Earl Jones, a lendária voz do personagem nos filmes e séries da franquia.

Ele aparece na famosa Fortaleza Vader em uma conversa com Reva (Moses Ingram). Ainda que o papo em que ele exige prioridade total na captura de Obi-Wan não seja exatamente revelador, ele serve para relembrar que estamos diante de uma figura maligna ao ponto de não dar a mínima para a morte de um aliado.

Em suas palavras, a suposta queda do Grande Inquisidor (Rupert Friend) não significa nada e promete a posição a ela, caso lhe entregue seu antigo mestre. Por outro lado, ele promete que ela se arrependerá caso falhe na missão, o que planta uma semente do que pode vir a ser o fim da Terceira Irmã nessa história.

Darth Vader em Obi-Wan Kenobi
Darth Vader retorna

De volta a Kenobi, ele passa o tempo consertando Lola, o dróide da impaciente princesa Leia (Vivien Lyra Blair). Ela questiona se ele não poderia usar a Força para fazer com que o transporte ande mais rápido, o que dá ao antigo mestre a chance de explicar o que é esse “poder”. Em suas palavras, a Força é comparável à sensação de segurança gerada pela luz em meio à escuridão, uma bela metáfora que traz de volta a ideia de uma fé poética ao invés de um tipo de superpoder que pode ser mensurado em midi-chlorians. Uma analogia, aliás, que voltará de forma quase literal neste capítulo.

A viagem leva a dupla até Mapuzo, um sistema de mineração que se tornou um deserto árido e hostil após a chegada do ganancioso Império. Nesse ponto, Obi-Wan Kenobi volta ao seu tema do reencontro com a esperança. De um lado há um Obi-Wan apático e desconfiado que não acredita em bondade, enquanto do outro há a idealista e ingênua Leia, que se recusa a ver o lado ruim das coisas.

A troca entre os dois traz pontos interessantes sobre como nenhum dos dois está inteiramente certo. Obi-Wan fica tão certo de que foi traído por Haja que não espera no ponto de encontro combinado e decide tentar deixar Mapuzo por conta própria. Enquanto isso, a jovem fica chocada ao descobrir que o Império é maligno e chega a confiar em Freck (Zach Braff), um motorista que os entrega de bandeja para os vilões.

Freck em Obi-Wan Kenobi
Freck, um apoiador do Império

Durante a carona com o alienígena, eles encontram Stormtroopers que buscam um Jedi. Para despistar, Obi-Wan e Leia inventam uma história sobre serem fazendeiros de Tawl que chegaram ao planeta para visitar o local onde ele conheceu a falecida mãe da pequena. Durante o teatrinho em que se passa por pai da jovem, ele acaba falando verdades sobre como sente falta da progenitora dela e de como elas são parecidas.

Essa riqueza de detalhes leva Leia a perceber que Kenobi conheceu sua mãe verdadeira e pergunta se ele é o verdadeiro pai dela. O velho Ben nega dizendo que gostaria de ser e diz que se identifica com ela por ter sido tirado da própria família ainda muito jovem. Ele chega a descrever flashes dos pai e até fala sobre um possível irmão, algo que pode vir a ser explorado no futuro da franquia, que tem o costume de explicar pequenos detalhes em derivados como livros e HQs.

Quando finalmente chegam a um posto do Império, a ternura dá espaço à tensão de um bom faroeste. Cercado por inimigos no deserto, Ben Kenobi usa seu blaster para se livrar do perigo para conseguir fugir. Como o paralelo com os westerns não tivesse ficado claro o suficiente, eles chegam a um impasse quando um dos Stormtroopers faz Leia de refém apontando uma arma para ela. Porém, como todo bom cowboy, o velho Kenobi tem o gatilho rápido e consegue salvar a jovem.

Quando eles parecem fugir, um novo carro cheio de Stormtroopers chega até o local. Por sorte, eles são interceptados por Tala (Indira Varma), uma capitã do Império que se arrependeu ao descobrir a verdade sobre o governo. Ela se livra dos soldados e salva a dupla, levando-os até o “Caminho”, uma espécie de abrigo que protege Jedi e sensitivos à força.

Indira Varma como Tala em Obi-Wan Kenobi
Tala, a liada improvável

Durante a conversa, ela explica que os fugitivos ganham novas identidades porque o Império passou a caçar até mesmo crianças sensíveis à Força. Tala diz que não sabe o que acontece a elas, mas é fato que nunca mais voltam. A primeira possibilidade é a morte, já que o Episódio III – A Vingança dos Sith mostra Anakin Skywalker assassinando uma turma inteira de Padawans. A outra é que eles são levados pelo Império e treinados como Inquisidores justamente para usar seus talentos na caça de Jedi.

Na conversa com Tala, Kenobi descobre as primeiras fagulhas do que viria a se tornar a Aliança Rebelde, o grupo dedicado a lutar contra a tirania do Império. Uma das figuras citadas por ela como importantes nessa etapa inicial, apelidada de “Caminho”, é Quinlan Vos. Mostrado na animação The Clone Wars com breve aparição em Episódio I – A Ameaça Fantasma, o Jedi é mais uma das sementes que o episódio plantou, deixando no ar a possibilidade de um reforço para Obi-Wan no futuro.

Quinlan Vos e Obi-Wan Kenobi
Quinlan Vos e Obi-Wan Kenobi em The Clone Wars

Mais do que uma citação a um nome conhecido, esse momento também serviu para mostrar os primeiros passos de Leia como Rebelde, já que a garota demonstra grande disposição para aprender a fugir e atirar – habilidades que serão úteis para derrubar o Império no futuro. Quando eles se preparam para bater em retirada, o maior medo de Obi-Wan ganha vida: Darth Vader os achou.

Obi-Wan encontra Darth Vader

Com medo de que a fuga planejada por Tala falhasse pelo fato de que o Sith poderia usar a ligação de Kenobi com a Força para rastreá-los, ele manda as duas fugirem enquanto se oferece como destração.

Nesse ponto, o capítulo deixa o faroeste de lado e cai de cabeça no horror, tendo Lorde Vader como a máquina de matar a se evitar. Poucos minutos em Mapuzo são o suficiente para que ele aumente sua contagem de corpos, matando inocentes meramente para atrair e assustar Obi-Wan. Ao invés de partir para o confronto direto, o Jedi foge o antigo aprendiz para longe de Leia.

Nesse ponto é impossível não fazer um paralelo entre Vader e assassinos de filme slasher, que nunca aparecem correndo mas sempre são capazes de alcançar seus alvos. Uma deixa aproveitada sabiamente pela direção, que intercala claustrofóbicos planos fechados com o apavorado rosto de Obi-Wan com a ameaçadora paisagem vazia e escura. Uma escuridão, aliás, que só é iluminada pelo azul de seu sabre, uma materialização da metáfora sobre a Força dar coragem em meio às sombras.

Obi-Wan Kenobi na série de Star Wars
Obi-Wan Kenobi e a luz na escuridão

Destreinado e velho, o Jedi foge do confronto a todo custo, provavelmente por saber que haveria poucas chances de sobreviver. Infelizmente, ele não tem escolha e acaba enfrentando o antigo pupilo em um duelo que escancara a diferença de poder entre os dois. Uma desigualdade colocada à prova quando Vader consegue enforcar o antigo mestre e jogá-lo ao fogo, em uma vingança que rima com o destino de Skywalker no Episódio III.

É uma pena que o conflito seja resolvido de forma pouco inspirada, com Tala resgatando o Jedi meramente porque Vader deixou. No último momento, a Rebelde reacende o fogo que separa Sith e Jedi para dar tempo que o dróide NED-B resgatasse Kenobi. Acontece que isso soa no mínimo estranho, já que o próprio Sith já havia apagado esse mesmo fogo segundos antes.

Claro que o próximo episódio pode revelar que Anakin teve algum tipo de remorso em matar o antigo mestre, mas essa facilitação tira muito do impacto do primeiro reencontro da dupla após 10 anos. Uma reunião que havia encantado justamente por dar a dimensão de suspense e horror que o momento representa para o protagonista.

O mesmo problema em relação ao outro núcleo do episódio. Aproveitando o caos generalizado em Mapuzo, Reva rastreia e sequestra Leia, que foi deixada sozinha para que Tala pudesse salvar Obi-Wan. Ao final do túnel, a pequena não encontra o piloto que a levaria de volta a Alderaan, mas sim a Inquisidora ao lado do cadáver do Rebelde. Uma surpresa um tanto estranha, já que a vilã é mostrada entrando pelo mesmo túnel que a garota, mas de alguma forma chegou ao final dele sem ser vista por ela.

Facilitações e questões mal explicadas fazem parte do DNA de Star Wars, mas o abuso desses recursos prejudicam o engajamento do público. São furos estranhos demais para se ignorar e diminuem muito o impacto dos desafios e obstáculos que os nossos heróis devem atravessar. Resta esperar que a metade final de Obi-Wan Kenobi elimine esses atalhos e traga saídas criativas para as situações grandiosas que apresentam.

Obi-Wan Kenobi ganha novos episódios no Disney+ às quartas-feiras.

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