Star Wars: A Ascensão Skywalker | Crítica

Roteiro bem estruturado, escolhas controversas e muito fan service na conclusão da saga

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Star Wars: A Ascensão Skywalker | Crítica

Em uma recente e polêmica entrevista ao The New York Times, J.J. Abrams reconheceu as “escolhas ousadas” de Rian Johnson em Os Últimos Jedi (2017) para em seguida observar: “Por outro lado, é uma abordagem meio ‘meta’ da história. Eu não acho que as pessoas vão a [um cinema assistir] Star Wars para que digam a elas ‘isso não tem importância’”. O diretor tentou então apaziguar, dizendo que seu antecessor lançou as bases para A Ascensão Skywalker e acrescentando: “Acho que a história precisava de um balanço do pêndulo em uma direção a fim de poder balançar para a outra”.

Bem, como diria um legendário mestre Jedi: “Impressionante. Cada palavra do que você acabou de dizer está errada”.

Em primeiro lugar, Johnson não afirma que isto ou aquilo não tem importância no episódio VIII. Ele apenas subverte os lugares-comuns da franquia para espelhar o modo como dois personagens centrais lidam com o que ficou para trás: Kylo Ren (Adam Driver) e Luke Skywalker (Mark Hamill). Enquanto um se mantém preso nesse conflito, o outro conclui que o passado não deve ser temido ou enterrado, mas encarado como lição — “o maior professor o fracasso é”, nas palavras de outro notório mestre. Também o filme aprende com sua história e vai resgatar em Uma Nova Esperança (1977) o tema do zé-ninguém tornado herói, expresso na figura de Rey (Daisy Ridley) e sua origem ordinária.

Segundo: trilogias bem-sucedidas, como a original de Star Wars, O Senhor dos Anéis e De Volta Para o Futuro, não costumam apostar em “pêndulo” algum, apenas na expansão e desenvolvimento de seus argumentos. Aparentemente, quem precisava do tal “balanço” não era a história, mas o próprio Abrams, que, ao contrário do que vem repetindo na promoção de A Ascensão Skywalker, preferiu, em quase tudo, se afastar das ideias propostas pelo longa-metragem anterior em vez de prosseguir a partir delas.

O que pode ser dito a respeito da trama sem spoilers: enquanto Kylo Ren consolida-se como supremo líder da Primeira Ordem, Rey dá continuidade a seu treinamento Jedi e, em meio a uma galáxia apática e acovardada ante o avanço da tirania, a Resistência tenta se reconstruir. Até que eles são confrontados pelo suposto surgimento de certa ameaça fantasma.

Em termos de estrutura, o roteiro, assinado pelo diretor e por Chris Terrio, funciona. Os heróis são movidos por uma série de MacGuffins (em jargão cinematográfico, qualquer elemento que faça o enredo avançar e, ao mesmo tempo, não tenha importância por si próprio) em uma sequência bem-encadeada, o que garante um ritmo envolvente e possibilita que os novos personagens sejam introduzidos naturalmente. Casos de Zorii Bliss (Keri Russell) e Jannah (Naomi Ackie), que, embora não ganhem muito aprofundamento ou tempo de tela, não deixam de ter seu charme.

Igualmente eficazes são as sequências de ação — são especialmente memoráveis as que se passam em um novo planeta e em um velho conhecido —, bem como a maneira como Leia (Carrie Fisher) é incorporada à narrativa, graças ao emprego de cenas não utilizadas em filmes anteriores e truques de câmera. Mesmo com tais limitações, o papel da general neste episódio faz jus à personagem e serve como um merecido e tocante tributo.

Ainda que seja compreensível até certo ponto, o fan service que o novo longa presta beira o excessivo. Algumas instâncias são inofensivas e divertidas, como a participação de Lando Calrissian (Billy Dee Williams), como visto nos trailers, que se limita a atuar como deus ex machina em diferentes situações, e a de uma figura que dá as caras por poucos segundos e tem uma única fala durante a batalha final. Outras são forçadas e um tanto constrangedoras, a exemplo do personagem que exige respeito e só falta dar uma piscadela para o espectador.

O que mais chama a atenção, todavia, é o esforço que Abrams faz para se desvincular de Os Últimos Jedi, algo evidenciado pela pobre Rose Tico (Kelly Marie Tran), cuja presença é reduzida praticamente a zero. Como consequência, Finn (John Boyega) aparenta ter saído de O Despertar da Força (2015), sem qualquer lembrança dos eventos passados logo após seu confronto com Ren.

Isso sem mencionar a trama central, que depende de o público comprar ou não uma ideia controversa. Curiosamente, ela é cercada de detalhes passíveis de muitas das críticas feitas por quem detestou o trabalho de Johnson: joga no lixo o que foi proposto antes, introduz novos poderes da Força e inclui uma sequência tão “inútil” quanto a do cassino de Canto Bight — na verdade, crucial para os arcos de Finn e Poe Dameron (Oscar Isaac) naquele filme. Provavelmente esses tópicos farão parte das discussões, já que hoje em dia parece impossível agradar o fã de Star Wars.

Porém, um feito notável foi alcançado, mesmo que de forma não intencional. Agora, a nova trilogia espelha a original, sendo formada por uma ótima introdução, um excelente e ousado desenvolvimento e… uma conclusão.