Spiritfarer | Review

Com referências à mitologia grega, jogo fala sobre morte de forma leve e traz reflexões sobre seguir em frente

Priscila Ganiko Publicado por Priscila Ganiko
Spiritfarer | Review

A morte é um assunto delicado e pode ser difícil de abordar sem simplificá-la, dramatizá-la ou torná-la algo trivial. Geralmente, em jogos, significa o fim de uma jornada ou de uma oportunidade, ou até mesmo de uma missão, portanto, ver um game em que a morte não é o fim e sim o começo é algo diferente.

Em Spiritfarer, novo jogo do estúdio indie Thunder Lotus Games, responsável por Jotun e Sundered, a morte é abordada como tema principal de forma realista e, surpreendentemente, reconfortante. O game consegue trazer leveza ao assunto, trabalhando conceitos como aceitação e induzindo o jogador à reflexão.

O jogador assume o papel de Stella, que, por sua vez, assume o papel do Caronte, figura da mitologia grega responsável por levar as almas dos recém-chegados ao inferno através do rio Estige, que divide o reino dos vivos e dos mortos.

O game consiste em encontrar espíritos que precisam de ajuda para seguir em frente e deixar o mundo em que estão, realizando um punhado de desejos dos mais variados e também garantindo que eles tenham conforto em seus últimos dias antes de atravessarem o Portal Eterno e sumirem.

Assim como o Caronte, Stella possui um navio para levar os espíritos, mas mais do que um meio de transporte, a embarcação também serve como lar temporário para os personagens. Aqui, o gerenciamento vai além da mera captação de recursos como ingredientes para culinária, minérios e madeira: é necessário posicionar estruturas como quartos dos hóspedes, horta, casa de fundição e outras construções no espaço limitado do barco.

Além disso, ainda é preciso pensar com carinho no posicionamento, pois há uma série de desafios e eventos especiais, como pegar águas-vivas ou raios, que exigem movimentação não só horizontal como também vertical no navio. Com o tempo e os recursos certos, é possível ampliar o barco e aprender a construir novas salas, ou melhorar as salas existentes.

O navio fica bem apertado depois de um tempo

Embora seja um jogo de gerenciamento, Spiritfarer tem alguns elementos de plataforma, seja na hora de resolver um quebra-cabeças ou coletar um recurso raro a fim de completar as coleções.

Novas habilidades podem ser desbloqueadas ao custo de dois óbolos, moeda entregue pelos passageiros a Stella como pagamento pelos serviços. Aqui, temos mais uma singela referência à mitologia grega: os espíritos que não pagassem um óbolo ao Caronte seriam condenados a vagar para sempre pelas margens do Aqueronte, um dos afluentes do rio Estige.

As tarefas a serem cumpridas para ajudar os espíritos envolvem cultivo de hortaliças e frutas, conversas (ou, as vezes, deixá-los sozinhos por um tempo) e uma boa dose de idas e vindas. O mapa do jogo é bastante amplo, e o barco fica em movimento quase todo o tempo, visitando cidades e pontos de interesse para que seja possível atender aos pedidos dos tripulantes.

Cabe à protagonista explorar os ambientes em busca de ingredientes, itens raros e até mesmo pistas para desvendar mistérios sobre o passado dos personagens ou até mesmo amarrar pontas soltas deixadas para trás. Tudo isso acompanhada pelo gatinho Daffodil.

Separado por ciclos de dia e noite, é importante prestar certa atenção na passagem de tempo em Spiritfarer. Não há limite de dias para realizar tarefas, mas não é uma boa ideia deixar seus tripulantes muito tempo sem comer, por exemplo.

Pode parecer meio chato ficar “confinado” ao barco enquanto navega de um lado para o outro durante o dia ou enquanto ele está parado no meio do mar na calada da noite, mas a realidade é que há muito o que fazer.

O catálogo de comidas do jogo é extenso, com muitas receitas para descobrir, além de uma grande quantidade de peixes para pescar e vegetais para plantar. Minérios coletados devem ser fundidos, e mesmo após esse procedimento há receitas para transformá-los em outros produtos em um estágio mais avançado do game. E, se só quiser que o tempo passe logo, você tem a opção de dormir até a manhã seguinte.

Receitas podem levar até dois ingredientes

Os espíritos possuem a forma de animais diversos, como cervos, sapos, leões e cobras. Suas personalidades são bastante diferentes, e cada um possui gostos específicos e únicos para comidas, criando assim a necessidade de ter vários itens e ingredientes variados a disposição para agradá-los.

Porém, nem tudo pode ser cultivado ou conseguido diretamente no navio, e alguns itens só estão disponíveis através das lojinhas dos guaxinins, podendo ser comprados usando Centelhas, a moeda do jogo. O jogador consegue Centelhas concluindo os eventos especiais ou vendendo itens aparentemente valiosos para o mercador itinerante — uma figura curiosa que não tem medo de reclamar do Caronte.

Uma jornada para refletir

A magia de Spiritfarer vem, sem dúvidas, de seu texto, trilha sonora e visual. Os diálogos são interessantes e divertidos, ora contando piadas de tiozão do churrasco, ora refletindo sobre a efemeridade da vida. O resultado são personagens construídos com características extremamente humanas e, portanto, extremamente fáceis de se identificar. Aqui fica um elogio à localização do game, que não só traduziu como adaptou muito bem falas e expressões para o português.

As situações relatadas por eles são tão mundanas que, em determinado ponto, me vi fazendo escolhas no jogo que já tive que fazer na vida — e não foi fácil. Também passei horas sentindo que poderia ter sido melhor com uma de minhas tripulantes temporárias, uma simpática ouriço-fêmea que me pegou de surpresa quando chegou sua hora. Assim como na vida, tem coisas que, mesmo sendo o protagonista, não podemos controlar.

O jogo todo é permeado por uma trilha sonora que mistura piano e orquestra, e é muito competente tanto em dar peso aos momentos emocionais quanto ao empolgar na hora de tentar pegar meteoritos num dos eventos especiais. Somada aos outros elementos, as músicas amplificam a imersão ao mesmo tempo em que fazem o jogador relaxar. As faixas podem ser escutadas gratuitamente no Bandcamp do compositor, Max LL, clicando aqui.

Os cenários mudam de acordo com a região do mapa

O visual cartunesco dá leveza ao tema, que geralmente é abordado com uma enorme gama de cores frias e opacas — ou vívidas e intensas, como no caso das comemorações de Dia de Los Muertos. Spiritfarer chega no meio termo, com traços delicados e um amplo leque de cores e tons pastéis, além de representar os espíritos de uma forma amigável e carismática.

Os cenários são interessantes e diversos, cada um com sua personalidade. Mas, o que realmente me impressionou foram as cenas no caminho para o Portal Eterno, que, além do visual impecável, também trazem as últimas palavras e reflexões de cada um dos tripulantes que passaram pelo navio.

Spiritfarer é um jogo que me fez sentir muitas emoções. Fiquei feliz ao ver espíritos se divertindo e empolgada ao finalmente descobrir suas comidas favoritas. Fiquei triste ao vê-los partir e senti a falta deles zanzando pelo navio. Passei raiva em alguns momentos de plataforma (e também com alguns personagens fazendo escolhas questionáveis), e senti tanto o carinho dos espíritos pela Stella que não pude evitar as lágrimas durante algumas despedidas. Foi uma experiência que trouxe à tona memórias esquecidas e, ao mesmo tempo, fez com que eu refletisse sobre a vida, a morte e a força necessária para seguir em frente.


Este review foi feito com uma cópia do jogo para PC, via Steam, cedida pela Thunder Lotus Games. Spiritfarer está disponível para Xbox One, PS4, PC e Nintendo Switch.