Space Force | Crítica

A nova série da Netflix atrai pelo elenco de peso, mas erra no ritmo e desperdiça potencial

Fernanda Talarico Publicado por Fernanda Talarico
Space Force | Crítica

É impossível ser fã de séries de comédia e ignorar a estreia de Space Force, a nova produção da Netflix. Com grandes atores no elenco, como Steve Carell (The Office), John Malkovich (Quero Ser John Malkovich), Lisa Kudrow (Friends) e Ben Schwartz (Parks and Recreation), a produção conta com Greg Daniels (The Office) como co-criador ao lado de Carell. Além do elenco de peso, a série chama a atenção dos amantes do gênero ao fazer graça do projeto Space Force, anunciado em 2018 pelo presidente do Estados Unidos, Donald Trump.

A produção acompanha Mark Naird (Carell), um general da Força Aérea americana que se torna encarregado de liderar uma nova divisão, a Space Force, com o objetivo de mandar pessoas para a lua e habitá-la até 2024. Para isso, ele conta com a ajuda de Dr. Adrian Mallory (Malkovich), o cientista chefe do departamento. A série, então, acompanha a rotina da base militar e a tentativa de Naird de conseguir conciliar o trabalho estressante com uma vida familiar extremamente conturbada.

É claro que ver novamente Steve Carell como protagonista de uma comédia na qual ele é o chefe traz comparações com Michael Scott de The Office, mas isso pode atrapalhar a experiência do espectador. Mark não é inconveniente como Michael: o militar é um bom líder para a sua equipe, mas falta conhecimento técnico e científico para embasar as suas decisões. As duas séries pouco se assemelham em sua construção, e parecem até mesmo serem feitas para públicos diferentes. O humor em Space Force é mais escancarado e caricato, como em momentos em que Naird quer convencer um chimpanzé “astronauta” a consertar um satélite em pleno espaço. É um riso fácil, mas também mais esquecível.

Por mais que exista a narrativa principal sobre a tentativa de mandar uma missão à Lua, são os personagens e suas interações que nos fazem continuar assistindo à série, tornando a premissa principal algo secundário e, por muitas vezes, até chata. Há momentos em que os diálogos e as relações criadas valem todo o episódio, mesmo que elas não impulsionem a narrativa, como quando a Capitã Ali (Tawny Newsome) e Erin (Diana Silvers), filha de Mark, passam o dia conversando.

Naird é um personagem com nuances e traços de personalidade bem definidos, como a sua mania de organização, a tentativa de controlar todas as esferas de sua vida e o seu código de regras estabelecido. Assim, os melhores momentos da série acontecem quando essas características são colocadas em cheque, como as suas discussões com Dr. Mallory.

Os personagens de Space Force são tão cativantes que por muitas vezes nos vemos desejando mais momentos deles, como o assessor Tony Scarapiducci (Schwartz), do cientista nerd Dr. Chan Kaifang (Jimmy O. Yang) e até mesmo do “secretário” Brad Gregory (Don Lake) se atrapalhando.

Por outro lado, quando o foco é o núcleo familiar de Naird, o ritmo da série cai e os acontecimentos se tornam desinteressantes e sem graça. A tentativa de mostrar o personagem lidando com uma família problemática pode até ter desenvolvimentos interessantes, mas não foge dos clichês. É também desta parte da narrativa que surge a trama mais desnecessária de Space Force.

Desde o começo da série, sabemos que Maggie (Lisa Kudrow), esposa de Mark, está presa. Porém, não sabemos o porquê. O mistério criado pela produção é até interessante no começo, mas perde força na narrativa. Em How I Met Your Mother, o espectador descobre apenas na última temporada a verdadeira profissão de Barney Stinson (Neil Patrick Harris); até lá, todas as vezes que isso é mencionado ou questionado, algo acontece e a resposta não é dada. Porém, a informação não é relevante para o andamento da história e os próprios personagens também não sabem.

O problema deste mesmo recurso em Space Force é justamente o peso que este fato tem para a trama, pois muito da narrativa é consequência deste acontecimento que é da ciência de todos, menos do espectador. Então, o roteiro se utiliza deste mistério de maneira nada sutil: todas as vezes que o crime cometido por Maggie vai ser revelado, há uma interrupção abrupta. O mistério mantém o espectador curioso, mas também frustrado.

Como consequência da ausência da mãe e do trabalho do pai, Erin é uma adolescente em crise que se vê extremamente sozinha. A personagem é sem carisma, com uma história já vista diversas vezes: uma jovem revoltada que acredita ser negligenciada pela família e que acaba se relacionando com um garoto completamente diferente dela.

Por muitas vezes, a série fica sem rumo, ainda procurando o tom certo. Com isso, ela permeia erros e acertos, tornando o ritmo inconstante e variando ótimos momentos com cenas desnecessárias. Há piadas com assuntos atuais e provocações muito bem colocadas, ao mesmo tempo em que brincadeiras sem sentido e previsíveis acabam acontecendo.

Space Force é uma boa opção para se divertir, traz boas atuações e assuntos pertinentes, mas desperdiça o seu potencial ao apelar por abordagens e desenvolvimentos aprofundados onde não é preciso. Caso ganhe outras temporada – o que é bem possível – a série deve conseguir entender o caminho certo a seguir. Considerando que outras produções de Daniels também se ajeitaram a partir da segunda temporada, Space Force ainda tem chance de entrar no panteão das grandes comédias.