Sekiro: Shadows Die Twice | Review

Praticamente uma experiência de vida dentro do mundo dos videogames

Jeff Kayo Publicado por Jeff Kayo
Sekiro: Shadows Die Twice | Review

Sekiro: Shadows Die Twice é praticamente uma experiência de vida dentro do mundo dos videogames. Diferente da maior parte do catálogo da Activision nos últimos anos, esse definitivamente não é um jogo fácil, mas isso não impede de mergulhar de cabeça na aventura do Lobo.

O game é cria de Hidetaka Miyazaki, o pai da série Souls e Bloodborne, por isso já era de se esperar essa dificuldade. A atmosfera subjuga o jogador a cada novo inimigo, nos fazendo querer sempre estar perto de um ponto de descanso. Ficamos sempre tentados a recuperar as forças, mas o custo alto de ser obrigado a enfrentar novamente quase todas as desgraças do trecho atual, que retornam após esse repouso, faz repensar a ideia.

Algumas das qualidades que transformaram os jogos mais recentes de Miyazaki em um gênero próprio se apresentam em Sekiro de forma renovada. Por exemplo, a mecânica “Shadows Die Twice”, ou “sombras morrem duas vezes”, funciona como uma vida extra, um chorinho. Caso você morra, é possível ressuscitar com pouco menos da metade da vida e finalizar o combate ou buscar abrigo. No entanto, se morrer de novo, a punição é severa: 50% dos seus ganhos em experiência e dinheiro são perdidos, sem a chance de recuperá-los em uma bolsinha de almas.

Existem outras formas de contornar esse tipo de situação. A função Auxílio Oculto mantém intacto todos os seus ganhos, porém a efetividade pode variar. Isso ocorre porque quanto mais você utilizar o sangue do dragão, necessário para se retornar à vida depois do Game Over, mais as pessoas ao seu redor vão ficando doentes, algo relacionado ao carma desse poder. Quando essas pessoas adoecem, as chances de sucesso do Auxílio Oculto diminuem, e uma maldição impede que elas subam novamente, pelo menos até que essas pessoas sejam curadas. Para complicar ainda mais, a quantidade de pessoas que adoecem aumenta à medida que novos NPCs são descobertos, deteriorando ainda mais as suas chances.

Apesar de compartilhar o mesmo senso de sadismo na dificuldade da série Souls, Sekiro: Shadows Die Twice tem um combate bastante único. O game vai exigir uma paciência extra do jogador novato para aprender a rotina dos seus inimigos, principalmente contra os chefes de área. Eles são essenciais para a evolução do personagem já que dão como recompensa um item que aumenta a vida e força de ataque e não existe outra maneira de melhorar esses atributos sem enfrentar os piores desafios que você verá em um jogo.

Sekiro: Shadows Die Twice
Cuidado quando esse kanji aparecer na tela

Muito cuidado com ataques avisados através de um kanji vermelho “危”, que significa “perigo”. Esse é um tipo de ataque que aparece em três variações: frontais, e podem ser desviados ou parados com a defesa perfeita (depois de adquirir a habilidade “Mekiro” fica bem mais fácil lidar com eles), rasteiros, e aí só fugindo ou pulando sobre ele, e os de agarrão, que podem ser evitados esquivando ou se afastando.

O grande lance de Sekiro: Shadows Die Twice é variar entre o ataque e a defesa ofensiva, ou seja, a defesa perfeita sem deixar o adversário respirar a cada parry bem sucedido. Todo o jogo é baseado na postura de combate, que afeta a velocidade de ataque e também a qualidade da defesa. Quebrar essa postura significa a morte, pura e simples. Vale para humanos, monstros e também para o próprio jogador.

Para combater é necessário ficar atento às barras do adversário. Apesar da lógica que quanto menos vida, mais fácil de quebrar a postura, às vezes conseguimos fazer isso apenas realizando a defesa perfeita e nada mais. Mas é difícil, muito difícil no começo.

Exploração e criatividade

Conhecer cada pedacinho do território dá uma vantagem estratégica. Existem múltiplas formas de alcançar os objetos e depende só de você explorá-las ou não. Descobrir passagens secretas através de rochas desgastadas também garantem itens raros que são essenciais para avançar no game.

A furtividade é de uma importância ímpar. Esgueirar-se pelo meio do mato e atacar de mansinho pelas costas funciona até mesmo contra chefes de fase, pelo menos na eliminação de uma das suas barras de vida — sim, às vezes eles tem mais de uma. E, claro, não podemos esquecer da melhor ferramenta do game: seu braço mecânico, que dispara um gancho possibilitando caminhar por entre os telhados das construções e fugir de situações de risco, entre outras coisas.

Um pouco diferente da trama baseada em personagens históricos e lendas japonesas visto em NiOh, Sekiro não utiliza praticamente nada nesse sentido. Temos o “shinobi” numa condição bastante sóbria (mesmo com seu braço mecânico), mas sem abandonar o misticismo ao seu redor (pelo menos no que diz respeito aos seus inimigos igualmente ninjas). Okami (ou Lobo) é um ninja que serve ao seu mestre, sem perguntas. Ele aprendeu o ofício com seu pai adotivo, o Coruja, um grande shinobi da região, e precisa proteger a todo custo o jovem mestre, o herdeiro que possui o sangue do dragão em suas veias, mas algo deu errado e é daí que partimos para a aventura.

Com uma narrativa mais direta, o game se apresenta de forma bastante convencional ao jogador, principalmente àquele que sabe como a história é contada em Dark Souls. Mas mesmo com todas as cutscenes programadas e a trama contando o fio principal, ainda somos responsáveis por adicionar detalhes. Bisbilhotar conversas alheias, encontrar NPCs perdidos, ler pergaminhos secretos, tudo eleva o grau de entendimento, além de conceder certas habilidades e upgrades de armas bem-vindos.

Adquirir novas formas de combate e equipar novos braços mecânicos facilita bastante a sua sobrevivência em Sekiro. É possível aprender diversos estilos de luta, assim como cada uma das suas técnicas secretas, mas é preciso encontrar alguém que os ensine. O jogo tende a ajudar no começo, mas é necessário vasculhar todas as áreas para conseguir melhores técnicas.

Por exemplo, um dos mestres, um Tengu, ensina a “espada de Ashina” que melhora duas habilidades passivas, defesa e quebra de postura do oponente, que são extremamente valiosas na jornada. Esses pergaminhos de aprendizados podem ser comprados em lojas secretas espalhadas pelo mundo, escondidos em baús ou como recompensa de NPCs pelo término de certas tarefas.

As técnicas especiais são divididas em duas categorias: combate e habilidades passivas. As de combate precisam ser equipadas através do menu e são acionadas sem custo algum. As passivas são evoluções de movimentos do personagem.

O braço mecânico é a mesma coisa. Logo no começo do jogo, uma dica de um moribundo no castelo de Hirata indica como adquirir o braço machado, porém também é possível passar batido e jogar sem nunca encontrá-lo. O mesmo vale para os demais braços principais, alguns deles essenciais na luta contra chefes. Já os upgrades são inseridos no jogo depois de um momento chave da história, então sem risco de perdê-los pelo caminho.

Usar o braço especial de Sekiro requer “MP”, que são amuletos especiais colecionáveis durante a campanha. Há uma quantidade limitada que se pode carregar, mas é possível armazenar quanto quiser. Esses amuletos são adquiridos soltos pelo mapa ou como recompensas pela morte de inimigos.

Muita gente ficou com um pé atrás quando descobriu que não dá para equipar uma arma diferente da espada de Okami, chamada Kusabimaru. No entanto, a quantidade de personalizações que existem nas habilidades e nos braços do personagem compensam isso e são super satisfatórias.

 Lady Butterfly em Sekiro: Shadows Die Twice
A (maldita) Lady Butterfly em Sekiro: Shadows Die Twice

A parte que mais chama a atenção nesse título, sem dúvida, são as batalhas contra chefes. Imponentes e assustadores, cada um dos inimigos mais fortes do jogo vão lhe causar dor de cabeça. Desde o caçador de ninjas do Castelo Hirata, o primeiro grande desafio do jogo, até ogros sem cabeça, serpentes albinas gigantes ou samurais montados em seu cavalo. Com a exceção de Lady Butterfly, todos os chefes têm tamanhos fora do normal — alguns grandes e outros colossais –, o que é maravilhoso para a dramaticidade da situação, não tanto para os seus nervos, que já estarão à flor da pele.

A luta do prólogo dá um gostinho do que está por vir, e tenho certeza que a serpente gigante vai lhe proporcionar um dos melhores momentos do jogo.

Nunca fui com a cara dos jogos da série Souls. Aquele lance medieval de espadas enormes e armaduras nunca me seguraram por muito tempo. Isso também desestimulava a me dedicar a ele e aprender suas mecânicas. Ao invés disso, apenas desistia. Já com Sekiro: Shadows Die Twice, a ambientação no Japão feudal, com samurais e ninjas, me deu forças para continuar e sempre buscar a vitória, mesmo quando ela não se mostrava depois de horas lutando contra o mesmo chefe. Garanto que cada uma das batalhas do jogo será como um episódio final de temporada, valendo cada gotinha de suor deixada no controle. Quase uma lição Naruto de vida.