Rocketman | Crítica

Cinebiografia de Elton John acerta no tom fantástico e no excelente uso das canções.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Rocketman | Crítica

“Você deve matar a pessoa que nasceu para ser a fim de se tornar a pessoa que você quer ser”, diz o veterano soulman a um jovem e aspirante Reginald Dwight (Taron Egerton), que decide então seguir o conselho e passa a se apresentar como Elton John. Apesar de na vida real a inspiração ter vindo dos nomes de dois integrantes de sua banda na época — o saxofonista Elton Dean e o vocalista Long John Baldry —, em Rocketman, a origem da segunda metade do pseudônimo é apresentada em versão romanceada e bem mais atraente.

Floreios como esse são corriqueiros e, convenhamos, necessários em qualquer obra ficcional baseada em fatos. A passagem mencionada, porém, é significativa em outro aspecto. Prestes a publicar uma autobiografia, com lançamento previsto para outubro deste ano, e claramente vivendo uma fase de retrospectiva, o astro britânico, que atua como produtor-executivo do longa-metragem, parece disposto a reafirmar o domínio sobre a percepção de sua personalidade pública. Assim, mais do que um relato do conflito entre as facetas Reggie e Elton, Rocketman é uma narrativa em primeira pessoa.

Isso se reflete em um dos pontos fortes do filme: a adoção do tom fantástico, que não somente confere uma carga de simbolismo a certos momentos como também oferece um olhar sobre a psiquê do cantor e compositor. Em especial, no trecho que mostra seu primeiro grande show, no clube Troubadour, em West Hollywood, embalado pelo ar nostálgico de Crocodile Rock — com cenas que remetem aos icônicos registros de Elton ao piano, feitos pelo fotógrafo Ed Caraeff —, bem como na sequência onírica ao som de Rocket Man (I Think It’s Going to Be a Long, Long Time), que traduz a sensação de isolamento que a letra evoca e explora o contraste entre a ascensão à fama e o mergulho em uma rotina de excessos.

Mérito do diretor Dexter Fletcher, que desde os primeiros minutos demonstra compreender seu protagonista, principalmente no que se refere a duas questões cruciais na construção do personagem. A primeira é o visual — aqui, merece elogios o trabalho do costume designer Julian Day, que acompanha a escalada do astro da conformidade à autoafirmação, expressa na transição dos trajes suburbanos padronizados aos mais exuberantes figurinos de palco. A segunda é a busca por refúgio em sexo e drogas, exposta sem grandes concessões. Como consequência, o longa recebeu nos Estados Unidos a famigerada classificação indicativa R (menores de 17 anos só podem assistir acompanhados dos pais ou responsáveis), restrição que os grandes estúdios procuram evitar a todo custo em seus blockbusters, em virtude do impacto direto na bilheteria. Prova de que, neste caso, prevaleceu a visão do cineasta.

A opção pelo formato musical é outro grande acerto. Ao atribuir a cada canção uma função narrativa, o longa se liberta completamente de qualquer compromisso com a cronologia, algo que, em uma cinebiografia convencional, poderia incomodar os fãs mais apegados ao rigor histórico. Com a obra do artista colocada em primeiro plano, os realizadores conseguem até mesmo promover a releitura de alguns sucessos, introduzidos em contexto inesperado. Por exemplo: a energética Saturday Night’s Alright (For Fighting) é uma escolha óbvia para retratar a rebeldia adolescente; em contrapartida, a romântica I Want Love ganha novas camadas de interpretação — no filme, ela ilustra a fragmentação da família Dwight, uma forma de utilização inusitada e surpreendentemente eficiente.

O elenco se mostra competente, ainda que nenhuma das performances seja arrebatadora. Jamie Bell se destaca na pele do letrista e parceiro Bernie Taupin — sua química com o protagonista enriquece a construção da amizade entre os dois personagens centrais. E embora a atuação de Taron Egerton não chegue a ser magnética como a de Rami Malek em Bohemian Rhapsody, o ator exibe talento e impressiona, especialmente do que diz respeito à voz — não há lip sync; é ele que canta de verdade, com timbre e entonação muito próximos aos do astro.

A propósito, há algumas coincidências com a biopic de Freddie Mercury. John Reid, empresário e amante de Elton, que em Rocketman é interpretado por Richard Madden (o Robb Stark de Game of Thrones), também aparece no filme sobre o Queen, já que foi manager da banda — lá, vivido por mais um ator de GoT, Aidan Gillen (o Mindinho). Além disso, foi Dexter Fletcher quem assumiu a direção de Bohemian Rhapsody depois que Bryan Singer foi afastado do cargo. Outra conexão curiosa é com Billy Elliott (2000). Protagonizado por um Jamie Bell adolescente, em seu primeiro papel no cinema, o longa teve uma versão musical, que chegou aos teatros britânicos em 2005, com músicas de Elton e letras e libreto de Lee Hall, roteirista de Rocketman.

Fora o excelente emprego das canções, o script de Hall traz mais achados interessantes. Caso do personagem que surge de repente, tem um relacionamento importante com o cantor e, depois de três cenas, simplesmente desaparece, configurando um episódio quase anedótico, que poderia ser considerado falha de desenvolvimento, mas na realidade serve para exemplificar o comportamento compulsivo do artista. A única ressalva é a pieguice na qual o roteiro muitas vezes esbarra — o pequeno Reggie indagando quando o pai vai abraçá-lo é um momento apelativo e desnecessário, uma vez que a distância emocional entre eles já está explanada de outras maneiras.

Por outro lado, a tendência ao melodrama é característica de Elton John. No fim das contas, é mais uma instância em que biografia e biografado revelam estar afinados.