Returnal | Review

O novo exclusivo de PlayStation 5 é um roguelite que oferece uma experiência desafiadora e maluca, que esbanja personalidade

Tayná Garcia Publicado por Tayná Garcia
Returnal | Review

Misturando elementos de ficção científica e terror psicológico, Returnal é um jogo de tiro em terceira pessoa ao estilo roguelite, o que significa que, se morrer, o jogador perderá quase todo seu progresso, voltará para o início e terá que tentar de novo… e de novo… e de novo.

Mas a experiência não é resumida apenas nisso. Ela vai muito além e consegue entregar algo que muitos outros títulos invejam e almejam: uma combinação perfeita entre jogabilidade e narrativa, que é extremamente envolvente para quem está com o controle em mãos.

Porém é preciso ter dedicação e (muita) paciência para encarar esse universo.

Um ciclo infinito — e difícil

A sensação de jogar Returnal é a mesma de encarar um enorme quebra-cabeças vivo e pulsante — além de mortal, é claro.

O jogador controla Selene, uma patrulheira espacial que, após um defeito em sua nave, cai em um planeta alienígena chamado Átropos. Mas ela logo descobre que sua presença ali não é um mero acidente e se vê presa em um looping temporal.

Então, Selene precisa explorar as áreas desconhecidas do planeta, enquanto enfrenta muitos monstros bizarros, para tentar encontrar uma maneira de quebrar o ciclo. Só que, se morrer, ela volta ao momento da queda da nave.

O jogo é dividido em três atos e, ao todo, são seis biomas diferentes para explorar, formando dois trios de mundos interligados. O primeiro trio forma o Ato 1, enquanto o segundo consiste no Ato 2 — já o Ato 3 não segue o mesmo padrão e comentarei sobre ele mais adiante.

O objetivo principal é explorar cada bioma, que normalmente tem um chefão para ser derrotado no final. Ah, e cada chefe não tem apenas uma barra de vida… mas três!

É difícil não ficar deslumbrado com a estética de cada bioma, e fui até recebida em meu primeiro ciclo com flores coloridas me perseguindo!

A ideia que molda a estrutura de Returnal é a de oferecer um fator forte de replay. Por isso, o mapa muda por completo quando Selene morre e o ciclo é reiniciado. As áreas são geradas aleatoriamente, as portas mudam de lugar, os inimigos aparecem em quantidades e variações diferentes e por aí vai.

O jogador também perde praticamente tudo que explorou naquele ciclo, o que inclui áreas que foram limpas, espólios, consumíveis, armas. Mas calma! As peças-chave da história e alguns itens específicos são permanentes. Então, ao derrotar o chefe do primeiro bioma e conseguir acesso ao portal que leva ao segundo, isso será salvo. E será possível avançar diretamente para lá, sem precisar refazer aquele bioma, caso morra.

A experiência ainda conta com uma leve inspiração em títulos como Dark Souls e Bloodborne, apresentando um nível relativamente alto de dificuldade que se baseia na filosofia de sempre punir o jogador.

Existem sistemas que favorecem Selene, mas é preciso trabalhar duro para poder aproveitá-los. Algumas estruturas tecnológicas, que aparecem aleatoriamente pelo mapa, podem vender artefatos ou consumíveis que concedem mais vida ou porcentagem de dano em troca de Obolitos, “moedas” deixadas por inimigos derrotados. Ainda assim, acredite: é difícil reunir e economizar o suficiente para comprar algo.

Até mesmo quando aparece algum espólio ou baú é preciso abrir mão de algo. Como exemplo, temos os Parasitas, que são lesmas que oferecem um bônus e uma desvantagem para “equilibrar” as coisas: você pode receber um aumento de 10% em proficiência, mas isso fará com que você cause menos 15% de dano enquanto estiver no ar.

Os espólios são escassos, então é preciso prestar atenção em artefatos e recursos que aumentem a probabilidade dos inimigos soltarem itens (assim, você vai acabar com uma tela como essa!)

Ainda há elementos online baseados em um multiplayer assíncrono, o que significa que seus mundos estão interligados de alguma maneira ainda que não haja contato direto entre os jogadores. Um dos exemplos mais “divertidos” é que é possível encontrar o cadáver de outro jogador e vingar sua morte, em uma luta opcional contra um chefe secundário.

Toda essa mistura resulta em uma experiência desafiadora e difícil que tenta levar o jogador ao limite, sem deixá-lo cair em uma zona de conforto.

Morrer faz parte da experiência — e é uma parte importante! Os loops não estão ali apenas para fazer jus ao gênero, mas para dar um peso na narrativa e na relação entre o jogador e a protagonista. Perder progresso, ter que matar aquele inimigo quase impossível de novo, explorar mais de uma vez… São tarefas cansativas que requerem paciência e vontade, refletindo de forma exata os sentimentos de Selene.

Há muitas armas com disparos diferentes, então é essencial prestar atenção em suas características e escolher aquela que mais se adapta ao seu estilo de jogo

Entender os sentimentos de Selene e prestar atenção na história que está sendo contada é essencial quando chegamos ao Ato 3, que é quando Returnal realmente solta a mão de quem está jogando e nos coloca para pensar, estendendo a narrativa. Sem apontar objetivos, cabe ao jogador desvendar os próximos passos, pois não há nenhuma indicação do que é preciso ser feito para realmente finalizar o game.

É uma parte extremamente ligada à narrativa do jogo e tudo que foi apresentado até então, portanto, preste muita atenção enquanto joga!

Mecânicas intuitivas, imersivas e viciantes

Para dar sustento à natureza repetitiva de Returnal, a jogabilidade é fluida, ágil e foge de uma fórmula que é muito usada na indústria: a retórica de poder. Esta fórmula consiste na ideia de sempre dar mais poder ao jogador para que sinta que evoluiu e está mais poderoso.

Mas isso não acontece neste jogo. A personagem começa e termina cada tentativa com as mesmas habilidades básicas. Não dá para sentir que houve uma evolução porque só é possível aprimorar momentaneamente o que Selene já oferece em cada ciclo, que terá um fim e fará com que os aprimoramentos sejam perdidos.

Sendo assim, o combate é frenético e intenso do início ao fim, também graças aos comandos intuitivos e ao fato de que não é necessário gerenciar munição, pois as armas têm um sistema de refrigeração para recarregá-las. Esta fórmula poderia acabar sendo repetitiva, mas isso é contornado com os inimigos, uma vez que cada um apresenta um estilo próprio de comportamento e ataque. É preciso pular, esquivar-se, correr e usar o ambiente de forma inteligente para sobreviver em cada luta.

Os combates ainda tornam a paleta de cores do jogo mais colorida, por conta dos disparos da arma e das partículas liberadas pelos inimigos

A estética de Returnal, sombria e diversificada, é o alicerce para a ambientação, que torna a experiência mais imersiva e alucinante. Cada bioma tem um visual muito característico, indo desde um deserto escaldante até locais completamente congelados.

A imersão gerada em cada área ainda é intensificada pela trilha sonora sutil, que preza ruídos de ambiente, fazendo com que o jogador estremeça a cada barulho que possa indicar um inimigo à espreita — e deixando as lutas contra os chefões ainda mais tensas.

Essa estética é uma bela mistura entre elementos de sci-fi e de terror psicológico, que cria uma atmosfera tensa e sombria, além de cenários que realmente impressionam por sua beleza. Além disso, as partes que mais pendem para o horror são as sequências na casa misteriosa, que às vezes aparece do nada durante a exploração. É possível entrar nela e conferir cenas importantes da história.

Encontrar a Casa é um respiro na exploração, mas um nó na cabeça: tudo fica em primeira pessoa e momentos importantes da história são contados

Usar os recursos do DualSense garantem uma imersão extra, por ter vibrações diferenciadas e sons específicos gerados o tempo inteiro, além dos gatilhos apresentarem resistência sempre que apertados. Praticamente toda ação tem um feedback no controle, até mesmo as gotas de chuva e os disparos da arma.

Aliada aos recursos do controle, a ausência de telas de carregamento amplifica a sensação de imersão no jogo, sem ter nenhum momento que quebre a atenção de quem está com as mãos no controle.

Uma experiência única, mas não para todos

Returnal acerta em cheio ao oferecer uma fórmula que gera uma experiência muito única e marcante, mas… que não é para todo mundo.

O jogo exige sessões muito longas de gameplay baseado em dedicação, persistência e repetitividade, o que pode ser exaustivo para jogadores que não têm muito tempo ou até mesmo paciência para jogar.

Morrer resulta na perda de um progresso suado, o que pode gerar frustração, mas faz parte do pacote. Até existem recursos limitados para contornar a morte, como artefatos raros e estruturas que concedem uma vida extra. Porém, não há maneira de salvar o progresso no meio da exploração de um bioma. Se precisar desligar, já era. Os desenvolvedores recomendam usar o modo repouso do PlayStation 5, caso queira parar no meio e voltar mais tarde. No entanto, o console foi lançado há poucos meses e houve relatos de problemas e bugs com esse modo — o que deixa o uso da função por conta e risco do jogador.

A questão de que o game não oferece nenhum tipo de acessibilidade também pode afastar mais jogadores. Se não conseguir superar os desafios propostos, não será possível avançar. Em contrapartida, Returnal não seria o que é sem sua estrutura difícil e punitiva, o que nos leva ao dilema entre preservar a liberdade criativa dos desenvolvedores ou se preocupar mais em ampliar seu público.

De qualquer forma, uma coisa é certa: aqueles que ousarem explorar Átropos não vão esquecer dele tão cedo.

Toda área pode ser mortal se o jogador não tomar cuidado… seria uma péssima ideia se seus disparos chamassem a atenção desse monstro aí!

Com uma história enigmática e uma jogabilidade viciante, Returnal entrega uma jornada envolvente e cheia de excentricidades que deixam o jogador pensando em teorias e estratégias de combate, mesmo quando não está jogando.

Apesar de se inspirar em elementos de gêneros bem estabelecidos, o jogo esbanja personalidade e até explora uma fórmula ousada para títulos de grande orçamento, sendo uma das experiências mais difíceis e diferentes dos últimos anos.

Ele acaba sendo uma maneira perfeita de estrear uma nova geração: mostrando muita criatividade e poderio sem limites.


Returnal será lançado exclusivamente para PlayStation 5 no dia 30 de abril. Este review foi feito com uma cópia cedida pela Sony.

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