Rage 2 | Review

Com combate divertido, a sequência traz experiência sólida e sem firulas, que pode agradar até quem não jogou o primeiro

Jefferson Sato Publicado por Jefferson Sato
Rage 2 | Review

Às vezes a gente sente a necessidade de extravasar, descontar as injustiças da vida, aliviar a pressão na cabeça, parar de pensar um pouco. Descobri que jogar Rage 2, novo jogo publicado pela Bethesda Softworks, é uma divertida e excelente forma de fazer isso.

O título, desenvolvido pela Avalanche Studios (Just Cause) e pela id Software (Doom), é uma sequência de Rage (2010), que se tornou infame por ter uma história rasa, além de um final inconclusivo e de qualidade muito duvidosa. Ainda assim, o jogo foi ambicioso para a época e fez certo sucesso, conquistando sua parcela de público.

Querer comparar o novo jogo com a obra original é inevitável, mas também um pouco injusto, por dois motivos. Primeiro porque você não precisa ter jogado o primeiro para curtir e entender a continuação. Segundo porque Rage 2 se esforça para entregar uma experiência própria, enquanto busca ser humilde o bastante para não tentar reinventar a roda. E os estúdios conseguiram encontrar este equilíbrio.

Violência e caos no Ermo

A história acontece 30 anos depois dos eventos do título original. Como comentei antes, você não precisa ter jogado o primeiro para curtir este, já que o General Cross, o grande vilão de Rage 2, faz o favor de resumir as informações importantes logo no início. Não que a trama seja muito relevante (ou interessante). No entanto, se você conhecer o game antecessor, certamente vai captar algumas referências, além de reconhecer certos personagens e locais que retornam.

Cross só tinha sido citado no primeiro jogo, mas agora ele mesmo entrou na ação como o líder da Autoridade, que, caso o nome não seja óbvio o bastante, é a facção militar autoritária lutando para controlar o Ermo (como “Wasteland” foi traduzido no português) e restaurar o mundo, elevando a humanidade à glória que merece. A qualquer custo, eliminando qualquer obstáculo, incluindo os próprios humanos. Lógico.

General Cross, o grande vilão de Rage 2

Infelizmente, para eles, porque o novo protagonista Walker, está com sede de sangue. Ele é o último sobrevivente dos Rangers – um grupo que tenta manter a ordem neste mundo pós-apocalíptico. É possível escolher a versão feminina ou masculina do personagem, mas não faz nenhuma diferença, desde que faça seu trabalho: vingar os colegas mortos pela Autoridade e acabar com Cross de uma vez por todas.

E você certamente está preparado para isso! Falei no começo que este é um ótimo game para extravasar? Bem, uma das especialidades nos jogos da id Software é oferecer um combate satisfatório e rápido – e Rage 2 consegue entregar muito bem! Embora não seja tão veloz e brutal quanto Doom, ainda é frenético e incentiva sua criatividade para matar os diferentes bandidos e mutantes burros o bastante para se meterem no seu caminho.

Diversas armas estão à disposição, que podem ser desbloqueadas ao encontrar as Arcas espalhadas pelo Ermo. Além das básicas, como pistola, rifle de assalto e escopeta, ainda tem algumas mais curiosas, como o Revólver Firestorm, que fixa a munição no adversário até você ativá-las para explodir em chamas. Outra mais criativa é o Lança-Dardos Gravitacionais, com a qual é possível lançar o alvo para uma parede ou em outro inimigo.

Se o arsenal não for o bastante, ao longo de sua jornada ainda possível desbloquear diversas habilidades, permitindo fazer coisas como lançar um vórtice gravitacional para puxar inimigos próximos ou, se estiver cercado, bater no chão para soltar uma onda de choque ao seu redor.

Para ser sincero, na maior parte das vezes, senti que nada disso era realmente necessário, porque o armamento básico costuma ser o suficiente para derrotar os inimigos. Exceto alguns chefes ou missões opcionais de alto nível, o jogo é bem fácil. Joguei na dificuldade “Normal” e senti que os inimigos morriam sem muito esforço, sendo pouco inteligentes e raramente me fazendo realmente lutar pela minha vida.

Por outro lado, o título foi desenvolvido para que você se sinta uma verdadeira máquina de matar, então combinar diferentes armas e habilidades é bastante satisfatório e divertido, sendo a chave para aproveitar ao máximo o combate, a melhor coisa que o jogo tem para oferecer.

Aliás, o maior incentivo para você matar muito e rápido é a Sobremarcha, uma habilidade especial que fica mais poderosa conforme Walker mata consecutivamente. Ao ativá-la, sua vida se recupera e seus sentidos aumentam. É basicamente uma bomba de adrenalina, te deixando muito mais rápido e perigoso.

A ação também acontece nas estradas, onde Walker também tem um arsenal mortal, mas um pouco mais limitado. Espalhados pelo Ermo estão diversos automóveis, motos e até um drone montável, mas cada um deles conta com equipamentos próprios e não podem ser alterados, infelizmente. Seu carro padrão, chamado Fênix, é o único que pode ser customizado com algumas armas e habilidades, ou seja, existem pouquíssimos motivos para brincar com os outros veículos.

Isso é ruim, já que você passa boa parte do tempo viajando de carro. Ao mesmo tempo, também significa que o combate sobre rodas não é muito variado, afinal, não há uma grande diversidade de veículos inimigos para enfrentar – definitivamente uma oportunidade desperdiçada.

Voar no drone é legal, mas não tem muita utilidade, além de não ter defesa nenhuma.

Matar ou morrer

A primeira coisa que você vai notar, caso tenha jogado o game original, são as cores. Enquanto o outro era quase totalmente marrom e cinza, este tenta explorar mais o visual, principalmente por ter ambientes mais variados: desde o tradicional deserto devastado até florestas, pântanos, dunas e mais.

Agora o mundo está mais variado e interessante de se ver

E explorar tudo isso não é muito difícil, já que o Ermo não é um lugar muito grande, principalmente quando comparado com outros jogos de mundo aberto. Ainda assim, ele tem uma boa cota de atividades para fazer – o bastante para o mapa não parecer tão vazio, como às vezes é comum em outros games deste tipo.

Mas as atividades, como você já deve ter deduzido, normalmente incluem matar alguma coisa. Seja eliminando um assentamento de bandidos, destruindo um ninho de mutantes ou explodindo tanques de combustível de alguma gangue. E isso não é ruim, afinal, o combate é divertido e todos os locais contam com recursos valiosos que farão de Walker ainda mais letal. Descobrir um local novo nunca é perda de tempo.

Nas estradas, é possível se deparar com alguns veículos hostis ou pequenos grupos inimigos a pé, mas nenhum deles vale o esforço e é possível evitá-los facilmente. A única exceção são os grandes comboios de diferentes facções que viajam pelo Ermo – quando eles aparecem, ficam marcados no mapa e podem conceder boas recompensas ao serem destruídos, o que não é tão fácil, se seu carro não estiver bem equipado.

As cidades são praticamente os únicos lugares sem conflitos em todo o mapa, onde é possível estocar munição e consumíveis, adquirir melhorias e comprar ou conseguir informações sobre novas localizações no Ermo.

Se você cansar da violência desenfreada, isso pode ser um problema. Rage 2 não oferece muita coisa para fazer além de dizimar grupos hostis. Por enquanto, a única atividade paralela são as corridas, que, sinceramente, não são nada interessantes.

A Bethesda prometeu adicionar novos conteúdos depois do lançamento do jogo, incluindo alguns gratuitos, como desafios periódicos, eventos mundiais (estes devem ter algum tipo de conectividade com seus amigos) e expansões. Ainda não sabemos exatamente como estas atividades serão, mas com certeza vão ser bem-vindas.

No entanto, até o momento de publicação desta análise, Rage 2 é um jogo simples, curto e que vai direto ao ponto. A menos que você decida explorar todo o mapa e fazer todas as atividades, cerca de dez horas são mais do que o suficiente para completar a campanha principal.

Aliás, por enquanto, o jogo tem alguns bugs. Me deparei com alguns bobinhos, como problemas gráficos ou de colisão, mas teve outros mais sérios. Um exemplo foi um NPC que não aparecia para mim (embora eu pudesse ativar sua loja). Enquanto isso, outro aparecia, entretanto não me deixava falar com ele.

Como é que meu carro foi parar debaixo da terra?

Em determinado momento, não consegui iniciar uma conversa obrigatória para a história, me deixando travado por algum tempo, até simplesmente funcionar, do nada, depois de várias tentativas, horas mais tarde. Parece um pouco assustador, mas você provavelmente não precisa se preocupar – tudo isso deve ser consertado sem grandes dificuldades em alguma atualização.

Nada mais, nada menos

Rage 2 é um título simples e direto. Um bom jogo de tiro em primeira pessoa que não tenta ser muito mais do que isso. Pode parecer bobo, mas, na verdade, não ser ambicioso demais é o grande mérito do game. Graças a isso, ele consegue entregar uma experiência estável e sólida.

Minha impressão é que a id Software e a Avalanche Studios preferiram (com razão) se manter em uma área segura, sem muita firula ou enfeite, para aproveitar o conhecimento e os pontos fortes de cada estúdio. Isso se destaca, principalmente, na qualidade do combate, o grande forte da desenvolvedora de Doom.

Quem é passageiro de primeira viagem vai poder aproveitar a aventura tranquilamente, mas quem o game anterior vai curtir um pouco mais, graças a referências e o retorno de personagens. Com isso, o título entregou o que vinha prometendo e pode divertir tanto novatos quanto veteranos. Afinal, tem ação para todo mundo.


Rage 2 será lançado em 14 de maio para PC, Xbox One e PlayStation 4. Este review foi feito com uma cópia de PC cedida pela Bethesda.