Os Mercenários 4 não consegue disfarçar a estranheza e o cansaço | Crítica

Franquia mostra que já passou do ponto com aventura artificial ao extremo

Arthur Eloi Publicado por Arthur Eloi
Os Mercenários 4 não consegue disfarçar a estranheza e o cansaço | Crítica Os Mercenários 4/Divulgação

Os Mercenários foi um verdadeiro evento cinematográfico. O primeiro filme reuniu nomes de peso do passado, como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, e os colocou ao lado de astros de ação contemporâneos, como forma de demonstrar que os brucutus que fizeram história ainda merecem uma aventura final. O problema é que isso foi há 13 anos e três filmes atrás.

Ainda existe espaço para essa franquia? Julgando por Os Mercenários 4, o mais novo capítulo, não é errado dizer que talvez a saga já tenha dado o que tinha para dar — ou que precise melhorar para continuar existindo, pelo menos.

No novo filme, o grupo de brucutus precisa se reunir novamente para lidar com uma potencial ameaça em escala global: um terrorista chamado Suarto Rahmat (Iko Uwais), que busca roubar ogivas nucleares e forjar um ataque norte-americano à Rússia. Para evitar o pânico mundial, a equipe precisa agir nas sombras, custe o que custar.

O longa sequer perde tempo para estabelecer um mundo interessante ou qualquer profundidade na trama. Na verdade, as explosões começam em menos de um minuto de duração. Não é um problema, visto que a produção entende que suas forças são a ação e os astros em tela. O que incomoda é como a percepção das próprias qualidades não se traduz em algo competente.

Os Mercenários 4 consegue a façanha de desperdiçar o excelente Iko Uwais em um vilão sem graça [Créditos: Divulgação]
Os Mercenários 4 até entretém pelo caos constante, pela surpreendente sanguinolência e pelas interações entre os astros, mas absolutamente tudo é feito de forma corrida e meia boca. A ação é funcional apenas, picotada em cortes rápidos e pouco inventiva. Os diálogos são, naturalmente, repletos de frases de efeito que soam mais largadas do que nunca em meio a conversas travadas.

Tudo é bizarro. Não por ser um filme que prioriza a ação, mas sim porque nada parece feito por gente de verdade. Nenhum ambiente parece real. Nenhum papo parece minimamente com algo que humanos falariam. As cenas de ação que escancaram telas verdes e CGI de procedência duvidosa apenas aumentam essa sensação. Dá até para sair do cinema pensando que tudo é fruto de inteligência artificial.

Quando se trata de ação, um gênero que costuma ser desmerecido nas rodas de cinefilia, é comum que apontem que qualquer porcaria é passável e que esperar algo a mais é um problema de expectativas. Mas, dessa vez, o próprio filme reflete certo cansaço em todos os âmbitos. A fórmula já não soa mais retrô e saudosista, e sim pouco inspirada.

Os Mercenários 4 transmite o desgate dos atores e da fórmula [Créditos: Divulgação]
Vilões medíocres, reviravoltas sem peso e a falta de um conflito intrigante criam uma jornada sem sal ou personalidade. Os atores mais velhos parecem estar apenas para cumprir tabela — salvo por Jason Statham, que já é considerado “velha guarda” dentro da franquia e que mantém o mesmo nível de comprometimento em tudo que faz.

É até curioso como a trama leva esse desgaste aos personagens. Christmas (Statham) revela sofrer ataques de pânico por sua ocupação e cogita mudar de vida. Barney (Stallone) aparece apenas para reclamar de dor nas costas e depois some de tela, motivado pelo fato de que seu intérprete já anunciou que não fará mais nenhum capítulo da franquia. Há até uma piada recorrente de que Gunner (Dolph Lundgren) não é mais um sniper tão eficiente por conta da idade ter afetado sua visão. “A mira da minha arma tem lentes de grau”, ele chega a brincar em determinado momento.

Já nos novatos, o filme falha em trazer rostos relevantes do gênero de ação nos dias de hoje. A graça dos antecessores era reunir passado e presente na mesma equipe. O novo, porém, não convence ao reunir Megan Fox, um terrível 50 Cent ou os desconhecidos Jacob Scipio e Levy Tran.

Os nomes mais promissores da nova geração são Iko Uwais (Operação Invasão) e Tony Jaa (Ong Bak), mas o longa consegue a façanha de subutilizar o enorme talento de porradaria dos ambos. Qual o sentido de trazer os principais nomes do cinema de briga indonésio e sequer deixá-los mostrar o que fazem de melhor?

Elenco novato de Os Mercenários 4 não segura as pontas [Créditos: Divulgação]
Os Mercenários 4 não consegue fazer jus ao peso de seu elenco. O filme confunde desleixo com simplicidade e entrega algo mal feito, sem nenhum tipo de conflito intrigante, tensão ou momento marcante. Há certo aproveitamento a ser tirado, como as interações entre personagens e algumas cenas de ação divertidas e sangrentas, mas tudo é tão artificial e sem gosto que a sensação de euforia não dura muito.

Talvez a franquia esteja certa em questionar o próprio lugar nos dias de hoje. Os tempos mudaram e o padrão do gênero subiu, graças a obras como John Wick, Operação Invasão, A Noite Nos Persegue e muito mais. Para se manter relevante, é preciso fôlego que esse filme não demonstra ter.

Os Mercenários 4 já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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