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Only Murders in the Building, caso Richthofen e a obsessão por true crime

Produções inspiradas em fatos fazem cada vez mais sucesso, mas vão além dos crimes em si

Camila Sousa Publicado por Camila Sousa
Only Murders in the Building, caso Richthofen e a obsessão por true crime

Não há dúvidas de que o ser humano tem uma curiosidade mórbida. Basta ver o trânsito que se forma ao redor de acidentes de trânsito, com pessoas que não querem – e ao mesmo tempo querem – ver o que aconteceu. Esse sentimento também aparece em relação ao true crime, gênero de filmes, literatura e até podcasts, voltado para narrar eventos trágicos que aconteceram com pessoas reais.

No Brasil, tal gênero ganhou fôlego nos últimos anos com o lançamento de podcasts, comprovadamente uma mídia que gera uma grande aproximação com o público. E esse é o gancho de Only Murders in the Building, série do Star+ que tem Steve Martin, Martin Short e Selena Gomez no elenco. Os três são aficionados por um podcast de true crime, até que um assassinato acontece no prédio em que eles moram.

A partir daí a curiosidade dos três, antes era sanada por horas imaginando as cenas narradas nos áudios, se projeta para a vida real, e eles começam a investigar não oficialmente quem teria matado o jovem Tim Kono. Mas se engana quem pensa que Only Murders in the Building é realmente sobre desvendar crimes. Na verdade, a série usa esse tema para falar sobre os segredos que todos nós escondemos.

Camadas de uma cebola

Em certo momento da série, é dito como os eventos narrados no true crime são como uma cebola, sempre com novas camadas. E essa é a mesma construção feita com os protagonistas. Charles-Haden Savage (Martin), por exemplo, tem dificuldades em se relacionar após uma experiência ruim. Oliver Putnam (Short) teve uma grande frustração em sua carreira e está constantemente tentando deixar isso para trás, e Mabel (Gomez) é uma jovem aparentemente comum, mas que passou por um trauma em seu grupo de amigos.

O fascínio que cada personagem de Only Murders in the Building tem pelo true crime é uma tentativa de deixar os traumas e a monotonia da vida real de lado. Enquanto no mundo comum eles precisam enfrentar seus demônios, ao mergulhar no universo de crimes reais tudo é trocado por uma narrativa instigante, capaz de fazer qualquer um esquecer dos problemas cotidianos.

A série, original do Hulu, não é muito sutil ao mostrar tais ideias, já que os personagens ouvem algo muito parecido de uma policial que está investigando o caso (“em que podcast vocês estão viciados?”). Mas em sua simplicidade ao contar essa história, Only Murders in the Building consegue cativar e até nos fazer pensar sobre nós mesmos em certos momentos. Será que, com ou sem true crime, não estamos sempre obcecados com alguma coisa, sempre tentando esquecer os problemas do mundo real?

Caso Richthofen e os lados de uma mesma história

Mas talvez não seja apenas isso. Quem gosta do gênero de true crime defende que tais produções trazem um olhar mais profundo sobre psique humana. Afinal, como é possível uma filha arquitetar o assassinato brutal dos próprios pais?

Essa é a narrativa de A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais, dois filmes sobre o caso Richthofen lançados recentemente no Prime Video. A trama é uma das mais conhecidas da história recente do Brasil: segundo o julgamento, Suzane von Richthofen planejou a morte dos pais, Manfred Albert von Richthofen e Marísia von Richthofen, executada por seu namorado, Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Cristian Cravinhos.

Baseados nos depoimentos dos réus, os filmes contam duas versões da mesma história: na primeira, Daniel (papel de Leonardo Bittencourt) é um jovem de classe média manipulado por Suzane (papel de Carla Diaz). Na segunda, Suzane era uma garota rica e ingênua, que se deixou levar pela ambição do namorado. Em comum, os dois filmes mostram como os dois se conheceram e qual foi o caminho que levou à execução de Manfred e Marísia.

A curiosidade, neste caso, tem um motivo claro. Após anos com a mídia cobrindo o crime e as condenações de Suzane e dos irmãos Cravinhos, há muita dúvida do público comum sobre como tudo isso aconteceu: como foi a manhã do dia do crime, como eram os pais de Suzane, qual era a relação dela com Daniel e com sua família? Tudo isso é mostrado nos filmes e gera uma curiosidade normal, até mesmo em quem não é fã de true crime.

Ao contrário de Only Murders in The Building, A Menina Que Matou os Pais e O Menino Que Matou Meus Pais não falam sobre um escapismo da realidade, mas trazem uma realidade muito crua e difícil de aceitar: será que qualquer um de nós pode ter convivido com alguém como Suzane, seja em nosso trabalho, na escola, ou até mesmo em nossa casa?

Essas duas abordagens deixam claro por que o gênero de true crime tem ganhado cada vez mais fãs. Embora algumas narrativas sejam pesadas e difíceis de acompanhar, não há dúvidas de que o gênero tem a capacidade de mexer com vários sentimentos humanos, desde a necessidade de fuga da realidade, até a curiosidade e o medo.

A Menina Que Matou os Pais e O Menino Que Matou Meus Pais estão disponíveis no Amazon Prime Video. Only Murders in the Building está disponível no Star+ e já teve sua segunda temporada confirmada.

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