O Último Duelo e o desafio de fazer uma história de época com temas contemporâneos

Roteiristas e astros do filme falaram sobre adaptação da história de Marguerite de Carrouges

Camila Sousa Publicado por Camila Sousa

Quem se dedica a estudar a história costuma dizer que ela é cíclica. Ou seja, embora o modo de vida evolua de tempos em tempos, também é comum existir algum tipo de regressão, em que a humanidade (in)felizmente, retoma pensamentos há muito abolidos. É com esse contexto que chega aos cinemas O Último Duelo, filme de época dirigido por Ridley Scott e escrito por Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon (os dois últimos também estrelam).

Inspirado no livro de Eric Jager, que conta uma história real, o longa mostra que Marguerite de Carrouges (Jodie Comer) acusa o escudeiro Jacques Le Gris (Adam Driver) de atacá-la durante a ausência de seu marido, Sir Jean de Carrouges (Damon). A forte acusação é levada até o Parlamento de Paris, que decide que tudo será resolvido em um duelo – o último instituído por eles.

Com essa premissa e por ser uma história de época, O Último Duelo fala bastante sobre o papel da mulher na Idade Média francesa, e como a acusação de Marguerite foi desacreditada diversas vezes.

“A construção que tínhamos [do livro], é que o mundo das mulheres era totalmente ignorado e invisível, e é dessa forma nos dois primeiros atos do filme”, explica Damon durante coletiva de imprensa realizada no último sábado (9). “E então tudo é revelado no terceiro ato. Ben e eu estávamos adaptando o livro, enquanto Nicole estava escrevendo um roteiro original. Os homens da época descreviam em detalhes o que estavam fazendo, mas não falavam sobre as mulheres. Então Nicole criou o mundo de Jodie, o mundo de Marguerite, do zero”.

Para Affleck, esse contexto poderia tornar Marguerite uma personagem exagerada, mas ele ressalta como Nicole Holofcener criou uma personagem com a qual é fácil se relacionar: “Parece uma versão de mulheres que já vimos em outros filmes. Queríamos explorar o fato de que, historicamente, as pessoas estão muito acostumadas com mulheres em papéis secundários e terciários. Então isso é fora do comum, mas ela [Jodie Comer] estava disposta a interpretar tudo isso de uma forma poderosa e elegante, que mostra a diferença entre um personagem bidimensional e uma pessoa tridimensional e completa”.

Ficção vs realidade

Marguerite confronta o marido

O trabalho de Nicole Holofcener precisou de mais pesquisa e ajuda da equipe de produção, especialmente para descobrir mais sobre quem foi Marguerite de Carrouges, e como era essa mulher para além da acusação que tornou sua história famosa. Apesar disso, Holofcener descreve a criação do roteiro como algo muito parecido com outros trabalhos:

“É como eu escrevo todos os personagens. Ela é uma mulher que tem certos talentos, habilidades e uma personalidade. Ela tinha amigos. Estava triste porque não conseguia ter um bebê. A partir do momento em que comecei a escrever e peguei o jeito, tirando toda a parte de ‘milady e milorde’, ela era apenas isso: uma mulher incrível e muito corajosa”.

Jodie Comer, estrela de Killing Eve que ficou com a responsabilidade de interpretar Marguerite, ressaltou que acha importante que essa história seja contada, ainda que seja uma temática difícil:

“Sempre é importante contar essas histórias. A parte triste é que podemos relacioná-la com várias histórias que já aconteceram. Mas é relevante. São assuntos delicados, que precisam ser tratados com sensibilidade. No nosso caso, tivemos um cuidado especial com as cenas de estupro, para que elas não fossem gratuitas. Elas precisavam levar a história adiante. Infelizmente, muitas pessoas vão assistir a este filme e vão se relacionar de alguma forma. E pode ser difícil de assistir e também é difícil de fazer. Mas eu acredito que não devemos nos esquivar por causa disso, precisamos apenas tratar o assunto com cuidado”.

Para Affleck, os paralelos entre o período histórico mostrado no filme e o mundo atual, especialmente sobre acreditar ou não nas mulheres, não estão lá à toa: “Isso foi algo deliberado. Parte do que queríamos fazer era pontuar como as instituições podem ser corruptas, moralmente falidas e misóginas, e como elas criam pessoas que reproduzem esses valores. A cultura que predomina hoje vem dessa outra cultura, e é assim que as pessoas são educadas e têm seus comportamentos encorajados”.

O Último Duelo chega aos cinemas brasileiros em 14 de outubro.

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