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O Peso do Talento | Crítica

Comédia diverte ao celebrar com sinceridade a lenda de Nicolas Cage

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
O Peso do Talento | Crítica

É impossível encontrar um consenso quando o assunto é Nicolas Cage. Astro de ação, vencedor do Oscar, ator exagerado, fonte de memes e protagonista de produções questionáveis são algumas das formas de encarar um dos maiores nomes da história de Hollywood. Essa natureza única de sua carreira inspirou O Peso do Talento, filme em que Cage interpreta a si mesmo. Menos insano do que parece, o longa diverte ao celebrar com sinceridade a lenda em torno de sua grande estrela.

A produção acompanha um Nicolas Cage falido em busca de um grande papel que o coloque em evidência novamente. Enquanto a chance não aparece, ele é pago para fazer uma aparição no aniversário do fã Javi (Pedro Pascal), homem acusado de tráfico internacional de armas pela CIA. Pego no meio da investigação, o astro é forçado a bancar o agente duplo para ajudar a agência a prender o criminoso.

Ter Nic Cage como Nic Cage em um filme que leva em conta sua jornada cinematográfica no mundo real é uma ideia tão forte, que não é de se estranhar que O Peso do Talento se contente em não ir muito além disso.

Ainda que a trama coloque o protagonista em uma jornada que envolve espionagem e drama familiar, falta ao diretor Tom Gormican, que assina o roteiro ao lado de Kevin Etten, o senso de anarquia que se espera de um projeto desses. Muitos dos desdobramentos da história são rasos e previsíveis, e não ajuda o fato da direção ser despretensiosa e convencional, brilhando mais quando presta homenagens a outros filmes.

Em qualquer outro projeto, isso seria o bastante para O Peso do Talento se tornar mais um longa de ação com comédia esquecível, que mais chama a atenção por seu elenco do que por suas qualidades. Acontece que esse não é qualquer projeto, e a dupla acerta em cheio no que realmente importa para a proposta, que é celebrar as várias faces de Nicolas Cage.

É fácil perceber como a intenção dos realizadores é fazer justiça ao status de ícone do ator, e atinge esse objetivo ao retratar os altos e baixos que o levaram até ali. Mais do que protagonista, Cage surge como o muso inspirador de uma história que traduz de forma artística seus sucessos e fracassos, sem nunca perder o fio da meada ou parecer forçado.

Esse objetivo é cumprido de diferentes formas e, como esperado, não faltam homenagens a seus grandes sucessos. Desde a abertura, em que uma personagem assiste a Con Air – A Rota da Fuga (1997), o longa promove uma verdadeira chuva de referências que surgem de todas as formas possíveis. Felizmente, elas são incorporadas à trama de forma que não atrapalha ou aliena um possível espectador iniciante que caiu ali de paraquedas.

Mas é inegável que os fãs de Cage terão uma experiência mais completa ao pescar esses tributos. Além dos que surgem de formas mais diretas, como o museu de Javi ou a recriação de momentos icônicos dos maiores filmes do ator, há também os mais sutis, que estão ligados à persona que o astro construiu fora das telas.

Com isso, o roteiro aproveita as possibilidades que só uma figura tão incomum quanto seu protagonista poderia trazer. É notável o esforço para incorporar elementos do mundo real aos caminhos do enredo fictício, o que torna O Peso do Talento uma teia metalinguística que também se destaca fora da comédia.

Essa metalinguagem aparece também para dar a Nicolas Cage a chance de expressar como enxerga a si mesmo e o mundo que o cerca. Mesmo se tratando de uma versão fictícia e roteirizada, é possível perceber muito da filosofia que o verdadeiro Nic Cage compartilha em entrevistas e bate-papos sendo exposta em uma obra de arte.

Não é à toa que alguns dos momentos em que o ator mais brilha são justamente os que filosofa sobre como encara a arte, a indústria cinematográfica e até a si mesmo. É assim que o bordão de que “nunca foi a lugar algum” soa menos como uma frase de efeito e mais como um desabafo, já que ele nunca se afastou dos holofotes mesmo que os grandes estúdios tenham lhe virado as costas na última década.

Essa construção cuidadosa dá ao astro toda a condição de brilhar como um homem egocêntrico e mau humorado, mas que realmente acredita no que faz e se nega a ser de outra maneira. Um capricho que se agiganta a relação entre ele e Javi, que brilha graças às trocas entre Cage e Pedro Pascal, que evita cair na caricatura de fã e promove um dos bromances mais divertidos dos últimos tempos.

No fim das contas, O Peso do Talento pode não ser o festival de caos e absurdos que o nome “Nicolas Cage” sugere. Por outro lado, ele propõe uma celebração tão sincera e apaixonada ao legado do ator que suas falhas se tornam um pequeno preço a pagar por uma experiência tão divertida. E talvez não haja nada mais Nicolas Cage do que rir das próprias falhas e fazer delas a força para ir em frente.

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