O Matador | Crítica

Primeiro filme brasileiro da Netflix brilha ao retratar o interior de Pernambuco

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
O Matador | Crítica

Em 1956, João Guimarães Rosa lançava no Brasil Grande Sertão: Veredas, livro que retratava o interior do país e dava aos jagunços uma profundidade que nunca tinha sido vista antes. Agora em 2017, o diretor Marcelo Galvão bebe na fonte do romance de Rosa e traz um novo olhar para o sertão e apresenta-o para o mundo em O Matador, primeiro filme brasileiro da Netflix.

Existem muitas semelhanças entre as duas obras: ambas são contadas por um jagunço como um grande compilado de histórias aparentemente desconexas sobre o mesmo tema, trazem um elemento místico que se apresenta na forma de um pacto com uma entidade espiritual, apresentam questões existenciais e dão uma profundidade ao sertão que normalmente não é vista em tramas ambientadas no interior do país, que costumam mostram uma versão caricata do nordeste brasileiro.

Apesar da essência em comum, O Matador se separa de sua principal inspiração ao dar uma identidade mais contemporânea para a narrativa e um ritmo mais ágil do que a obra de Guimarães Rosa. A trama do longa gira em torno de Cabeleira (Diogo Morgado), um homem que foi criado por um cangaceiro que desapareceu sem deixar pistas quando ele ainda era criança. Já adulto, ele sai em busca daquele que praticamente foi seu pai e acaba encontrando uma cidade dominada por um excêntrico milionário que não se importa com nada além de seus próprios interesses. Com isso, o protagonista acaba se tornando um dos maiores matadores da região.

Em aspectos gerais, a direção de Galvão é eficiente, trazendo cores quentes que refletem o calor e a secura do sertão e planos abertos que conseguem abraçar toda a vastidão do interior de Pernambuco. O maior problema em termos estéticos é que em certos momentos temos uma inconsistência na visão do diretor — algumas cenas são deslumbrantes e trazem uma “cara de cinema”. Outras apresentam enquadramentos e luzes comuns em novelas e tiram um pouco o brilho da narrativa.

O roteiro é eficiente e progride de forma orgânica, costurando várias histórias distintas e desconexas em uma única jornada, com um ritmo rápido e personagens marcantes. Os diálogos truncados, no entanto, reduzem o ritmo de forma negativa. Os atores se esforçam ao máximo para transmitirem a ideia de que são todos nativos de Pernambuco e conseguem fazer um trabalho decente, porém, fica claro que tudo aquilo foi escrito por um carioca que não fez uma grande pesquisa linguística para entender como as palavras e as frases são formadas e pronunciadas no nordeste brasileiro — isso, mais uma vez, dá ao longa um aspecto de novela que tira o espectador de dentro da narrativa.

Apesar disso, o roteiro de Galvão consegue construir um sertão vivo e palpável. De longe, o mais interessante de O Matador é ver como a cidade que serve de cenário é organizada, as ideias e superstições de moradores e entender os diversos dilemas psicológicos do protagonista — que em diversas cenas aparece dividido entre o desejo de matar aqueles que lhe fizeram mal e a vontade de conseguir se conectar emocionalmente com alguém.

O elenco traz nomes como Maria de Medeiros (Pulp Fiction), Etienne Chicot (O Código da Vinci), Mel Lisboa (Sete Pecados), Chico Gaspar (Selva de Pedra), Marat Descartes (Quando eu era Vivo) e Thaila Ayala (Pica-Pau). O destaque mesmo fica nas mãos de Diogo Morgado que sabe dosar brutalidade e doçura em Cabeleira, conseguindo transmitir a selvageria e as paixões do personagem.

O Matador pode não ter a força narrativa da obra de Guimarães Rosa que lhe serviu como principal inspiração — a jornada de Cabeleira não é tão interessante como a travessia de Riobaldo. Apesar disso, o longa é um bom primeiro passo para se mostrar outras facetas de nossa brasilidade que não são tão conhecidas mundo afora.


O Matador já está disponível na Netflix.

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