O Irlandês | Crítica

Scorsese esbanja técnica e elenco brilha em um épico de máfia que já nasce clássico.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
O Irlandês | Crítica

Curiosamente, foi o intérprete do mais emblemático mafioso do cinema, Marlon Brando, quem disse certa vez a Martin Scorsese: “Não faça outro filme de gângster (…). [Você] não tem de fazer isso”. O conselho do astro se referia a um projeto então em estudo e que, tempos depois, viria a se concretizar sob o título Os Bons Companheiros (1990). A observação não veio do nada — na época, muitos imaginavam que o diretor repetiria temas que já havia abordado em Caminhos Perigosos (1973) e, de modo mais periférico, em Touro Indomável (1980). Também não foi a última vez que ele ouviu algo do tipo. Preocupações semelhantes foram levantadas por críticos e gente da indústria quando foram anunciadas as produções de Cassino (1995) e Os Infiltrados (2006), que lhe rendeu um Oscar tardio.

A evidente atração de Scorsese por esse universo pode ser parcialmente explicada por suas origens. Como descendente de italianos nascido e criado em Nova York, ele cresceu cercado pelos personagens que mais tarde procurou retratar: dos peões, com seu dia a dia repleto de riscos, em Caminhos Perigosos — escrito por ele e Mardik Martin, assumidamente inspirado em um tio paterno, que tinha conexões com uma famiglia do crime —, aos soldados em posição hierárquica um pouco mais elevada, com seu glamouroso estilo de vida, em Os Bons Companheiros e Cassino. Ainda assim, é injusto atribuir as motivações do cineasta apenas à familiaridade com o assunto. “São os extremos de comportamento encontrados no submundo que o fascinam”, definiu o jornalista Richard Schickel no livro Conversas com Scorsese.

O Irlandês está longe de ser apenas mais uma empreitada do diretor no tal “filme de gângster”. Para começar, o longa-metragem marca seu reencontro com Robert De Niro, Harvey Keitel e Joe Pesci — que, aposentado, só retornou graças à insistência dele e de De Niro — e sua primeira colaboração com Al Pacino, o que por si só já é notável. Além disso, trata-se do trabalho de um artista em uma diferente fase de sua carreira, que oferece, ao mesmo tempo, um novo olhar sobre paisagens conhecidas e uma reflexão acerca de suas incursões anteriores, bem como do próprio gênero que ajudou a definir.

O roteiro, assinado por Steven Zaillian, adapta o homônimo livro de não-ficção de Charles Brandt, publicado originalmente em 2004 como I Heard You Paint Houses (em tradução livre, “ouvi dizer que você pinta casas”) — este seria um jeito cifrado de solicitar os serviços de um assassino de aluguel, em referência ao sangue da vítima respingando nas paredes. Ele narra a trajetória de Frank Sheeran (De Niro), o tal “irlandês” do título: veterano da Segunda Guerra Mundial e motorista de caminhão, ele passou a trabalhar para Russell Bufalino (Pesci), chefe da máfia na região da Pensilvânia, e, mais tarde, se tornou braço direito de Jimmy Hoffa (Pacino), influente presidente de um sindicato trabalhista.

Polêmico, o relato de Frank, conforme apresentado pelo autor do livro, já teve sua credibilidade questionada por investigadores e jornalistas, que o taxaram de fantasioso. Para o longa, pouco importa — no contexto da trama, certos crimes, bem como o destino de Hoffa (até hoje desconhecido), só têm relevância para os personagens envolvidos. Porém, Scorsese parece não comprar totalmente a versão. Basta notar a ausência dos tradicionais dizeres “baseado em eventos reais” no início, bem como o toque de sarcasmo no assassinato de Joseph “Crazy Joe” Gallo (Sebastian Maniscalco), ostensivamente filmado como em um western, com direito a pistoleiro com uma arma em cada mão e vítima voando pela porta do estabelecimento comercial.

Critica O Irlandês

Em plena forma aos 76 anos, o cineasta exibe destreza de sobra, seja no uso dos movimentos de câmera — o tracking no asilo no terceiro ato, por exemplo, emula a imperceptível passagem do tempo —, seja no blocking (posicionamento dos atores) e na escolha dos enquadramentos, que tanto no boliche quanto na celebração de Natal reforçam a dinâmica de relações entre três personagens. A longeva parceria com Thelma Schoonmaker, responsável pela montagem de todos os filmes de Scorsese desde Touro Indomável, também faz a diferença, resultando em edições primorosas, como a da cena do atentado. Do ponto de vista técnico, o único deslize é no emprego da tecnologia de rejuvenescimento digital. A primeira aparição do jovem Frank, logo no início, causa bastante estranheza; felizmente, no decorrer do longa, a sensação vai diminuindo.

O elenco, obviamente, é uma das virtudes e inclui alguns nomes de peso em participações reduzidas, caso do já citado Harvey Keitel (como o chefão Angelo Bruno), além de Ray Romano (o advogado Bill Bufalino, irmão de Russell) e Anna Paquin, que, na pele de Peggy, filha de Frank, tem somente uma fala. A suposta subutilização de uma atriz tão conhecida ganha sentido quando se observa que sua presença ressalta um dos principais aspectos da vida pessoal do protagonista: a negligência com relação à família. Mas, como era de se esperar, quem brilha mesmo é o trio central. De Niro tem atuação consistente, com picos de brilhantismo (a cena do telefonema merece aplausos); Pacino, à vontade interpretando uma figura complexa, faz sua melhor performance em décadas; e Pesci surpreende como figura paterna e comedida, o oposto dos papéis nos quais se consagrou.

Por sinal, essa pequena subversão de expectativas é apenas uma das instâncias em que o diretor promove uma nova leitura para elementos outrora explorados. Há referências evidentes a longas anteriores, como a visita ao Copacabana. Enquanto em Os Bons Companheiros o clube noturno nova-iorquino era retratado como a meca dos mafiosos, em um estupendo e hoje célebre plano sequência, aqui ele se torna a representação da vaidade e insolência de um antagonista.

Outros tópicos são revisitados com mais sutileza, caso do fetiche da violência — explicitado na brutal execução de Nicky Santoro (Pesci) em Cassino, ele ganha novos contornos em O Irlandês, onde os assassinatos e atos de brutalidade, embora igualmente chocantes, são mostrados de maneira seca, corriqueira. A exceção fica por conta do espancamento de um comerciante, realizado com inesperada falta de desenvoltura por parte do agressor, em contraste com a eficiência sádica dos valentões de filmes passados. O episódio também é filmado à distância, por uma câmera estática, e se demora além do habitual, mostrando, inclusive, a reação dos transeuntes, o que sublinha suas futuras consequências.

De modo similar, a conclusão é mais compassada. O que seria considerado uma espécie de epílogo estendido nos outros épicos de crime do cineasta constitui o argumento central do novo trabalho. Em última análise, O Irlandês é sobre um homem confrontado pelo peso das próprias escolhas em um universo que não se pauta pelas leis convencionais — e desta vez, Scorsese demonstra surpreendente empatia por seu protagonista.

O Irlandês Crítica

Por fim, é preciso falar sobre a duração. Três horas e meia intimidam, especialmente para quem decidir assistir na telona, antes da estreia na Netflix (marcada para 27 de novembro). No entanto, não há excessos — o longa tem um tempo próprio, cadenciado, em que o desenvolvimento dos personagens merece tanta atenção quanto o avanço da trama. Isso é exemplificado por uma extensa sequência no terceiro ato, em que o suspense é construído pouco a pouco, com a tensão sendo momentaneamente dispersa por eventuais rompantes de humor, até culminar em um desfecho abrupto, quase um anticlímax. Mesmo que não seja algo intencional, a impressão é que o diretor quis celebrar o cinema à moda antiga, da época em que não era regra seguir o ritmo frenético dos parques de diversão.

Scorsese não tem de fazer filme nenhum — apenas o que ele quiser.