O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio | Crítica

Talento dos astros e ação caprichada não bastam para salvar a franquia

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio | Crítica

“Estamos fingindo que os outros filmes foram um sonho ruim. Ou uma linha temporal alternativa, que é algo admissível no nosso multiverso”, disse James Cameron em uma entrevista em setembro de 2017, referindo-se aos três antecessores de O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio, então em fase de pré-produção. Como criador da franquia, ele tem autoridade de sobra para apontar quais capítulos são canônicos e quais são apócrifos. E como diretor e corroteirista de suas duas melhores iterações, está em posição para tripudiar das demais.

A gritante queda em qualidade ao longo da série é indicativo do elevado padrão estabelecido por Cameron no início. Além de toda a questão técnica, os primeiros longa-metragens se notabilizaram pela história. O Exterminador do Futuro (1986) trouxe uma premissa atraente e suficientemente nova (embora não totalmente original), ao passo que O Julgamento Final (1991) conseguiu expandi-la com plot points engenhosos — caso do braço mecânico remanescente do T-800 (Arnold Schwarzenegger) como origem da tecnologia que possibilitou o surgimento da Skynet — e excelente desenvolvimento dos personagens, em especial a evolução de Sarah Connor (Linda Hamilton) de dama em apuros a heroína badass.

Mais do que isso, os dois filmes apresentaram um arco dramático progressivo — a inexorabilidade do destino no primeiro deu lugar ao futuro em aberto no segundo — e de tal modo conclusivo que forçou as sequências a fazer certa ginástica narrativa. A Rebelião das Máquinas (2003) foi marcado pelo retrocesso temático ao retomar a ideia de sina; A Salvação (2009) apostou na mudança de cenário, concentrando-se no futuro distópico; Gênesis (2015), por sua vez, recorreu ao reboot e colocou os eventos conhecidos de pernas pro ar.

O retorno de Cameron parecia indicar que a franquia retornaria à forma, ainda mais com a intenção de não apenas ignorar os predecessores como também aprender com seus erros. “Uma coisa que pareceu óbvia ao olhar para os filmes que vieram depois [dos dois primeiros] foi que nós precisaríamos voltar ao básico, evitar deixar as coisas complexas demais e evitar histórias que ficassem pulando no tempo”, observou o cineasta, que oficialmente atuou em Destino Sombrio apenas como produtor, deixando a direção a cargo de Tim Miller e o roteiro nas mãos de David S. Goyer, Justin Rhodes e Billy Ray.

De fato, a trama é bastante direta. A humana Grace (Mackenzie Davis), dotada de melhorias cibernéticas, é enviada ao passado para proteger Dani (Natalia Reyes), uma garota que terá papel fundamental na resistência contra as máquinas e, por isso, se torna alvo de um avançado modelo de exterminador, o Rev-9 (Gabriel Luna). Em um de seus encontros com o robô, elas são salvas por Sarah Connor (Linda Hamilton), que a partir daí se junta à dupla em sua missão de sobrevivência.

O primeiro ato funciona bem, mostrando de cara um dos pontos fortes do novo longa: a ação. Além de bem encadeada — não há sequências gratuitas, cada uma é movida pelo enredo —, ela é filmada com bastante competência por Tim Miller, principalmente a perseguição na estrada e os confrontos diretos com o exterminador, nos quais nem mesmo o pesado uso de computação gráfica consegue dispersar a atenção.

O elenco é outro trunfo. A volta de Hamilton é bem-vinda — a atriz parece jamais ter se afastado da personagem que lhe deu fama e que agora surge em uma versão mais amargurada e sarcástica. Schwarzenegger novamente está à vontade na pele do T-800 e continua mostrando carisma e timing cômico. O grande destaque, todavia, é para Davis, que esbanja desenvoltura nas tomadas físicas e talento dramático nos momentos emotivos.

A exemplo do que ocorre com boa parte dos blockbusters atuais, as falhas resultam de um roteiro problemático, que, neste caso, passou por diversos tratamentos e continuou sendo trabalhado com as filmagens em andamento. Réu confesso, Cameron ficou insatisfeito com o que havia sido entregue e chegou ao cúmulo de enviar alterações um dia antes de as cenas serem rodadas. Desse modo, em muitos pontos o script se apoia em elementos questionáveis.

Sem entrar em detalhes a fim de evitar spoilers: a trama central parte de uma premissa que, sem o devido aprofundamento, acaba depreciando os acontecimentos dos dois primeiros filmes. Já a subtrama envolvendo Sarah e o T-800 gira em torno de um evento polêmico que ocorre logo no começo e de um conceito frágil apresentado mais à frente — se porventura o espectador não comprar apenas um deles, esse núcleo inteiro acaba prejudicado. Além disso, há uma informação tida como a grande revelação, mas que na verdade é previsível e pouco consequente. Por fim, a resolução do problema principal depende de um deus ex machina.

Pior mesmo é o tratamento dado a Dani, que deveria ser uma espécie de “nova Sarah”. No entanto, a personagem é tão mal desenvolvida que acaba funcionando apenas como MacGuffin (objeto cujo único propósito é avançar o enredo), chegando a precisar ser lembrada de sua motivação, durante a constrangedora sequência do treinamento.

No fim das contas, Destino Sombrio acaba caindo nas mesmas armadilhas que as sequências anteriores, em uma mistura de retrocesso temático, mudança de cenário e reboot. O longa pode até ostentar o selo de canônico conferido pelo realizador original, porém, na prática não há muito que o diferencie das ditas “linhas temporais alternativas”. Sensato mesmo é Schwarzenegger, que afirmou em entrevista recente: “Linda Hamilton e Jim Cameron acreditam firmemente que este [filme] é a sequência do segundo, então, deixe-os ficar com isso. Eu não vou discutir”.