Noite Passada em Soho | Crítica

Novo filme de Edgar Wright é tanto um ótimo thriller quanto um universo de referências dos anos 1960

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Noite Passada em Soho | Crítica

É uma sequência-chave em Noite Passada em Soho – e, certamente, uma das mais memoráveis. Em meados da década de 1960, no salão do Café de Paris, emblemática casa noturna londrina, a cantora aspirante Sandie (Anya Taylor-Joy) atrai todos os olhares ao tomar a pista. Provocada pelo bonitão Jack (Matt Smith), o homem que, segundo disseram, pode lhe abrir portas e ajudá-la a deslanchar na carreira, ela começa a dançar, ao som de Wade in the Water, do grupo The Graham Bond Organisation. Logo depois, o galã se junta a ela. Repetidas vezes ao longo do sedutor baile, porém, Sandie é momentaneamente substituída por Ellie (Thomasin McKenzie), a jovem estudante de moda que, aqui no tempo presente, tem visões com a cantora de outra época.

Do ponto de vista narrativo, a intenção é evidente: o que essas cenas contam é que Ellie está fascinada por aquela mulher do passado, que ela inexplicavelmente começou a enxergar e com a qual parece ter algum tipo de ligação. Mais do que isso: a garota introspectiva admira e inveja a segurança de Sandie, sua determinação e desenvoltura diante do par romântico e dos demais frequentadores da boate.

Só que há algo mais ali. O trecho também chama a atenção pelo modo como as duas personagens se alternam na dança sem cortes perceptíveis. A façanha se torna ainda mais impressionante quando se descobre que não se apoia em trucagens digitais. Como o diretor inglês Edgar Wright revelou à Vanity Fair, há apenas uma edição estratégica (favorecida pelo magnífico trabalho do operador de câmera); de resto, é de fato um plano-sequência, possível graças à coreografia executada com precisão milimétrica por Taylor-Joy, McKenzie e Smith.

Mesmo que o espectador não tenha qualquer interesse nesse tipo de informação de bastidores, o resultado é o mesmo: um senso de deslumbramento diante do que transcorre na tela, contribuindo para que ele mergulhe na narrativa maravilhosa – no sentido literário do termo, ou seja, uma história que pressupõe a aceitação dos eventos sobrenaturais sem maiores racionalizações.

Por sinal, comunicar um conceito com eficiência, a despeito de o público se dar conta disso ou não, é algo recorrente na filmografia de Wright. Pouco importa que os cuidadosos detalhes dos planos-sequências espelhados em Todo Mundo Quase Morto (2004) ou a perfeita sincronia das cenas de corrida com a trilha sonora em Em Ritmo de Fuga (2017) não sejam conscientemente captados por parte da audiência. No fim das contas, a ideia é transmitida do mesmo jeito – nos exemplos citados, a apatia e a obsessão musical dos respectivos protagonistas. Isso porque, por mais exuberantes ou rebuscados que sejam os recursos técnicos, o cineasta os emprega em benefício da trama, não como mero floreio ou exercício de estilo.

E não são poucos os recursos em Noite Passada em Soho. O roteiro, por exemplo, assinado por Wright em parceria com a escocesa Krysty Wilson-Cairns – indicada ao Oscar por seu trabalho em 1917 (2019), de Sam Mendes –, explora de modo competente o foreshadowing (presságio), que consiste na antecipação de elementos fundamentais da trama, a fim de amarrar o enredo e/ou aprofundar o suspense.

Logo na introdução, Ellie brinca no espelho, escolhendo o nome artístico que pretende adotar quando se tornar uma estilista famosa; a cena se conecta com outra posterior, em que Sandie usa um apelido diferente para cada interlocutor masculino. Além de atrelar as duas ao tema da busca por identidade, isso sugere, com antecedência, a importância dos nomes na resolução do mistério final.

De modo semelhante, o fato de Ellie ignorar informações cruciais, insinuadas pelo característico vocabulário de certo personagem (“proteger”, “interrogatório”) e pelo teor das manchetes em jornais antigos, funciona como prenúncio para duas descobertas que ela faz mais tarde, o que contribui para ampliar seu caráter trágico.

O competente uso de ferramentas narrativas não se limita à parte textual. Nas mãos do sul-coreano Chung-hoon Chung – responsável por filmes como Oldboy (2003), de Park Chan-Wook, e It: A Coisa (2017), de Andy Muschietti –, a fotografia em muitos momentos evoca a paleta de cores dos clássicos cult Seis Mulheres Para o Assassino (1964), de Mario Bava, e Suspiria (1977), de Dario Argento.

São exemplares de giallo, o gênero italiano de terror/thriller psicológico que foi uma das fontes na qual Wright bebeu para empreender sua primeira incursão nesse universo. De novo: o espectador pode não identificar as referências, mas com certeza absorve a atmosfera de estranheza e delírio que os realizadores pretendem estabelecer por meio delas.

A trilha sonora também se insere nesse contexto. Com seu conhecimento enciclopédico de música dos anos 1960, o cineasta buscou faixas como Last Night in Soho, single da banda inglesa Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich, que fala sobre recomeços e inspirou o título do filme. Outro exemplo é Beat Girl, da John Barry Orchestra, tema de Garota Existencialista (1960), de Edmond T. Gréville, película sobre as desventuras de uma jovem que flerta com a ideia de se tornar uma stripper – e que Wright enumera como uma das influências em seu longa-metragem.

Desconhecer essas minúcias do repertório não interfere na percepção da música como instrumento de storytelling. Não é preciso estar familiarizado com You’re My World, sucesso na voz de Cilla Black, para notar que a faixa serve como passaporte para a primeira visita de Ellie ao passado – a qualidade do som se altera, da vitrolinha da personagem para o Dolby Digital da sala de cinema, em uma espécie de versão sonora do Technicolor que marca a chegada de Dorothy ao reino além do arco-íris em O Mágico de Oz (1939), de Victor Fleming.

Tampouco se faz necessário conhecer Downtown, originalmente gravada por Petula Clark, para entender que a música, na surpreendente interpretação à capela da própria Taylor-Joy, marca o verdadeiro momento de conexão emocional entre Sandie e Ellie. Posteriormente, ela ressurge em arranjo diferente, com andamento mais acelerado, assinalando outra transformação significativa.

Algo parecido ocorre com o elenco. O reconhecido talento de Terence Stamp já justifica sua escalação para um papel importante. Ao mesmo tempo, a presença do ator ganha novos contornos quando se considera que ele é um dos protagonistas de A Lágrima Secreta (1967), de Ken Loach – mais um título na lista de influências de Wright, que chegou a recomendá-lo como “lição de casa” para o trio principal de seu filme.

Outro destaque entre os veteranos é Diana Rigg, a lady Olenna Tyrell de Game of Thrones. Falecida em 2020, ela faz sua despedida em Noite Passada em Soho, na pele de Sra. Collins, a proprietária do imóvel para o qual Ellie se muda e, de muitas maneiras, uma figura materna para a personagem.

É preciso também elogiar o casting da dupla central. Quando conheceu Anya Taylor-Joy, recém-saída de sua estreia nas telonas, em A Bruxa (2015), de Robert Eggers, Wright a considerou para viver Ellie. Todavia, o início da produção acabou sendo adiado; nesse meio-tempo, a atriz foi se tornando cada vez mais uma estrela. Assim, o cineasta decidiu mudar o plano inicial e escalá-la como Sandie. Um enorme acerto, já que, somado à sua presença magnética (e, claro, sua capacidade dramática), o novo status de celebridade de Taylor-Joy a torna ideal para o papel da artista que monopoliza a atenção.

Em contrapartida, o fato de Thomasin McKenzie ainda ser relativamente pouco conhecida – ela foi vista anteriormente em Jojo Rabbit (2019), de Taika Waititi – contribui para que sua Ellie pareça comedida, quase apagada. E, conforme a personagem se transforma, a performance da jovem neozelandesa exibe força de sobra.

Em meio à coleção de referências que provavelmente passarão despercebidas por parte do público, há uma que poderia ajudar na interpretação do longa. Um dos objetivos de Wright foi fazer um contraponto a uma categoria de dramas da década de 1960, centrados em protagonistas femininas sonhadoras que chegam à cidade grande e têm suas aspirações esmagadas pela dura realidade. Via de regra, eram filmes escritos e dirigidos por homens, com uma visão moralista e repressora sobre as mulheres. Ao buscar uma mudança em tal perspectiva, o cineasta chegou a um desfecho que pode incomodar alguns espectadores.

No fim das contas, Noite Passada em Soho é uma obra que possibilita dois tipos de apreciação. Pode-se colocar os pés na água descompromissadamente e se deixar entreter por um thriller psicológico envolvente e bem realizado, com alguns bons sustos e reviravoltas. Ou pode-se mergulhar no vasto oceano de construções, técnicas e influências de filmes e canções que enriquecem ainda mais a experiência. Ambas as aventuras valem a pena.

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