Need for Speed Heat | Review

EA finalmente faz as pazes com a franquia Need for Speed

Jeff Kayo Publicado por Jeff Kayo
Need for Speed Heat | Review

Completando 25 anos em 2019, Need for Speed é uma franquia de inúmeras facetas. Já foi referência no gênero das corridas de rua ilegais, mas hoje em dia vive à mercê da sua própria sombra. Desde 2015 tentando se aproximar da essência adquirida com a série Underground e Most Wanted – o jogo mais vendido da franquia, acredite – o que a desenvolvedora Ghost Games alcançou com Need for Speed Heat pode ser considerado o estopim de algo promissor para a série.

Bem vindo à Palm City

Como de costume, a cada título de Need for Speed temos um novo mundo a ser explorado. Desta vez, somos agraciados com Palm City, cidade fictícia inspirada em parte por dois estados americanos: Flórida, por parte das praias e clima mais tropical, e Geórgia, com suas montanhas serpenteadas e pedreiras abandonadas.

A ideia aqui foi tentar apresentar um misto de boas ideias de outros jogos da franquias. As corridas em estradas longas e semi desertas de Hot Pursuit conseguem ser representadas de alguma forma no game, assim como os quarteirões populosos de um centro urbano como era possível de serem encontrados na série Underground.

Need for Speed Heat

Impossível não notar certas similaridades com os mapas mais recentes, como as montanhas de Ventura Bay (NFS 2015) e o centro de Fortune Valley (NFS Payback). Ainda sim, Palm City entrega toda uma versatilidade visual misturando praias, cidades, montanhas, estradas e até quase pântanos em desafios que vão das corridas em circuito, de ponto a ponto e rally.

Além disso, a impressão que dá é que nas corridas à noite, NFS Heat entrega um jogo completamente novo com seus neons espalhados pela cidade indicando a direção dos rachas ilegais.

Não basta ser rico, é preciso ser famoso também

Need for Speed Heat tenta recriar aquela ambientação das corridas ilegais, do tuning exagerado dos veículos seguindo o gosto de cada um dos jogadores, e claro, um pouco da cultura dos sleepers (carros domésticos tradicionais personalizados ao extremo), mas levando em consideração tudo que foi construído dentro da franquia até aqui.

Temos de volta, por exemplo, corridas diurnas e noturnas, só que desta vez, o controle da passagem de tempo fica totalmente nas mãos do jogador. Escolher se prefere correr de dia ou de noite reflete diretamente em como o jogador deseja evoluir suas habilidades. Completamente dentro da lei, as corridas de dia são realizadas em circuitos fechados, sem trânsito local e recompensam o jogador com prêmios em dinheiro. Já de noite, as corridas são ilegais, no meio do trânsito de Palm City e na sua grande maioria, com a polícia em seu encalço. Aqui você é recompensado com pontos reputação, indispensáveis para destravar todos os itens de personalização do jogo, assim como os veículos mais potentes.

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E correr à noite aumenta ainda mais a tensão do jogador, pois se a polícia o pegar, você perde grande parte da reputação adquirida naquela sessão. Algo mais ou menos como que acontecia com Need for Speed Rivals, em que precisávamos ir até um esconderijo para conquistarmos de fato os pontos, mas aqui numa escala mais equilibrada.

No começo será quase impossível escapar de uma perseguição de três estrelas, mas aos pouquinhos o jogador consegue carros e equipamentos melhores, além de aprender os melhores locais em Palm City para escapar da polícia.

Em linhas gerais, de nada adianta se tornar um milionário se você não tem com o que gastar. Essa é uma das partes mais interessantes de Heat para balancear a evolução do jogador. Diferentemente de outros jogos de corrida com campanhas, o famoso “grind” parece distribuir melhor as recompensas para o jogador durante a sua jornada.

Freio para quê?

Uma das coisas que mais me desapontou com Need for Speed Heat foi esse jeitinho único que o game apresenta sua principal mecânica de jogo. Dirigir aqui é diferente da maioria dos jogos de carro que estamos habituados.

Need for Speed Heat

Confesso que quase larguei o jogo com poucas horas de jogo por conta disso. Acontece que, e por favor, não me julguem pelo que vou dizer, mas frear corretamente é uma das coisas mais legais dentro de um jogo de carro. Infinitas vezes mais legal que acelerar. Diminuir as marchas, pisar firme no freio e entrar numa curva, seja de forma incisiva como um corredor de Fórmula 1, ou de lado, como um maluco apaixonado por drift. É o que separa um entusiasta de um apreciador do gênero.

E a mecânica de Need for Speed Heat praticamente pune o jogador por utilizar o freio. No entanto, uma vez que entendemos como as coisas funcionam, o jogo te conquista de uma nova maneira. E mecânicas diferentes em jogos de corrida também fazem parte desse universo mais “arcade” como um todo. É como a aceleração dupla para ganhar uma carga de nitro em San Francisco Rush, a forma absurda de vencer as curvas mais fechadas em Daytona USA e o próprio drift de Mario Kart. Sabe o que lembra bastante? OutRun.

Aqui, soltar e apertar em seguida o botão de acelerador do carro o coloca num estado de drift, em maior ou menor escala (depende do veículo e do tipo de personalização que está utilizando), e cabe a você manter a aceleração no nível certo. Tudo muito simples e mantendo a diversão que um NFS precisa ter.

Terminei NFS Heat sem querer

Um dos pontos que as pessoas mais pegam no pé da franquia NFS diz respeito à sua campanha principal. Há quem diga que jogos de corrida não precisam de trama para se sustentar, e eles até tem um pouco de razão.

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Mas uma história, por menor que ela seja aparente ao jogador, faz parte da cartilha de NFS desde a sua reinvenção com a série Underground, que tantos dizem ser a melhor da franquia. Ser o melhor corredor das ruas, reconquistar o tempo perdido na cadeia e voltar a ser o número um, vingar a morte de um conhecido, vencer todas as gangues que controlam as corridas da cidade, quase sempre temos algum tipo de motivação por trás de um NFS, seja em maior ou menor grau.

Fazia tempo que a EA não emplacava uma história digna de ser contada e apreciada durante a jogatina. Enquanto os FMVs de NFS 2015 deixavam a gente cheio de vergonha alheia, Payback se arriscou com uma trama meio Velozes e Furiosos que nem era tão ruim quanto dizem por aí. NFS Heat parece ter aprendido um pouco com cada um dos jogos e entregou uma experiência eficiente, porém curta.

Need for Speed Heat

Apesar de o avatar ser personalizável, o protagonista de NFS Heat tem consciência própria. Ele conversa com os NPCs, tem um jeito próprio de fazer as coisas e a gente apenas vai seguindo a trama de acordo com os acontecimentos, o que é ótimo.

Uma força-tarefa liderada por um policial corrupto está causando terror entre os rachadores de Palm City e cabe a você desmascarar toda essa desgraça. No meio disso tudo ainda existe uma liga secreta de corredores que é preciso fazer por merecer para fazer parte.

A história funciona bem, os personagens secundários são interessantes e alguns diálogos bem divertidos de serem escutados uma primeira vez – mas eles tendem a se repetir caso você não avance na história por muito tempo. Só que a história deixa tanta ponta solta para uma possível continuação (duvido muito) que quando acabou, bateu aquela dúvida de “será que acabou mesmo?”.

Nessa brincadeira, acabei preso num momento de tensão que fiquei interessado em saber como continuaria e, quando terminei, recebi as congratulações do jogo por ter finalizado a campanha e senti que menos da metade da história havia sido resolvida. Fiquei triste, mas continuei jogando para explorar os desafios finais de cada modalidade. Vida que segue.

Além da campanha principal temos alguns desafios secundários que são passados através de personagens específicos dentro do jogo. Estes personagens também são responsáveis por destravar certos tipos de competição, como as corridas de circuito, provas de drift e rally.

Upgrades cheios de neon

O retorno dos upgrades de performance no formato clássico também foi uma decisão bastante sábia por parte da Ghost Games. Todo o lance de “loot” aleatório que era dado em NFS Payback nunca fez sentido dentro do universo de NFS. Desta vez as coisas funcionam como nunca deveria ter deixado de funcionar, exigindo praticamente nenhum conhecimento mecânico por parte do jogador, ao mesmo tempo que o instiga a criar combinações exóticas para construir um carro completamente único (talvez não muito funcional em alguns casos).

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O sistema de nivelamento dos carros tendo como base uma certa quantidade de pontos continua igual. Cada vez que avançamos mais para o final do jogo, as partidas exigem uma quantidade mínima de pontos que remetem ao nível do seu automóvel. E tudo isso vai lhe custar dinheiro (adquirido dentro do jogo de maneira tradicional, calma!).

E como dito anteriormente, não adianta nada você nadar na grana se sua reputação é baixa. Os melhores itens e carros são destravados apenas mediante um alto nível de reputação (entre 40 e 50). Alguns itens mais raros requerem a sua participação nas chamadas “Heat Races”, corridas especiais que demandam que o seu nível de procurado esteja, no mínimo, em três estrelas.

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Da parte visual, é possível personalizar seu carro até um certo limite. Para-choques, saias laterais, spoilers, rodas, pneus, neons (eles voltaram!), cambagem e até mesmo o barulho que o motor do seu carro vai fazer pode ser alterado. Essas mudanças são apenas estéticas e não influenciam a potência do seu veículo. Porém, certos veículos (marcados com uma estrela azul) quase não podem ser alterados (existe uma escala de zero a dez que diz o quanto um veículo pode ser modificado). Fazem parte desta lista alguns exóticos como as Lamborghini, Ferrari, alguns Porsche e os carros inspirados nos NFS antigos.

Colecionáveis e destraváveis

Não que seja novidade para ninguém, mas em NFS Heat existem certos colecionáveis espalhados pelo mapa de Palm City. Encontrá-los garante ao jogador destravamento de veículos e itens específicos de personalização que, confie em mim, você vai gostar de tê-los à disposição.

Assim, até que não são muitos tipos de colecionáveis. Temos outdoors que precisamos destruir, grafites de rua que precisamos colecionar e flamingos de vidro que temos de atropelar. O melhor disso é que nem é preciso procurar muito, só de passar relativamente perto eles já são destacados no mapa para você ir coletar na hora ou depois.

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No que tange à vida útil do jogo, a EA seguiu a cartilha japonesa de prender o jogador dentro do jogo até que ele destrave tudo que existe. E não estou falando apenas de aspectos estéticos do game desta vez.

Ao invés dos placares e ranqueamentos do saudoso Autolog (que nunca mais deu certo desde 2010), agora ficamos presos no mundo do jogo para destravar carros como um Nissan GTR Nismo ‘17, ou um Porsche Cayman GT4 ‘15. A parte boa é que destravando veículos dessa estirpe através de colecionáveis garantem antecipadamente ao jogador carros que só poderiam ser adquiridos depois de uma reputação de nível 30 ou superior.

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Ainda no âmbito de segredos destraváveis, o NFS Heat conta com uma surpresa nostálgica aos jogadores que acompanham a franquia desde os primórdios. É possível destravar o Nissan Skyline GT-R V-Spec “L.E”. ‘02, também conhecido como o “R-34” da capa do primeiro NFS Underground, o Nissan 350Z “L.E.” ‘03 do Underground 2 e a BMW M3 GTR “L.E.” ‘06 que foi capa de NFS Most Wanted. Curioso que o Polestar 1 que estampa a capa de NFS Heat só podemos jogar (por enquanto) na missão introdutória do game. Mesmo comprando o veículo na concessionária do jogo, é impossível personalizá-lo como na versão campanha do mesmo, já que faltam as peças necessárias.

Já o componente online do jogo é completamente dispensável. Inclusive, as constantes quedas nos servidores do jogo fazem a gente se dedicar solenemente ao modo offline. Caso resolva arriscar, tenha em mente que é muito difícil conseguir participar de uma corrida com outras pessoas porque elas meio que não querem correr, ou não percebem o singelo aviso de início de corrida online no canto direito superior da tela. Nasceu morta a cena, espero que melhore.

Carros à venda

Ao todo, Need for Speed Heat conta com um acervo de 127 carros, que vão sendo disponibilizados ao jogador à medida que ele ganha reputação com corridas noturnas. Todos os carros possuem pontos de atributos divididos entre potência, velocidade de aceleração, velocidade máxima e nitro, além de ostentar uma pontuação que varia entre 0 a 399.

Need for Speed Heat

É essa a pontuação que vai delimitar o seu nível para participar de certos eventos. Caso você não alcance esse pré-requisito, será um tanto complicado vencer (mas não impossível), forçando-o a famosa situação de “grind” dos jogos de RPG.

Os upgrades comprados na sua garagem servem para melhorar essas chances de vitória. Cada upgrade está relacionado a um tipo específico de evento, e cabe a você criar a mistura perfeita de peças para alcançar o nível de dirigibilidade desejado.

Aquelas especificações complicadas de jogos como Forza e Gran Turismo, disponibilizadas através de barrinhas e explicações complexas, aqui são transformados em peças e categorias de fácil entendimento (motor, chassis, transmissão), e o melhor, sem perder a diversão de criar o “tuning perfeito” para cada ocasião.

Apesar do elenco de carros ser composto em sua grande maioria de exóticos, temos alguns bons exemplos de JDM (Japanese Domestic Market, ou carros populares japoneses), muscle cars tradicionais, pickups, SUVs e até aquele Golf GTI que você tanto deseja.

Need for Speed Heat

Ausências foram sentidas? Com certeza, e a principal delas com a Toyota, que impossibilitou a entrada de dois grandes veículos para o roster principal: o Supra e o clássico AE-86, o “hachiroku” (fãs de Initial D lamentam). Depois de um mini-barraco no Twitter envolvendo a marca e o game, a Toyota explicou que atualmente só disponibiliza seus veículos para o Gran Turismo Sport – a única coisa que temos de Toyota em Forza Horizon 4, por exemplo, são caminhonetes.

O mercado hoje em dia está inundado com experiências de simulação automobilística de vários níveis de dificuldade, e a gente acabou esquecendo dos clássicos jogos tipo arcade que também já dominaram o gosto do jogador em algum momento. Need for Speed Heat resgata essa característica mais “for fun” dos jogos de corrida e entrega uma experiência sólida, digna do seu tempo, e sem desmerecer todo um cenário já construído em cima de réplicas perfeitas de modelos que ainda viram a cabeça dos aficionados por carros pelo mundo todo. Aqui não é só “pavê”, é “pacumê” também.


Need for Speed Heat está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. Este review foi feito com uma cópia cedida pela Electronic Arts.