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Mudo | Crítica

Parceria entre Duncan Jones e Netflix tenta ser ousada, mas falha ao criar uma narrativa

João Abbade Publicado por João Abbade
Mudo | Crítica

No cinema, projetos de paixão geralmente são traiçoeiros. Quantas vezes já não vimos essa história se repetir: um diretor se apaixona por uma ideia, escreve um roteiro, mas não consegue fazer com que o filme seja produzido. Durante anos, talvez até décadas, o cineasta é consumido por essa situação e chega até a mencionar sua paixão publicamente como uma tentativa de gerar interesse pela obra. Em alguns casos, os projetos acabam sendo produzidos, mas a qualidade final nem sempre sai conforme o esperado — como Valerian e a Cidade dos Mil Planetas e Depois da Terra, projetos dos diretores Luc Besson e M. Night Shyamalan, por exemplo.

Mudo é um desses casos. Desde o lançamento de Lunar, em 2009, o diretor Duncan Jones vem falando sobre sua ideia de produzir o filme — uma trama de ficção científica e mistério inspirado por seu pai, David Bowie, e com um protagonista totalmente calado. A premissa intriga, mas Jones entrega um longa mal executado em termos técnicos e criativos.

O enredo principal se mostra fraco e o roteiro procura por soluções simples, com ritmo lento e sem foco — talvez por ter sido escrito durante cerca de 16 anos. As atuações dos dois protagonistas, Alexander Skarsgård, que interpreta Leo, e Seyneb Saleh, no papel de Naadirah, não convencem. O mistério acerca do desaparecimento de Naadirah (namorada de Leo) nunca se mostra interessante e tudo isso culmina em um desfecho previsível que gera também um sentimento de que se passaram duas horas e pouco aconteceu.

É notável uma dificuldade de Jones e de Skarsgård de entenderem o protagonista. O ator não mostra muita expressividade em nenhum momento — nem mesmo nos mais intensos — o que leva a uma quebra no próprio roteiro, já que a performance do ator não condiz com o tom dos acontecimentos apresentados. A forma como Leo age perante a Naadirah jamais vende a ideia de que os dois estão profundamente apaixonados e que o protagonista fará o que for preciso para recuperar sua amada. Também é difícil notar a evolução do temperamento do personagem, gerando a impressão de que Leo está sempre desinteressado, com uma constante cara blasé.

O filme se mostra inconsistente ao apresentar uma contradição nas formas de comunicação: apesar do casal se entender em linguagem de sinais, o roteiro opta por sempre usar um bloco de notas — o que não faz sentido dentro da história e é claramente uma foram de mostrar ao público o conteúdo da conversa. Se torna inevitável comparar com o bem sucedido A Forma da Água: um longa que também retrata uma personagem muda, mas de uma forma muito mais rica, dinâmica e empática; com roteiro, atuações e personagens coadjuvantes servindo a favor da comunicação da protagonista — algo que Jones sofre muito ao tentar transparecer com as anotações que simplificam demais os pensamentos, trazem um ritmo mais lento para as interações e dificultam qualquer profundidade na atuação.

Em termos da iconografia cyberpunk o longa também é pobre. O designer de produção, Gavin Bocquet, não tenta trazer nada de inédito ao universo futurista — como Blade Runner 2049 fez, por exemplo –, e também falha ao executar uma imagem já criada e repetida diversas vezes nas obras do gênero. A produção tem um ar de “pobreza” nas cenas externas e as cenas internas parecem distantes daquele mundo vívido lá fora. O fato do protagonista odiar aparelhos tecnológicos também nos distancia da proposta futurista do universo; é um cyberpunk que não nos leva para viver neste mundo holográfico, em vez disso, nos coloca na pele de um protagonista que prefere viver no passado, sem celulares ou computadores — gerando cenários mais genéricos, mais próximos da realidade atual, distantes deste mundo futurístico.

Tecnicamente, a direção de fotografia de Gary Shawn é o aspecto mais impressionante do longa. A iluminação tem variações muito interessantes, transformando ambientes em locais hostis ou aconchegantes aos personagens com o uso das cores.

Duck e Cactus (Justin Theox e Paul Rudd), as figuras antagonistas, podem ser considerados a maior virtude criativa do filme — tanto com suas atuações quanto com o arco dramático dos personagens. As discussões levantadas aqui sobre pedofilia e a forma como a paternidade muda uma pessoa são interessantes e Theox consegue desenvolver um dos poucos personagens com profundidade ao interpretar um médico que não esconde suas ações pedófilas. Rudd também faz um bom trabalho e traz uma variedade de emoções e sentimentos ao conseguir funcionar como um alivio cômico, mas também como o personagem mais intenso da trama em determinado momento. Seu personagem também alude a pais superprotetores, o que cria novas facetas e motivações para os atos de vilania — apesar de isso nunca ser abordado de uma maneira mais profunda.

Mudo pode ser um projeto importante para a carreira e a vida de Duncan Jones, mas o longa não consegue entender bem o que quer e se perde em um ritmo ruim, com tramas em sua maioria desinteressantes e uma atuação sofrível por parte de Alexander Skarsgård. Por mais que a fotografia e os figurinos sejam lindos, Jones falhou ao tentar transpor sua paixão por essa ideia e este personagem à tela. Talvez, mesmo 16 anos depois de sua concepção, a ideia ainda não havia chegado na maturidade necessária para ganhar vida — gerando um filme sem foco e mal desenvolvido, no qual a qualidade final não correspondeu com o esperado.

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