Metal Gear Survive | Review

Um jogo de sobrevivência com alguns méritos, mas longe de ser um Metal Gear

Flávio Priori Publicado por Flávio Priori
Metal Gear Survive | Review

A série Metal Gear esteve sob uma grande interrogação após a saída de seu criador, Hideo Kojima, da Konami, em 2015. Muito se falava sobre qual seria o futuro da franquia, uma das mais icônicas da história dos videogames, já que uma de suas principais marcas sempre foi o toque pessoal de Kojima. O primeiro sinal dos novos rumos chegou no ano seguinte com o anúncio de Metal Gear Survive, game focado em sobrevivência e claramente voltado ao multiplayer cooperativo.

Pulamos então para o presente. Metal Gear Survive foi lançado e você confere abaixo como ficou o jogo, o primeiro desde MGS V: The Phantom Pain.

Survive tem o que é preciso para honrar a linhagem de Big Boss e Solid Snake?

Vamos começar pela trama. Como visto desde os primeiros trailers, o jogo se passa em um futuro alternativo no qual um misterioso Buraco de Minhoca surge em cima da Mother Base durante o ataque dos soldados da XOF — a cena final de Ground Zeroes. Nosso personagem, apelidado de Capitão, estava lá no incidente, mas não foi tragado pelo buraco naquele momento. Seis meses após o fato, Capitão é enviado por um outro buraco de minhoca com a missão de encontrar dados de pesquisa de um grupo que não retornou e resgatar possíveis sobreviventes.

Não espere viradas mirabolantes ou surpresas gigantescas como nos acostumamos a ver na franquia. Metal Gear Survive se mantém em um caminho mais tradicional e seguro. Falta uma trama envolvente ou personagens com os quais nos importemos, algo comum quando falamos de jogos da franquia. A maior parte das passagens que avançam o enredo não trazem nenhum impacto memorável — elas apenas vão tocando o barco.

Essa mesmice se reflete na estrutura de missões da campanha. Quase todas se resumem a ir até um ponto do mapa, coletar o alvo e voltar para a base, o que acaba se tornando algo bem repetitivo depois de um tempo. Essa falta de variação também é sentida no mapa, que é um grande deserto com diversas instalações retorcidas. Via de regra, tudo está em alguma pequena base deserta ou soterrado nas profundezas de alguma estrutura de aço.

Vivendo e sobrevivendo

Bom, mas como o nome já entrega, Survive é sobre sobrevivência e nesse assunto as coisas ficam mais interessantes. Gerenciar os recursos da base e do próprio personagem são uma das principais qualidades do título. Enquanto estamos no campo de batalha fazendo missões e coletando recursos, devemos gerenciar nossa saúde de várias maneiras. Nosso personagem tem medidores de fome, sede e oxigênio que devem ser acompanhados constantemente. Como exploramos um mapa desconhecido, considerar os recursos para ir e voltar para a base se faz muito importante.

Fique atento aos medidores de fome, sede e oxigênio para elaborar a melhor estratégia 

Não foram raros os momentos onde tive de parar com meu objetivo para caçar algum animal ou mesmo voltar para base para me preparar melhor. Se os níveis de algum desses atributos baixam, os efeitos são sentidos rapidamente, como o personagem cansando mais rápido ou a própria tela ficando embaçada. Esses pontos ficaram bem trabalhados e ajudam na imersão do jogo.

Há também um sistema de doenças/machucados o qual lembra muito Metal Gear Solid 3: Snake Eater. Seja pela ingestão de alimentos estragados ou feridas de batalha podemos sofrer com vários problemas como torções, hematomas, intoxicações, envenenamentos, etc. Nessa hora, temos que ir até o menu e usar o remédio adequado para nos curarmos.

Alguns itens podem te fazer mal, mas às vezes são a única opção para se manter vivo.

No que diz respeito aos controles nos momentos de ação, as mecânicas herdadas de MGS V continuam funcionando bem e as adições introduzidas em Survive foram bem colocadas. Uma gama maior de itens pode ser equipada ao mesmo tempo, de grades de aço a molotovs, e usar todos esses artefatos durante a batalha não é complicado.

Por fim, falei sobre a base de operações, mas não disse como ela funciona. A mecânica de evolução do seu quartel general é bastante similar a usada na construção da Mother Base, em Metal Gear Solid V: você deve construir defesas, unidade de criação de itens, recrutar personagens e dar a eles funções específicas. Vale lembrar que, terminada a campanha, é possível continuar jogando e evoluindo a base, pois o mesmo personagem é usado no multiplayer, carregando nível e equipamentos.

Além de sobreviver, você deve construir sua base e recrutar novos membros. Uma versão menor da Mother Base de MGSV.

Zumbis, zumbis por toda parte

Uma das principais críticas que Survive recebeu após sua apresentação foi a inserção dos famigerados “zumbis”, criaturas recorrentes em diversas obras pelo mundo afora. Infelizmente, os únicos inimigos deste Metal Gear deixam a desejar, seja pela falta de variação de tipos diversos como pela falta de desafio que eles oferecem.

As criaturas podem te localizar pelo som ou pela visão, mas sozinhas oferecem pouco perigo, já que são lentas e nada inteligentes. Depois de um tempo jogando, notei que em lugares abertos eu podia simplesmente correr pelo meio dos zumbis que nada me aconteceria, já que eles não me alcançavam. Não era o que eu esperava de um mundo que deveria atentar contra minha vida a cada instante.

Os maiores momentos de perigo são os quais precisamos defender algum ponto específico. O acúmulo de zumbis pode trazer algum problema, já que eles sempre aparecem em grandes quantidades. Nessas horas, o uso dos itens defensivos é importante, pois, mesmo lentos, eles são resistentes e podem causar bastante dano.

Inimigos em grupo podem ser um problema, sorte que eles também não são muito espertos.

Modo multiplayer

Metal Gear Survive foi vendido como uma experiência multiplayer e que esse seria o grande foco do jogo. Nesse primeiro momento, o jogo traz somente um modo: um grupo de quatro pessoas deve defender um gerador de Buracos de Minhoca enquanto ondas de inimigos tentam destruir o objeto. O modo em si é bem divertido e o sistema de missões paralelas é interessante: itens especiais caem em pontos distantes no mapa, cabe ao grupo decidir se vale apena abandonar a base pelo bônus oferecido.

A Konami já confirmou que em março um novo modo deverá ser implementado, mas sem dar muitos detalhes. Para um título que foi pensando no multiplayer, eu acredito que ter trazido mais conteúdo do online já no lançamento seria mais apropriado, especialmente algum modo focado no fator sobrevivência.

Achou que não ia ter Big Boss? Calma, é só um balão.

Falando de online, o jogo exige conexão em tempo integral para ser jogando, mesmo na campanha single player. Ou seja, se der algum problema na sua internet ou nos servidores da Konami é melhor arrumar outra coisa para fazer.

Por fim, vale ressaltar que Survive não faz uso das loot boxes, mas nem por isso deixa de dar umas derrapadas nesse assunto. O game adota o modelo de venda de moeda interna, no caso as Moedas SV, que permitem comprar itens cosméticos e acelerar produção de itens. E também espaços para personagens extras. O jogo só libera a criação de um personagem por padrão, sendo que para os demais é preciso pagar um valor equivalente a quase R$ 30 para cada personagem adicional. Ou você compra o slot ou tem que apagar seu save atual se quiser criar um novo.

A guerra mudou

O resultado final de Metal Gear Survive é um misto de boas ideias e execuções duvidosas. As bases da mecânica de sobrevivência, a construção e evolução da base e mesmo o modo multiplayer são interessantes. Por outro lado, a campanha repetitiva, um enredo fraco e esquecível e um level design que deixa a desejar, com poucas variações de cenário e inimigos, fazem desse título um jogo morno.

É evidente que ter o nome “Metal Gear” chama muito atenção, mas fica claro que Survive pouco se relaciona com os outros jogos da série. Não há nada nas suas características que o liguem ao universo estabelecido da franquia.

Talvez, se resolvesse arriscar mais e trouxesse um IP totalmente nova, a Konami pudesse obter melhores impressões e evitaria as pesadas comparações. Mas não acho que tudo está perdido. Se o multiplayer for bem desenvolvido futuramente, vejo algum espaço para Metal Gear Survive achar seu lugar ao Sol, pois mecanicamente ele tem suas virtudes e o modo cooperativo pode ser divertido. Caso contrário, ele será só mais um soldado esquecido na guerra.


Esse review foi feito com uma cópia de Metal Gear Survive cedida pela Konami. Metal Gear Survive foi lançado em 21 de fevereiro para PlayStation 4, Xbox One e PC.