Mafia: Definitive Edition | Review

Um clássico atualizado nos moldes da velha fórmula

Gilsomar Livramento Publicado por Gilsomar Livramento
Mafia: Definitive Edition | Review

Se atualmente temos uma grande oferta de jogos de mundo aberto 3D abarrotados de conteúdo, quando a versão original de Mafia apareceu no PC lá em 2002, esse tipo de experiência era um ensaio que, aos olhos da indústria, foi puxado por Grand Theft Auto III (2001).

A evolução tecnológica contribuiu na transformação desses mundos virtuais, tornando-os cada vez mais interativos e pujantes, mas também virou um facilitador da reciclagem e da adaptação de games antigos para tempos atuais. Em certos casos é preciso ter um cuidado especial para manter um equilíbrio, muitas vezes injusto, sobre restaurar uma obra original sem danificar seu significado e atualizá-la para os novos tempos. Felizmente, o estúdio Hangar 13 até que se saiu bem com Mafia: Definitive Edition.

O remake manteve os elementos e estrutura do jogo original, implementando mudanças na parte técnica e, especialmente, no visual, tornando a aventura em si um espetáculo abordando o submundo da máfia italiana na cidade americana de Lost Heaven nos anos 1930 – a narrativa também foi preservada, mas recebeu adições pontuais que expandem sua proposta sem macular o que existia.

Bem-vindo à família

O jogador assume o papel de Tommy Angelo, um taxista que tenta ganhar a vida honestamente em uma época castigada pelos efeitos da Grande Depressão e da Lei Seca. A vida dele muda quando capangas de Don Salieri invadem seu táxi e o forçam a fugir da polícia. Sua “ajuda” cai nas graças do chefão e, quando a situação fica ruim, Tommy ingressa no mundo do crime, onde acompanha o desenrolar do líder mafioso da Família Peppone e a guerra territorial contra o rival Don Morello. Este é o ponto de partida do jogo, cuja história (e missões) são relatos de Tommy para um detetive de polícia, com quem negocia um acordo de proteção para sua esposa e filha em troca do que sabe.

Como citado, o título segue a mesma estrutura narrativa do original e é dividido em dois modos: História e Direção Livre. O primeiro emenda uma missão na outra sem dar a liberdade de exploração da cidade. Felizmente a narrativa é ótima e entrega um enredo redondo, com textos e personagens marcantes, e deixa bem clara as influências de filmes como O Poderoso Chefão (1972), Os Intocáveis (1987) e Os Bons Companheiros (1990).

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A imersão é imediata e, mesmo quando você pensa em parar, a objetivo seguinte é tentador demais não continuar jogando. A campanha dura cerca de 10 horas e cada missão tenta ser diferenciada para evitar repetição e tédio, além de pavimentar viagens com conversas bem interessantes entre os personagens – claro, você pode até pular, mas vai perder muita coisa bacana.

Além disso, Mafia: Definitive Edition teve seu áudio todo redublado, ganhando em qualidade e gerando consequências que beneficiaram alguns personagens e suas personalidades. Isso também afetou a interpretação de alguns personagens, o que pode gerar algum incômodo para os fãs. O grande destaque fica para Sarah, que no original tinha uma aparição rápida e pontual, mas agora tem mais presença e relevância.

O protagonista, Tommy, ganhou um equilíbrio que tira um pouco de sua ingenuidade ao reagir às nuances ao seu redor. Por outro lado, Paulie, melhor amigo de Tommy, ganhou um tratamento que o tornou mais agressivo em sua personalidade, a ponto de parecer bobo (e até desconexo) em alguns momentos da história. Outros personagens “menores”, de ambas as facções, também ficaram mais expressivos para tornar o desenrolar das coisas mais natural.

Nas novidades no campo da narrativa, foram feitos pequenos enxertos de frases, cenas e textos, mas nem tudo é uma maravilha aqui. Algumas adições pecam pela aleatoriedade de conversas soltas ou soam forçadas dependendo da situação.

Moda antiga renovada

Embora a narrativa seja a estrela do jogo, a cidade de Lost Heaven também ganhou um pouco mais dos holofotes. O visual traz novas texturas e reformulações estruturas, tornando a cidade um belo palco turístico, especialmente para os fãs. Infelizmente, isso só pode ser aproveitado no modo Direção Livre, que deixa a cidade totalmente acessível ao jogador, abrindo vários pontos que foram visitados no modo História. Isso também abre caminho para atividades extras, para valorizar a exploração.

Pode parecer esquisito ter a história e a exploração da cidade separados, mas só porque é inevitável não comparar com os jogos da atualidade. O estúdio Hangar 13 fez um belo trabalho na parte visual, além de áreas reformuladas e bem maiores. Há mais transeuntes e veículos nas ruas, itens colecionáveis para pegar e desafios de corrida, coleta de veículos e pequenas adições para segurar o jogador, fora a gama de detalhes.

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É legal ver os movimentos de Tommy manobrando veículos diferentes, ele trocando de marcha ou mudar a estação de rádio – cuja a trilha sonora de época é maravilhosa e dá aquele charme –, e até perceber que a música sofre estática e perde qualidade quando se passa dentro de um túnel. Há muitos elementos compondo becos e esquinas que podem ser derrubados ou quebrados, além de um efeito de luz interessante que “tenta” simular um resquício de ray tracing em ambientes noturnos com incidência de luz e reflexo – isso em um PS4 padrão, no qual foi feito esse teste, em um PC parrudo, o nível de qualidade aumenta agressivamente.

A melhoria na jogabilidade também é gritante, já que as mecânicas de Mafia III foram adaptadas para o Defintive Edition. Isso significa uma movimentação mais solta, embora que Tommy não seja tão atlético ou habilidoso (ele ainda tem aquele trejeito durão dos títulos de sua época), mas a esquiva de golpes e troca de socos é bem simples e objetiva, com diferentes tipos de finalização dependendo da direção que o inimigo for abordado e de qual arma estiver empunhando – o arsenal se resume a revólveres/pistolas, escopeta/rifle, taco de basebol e facas, além de explosivos.

A dirigibilidade dos veículos ficou mais marcante e pesada, mostrando que cada um deles tem peso e forma diferenciada de dirigir, deixando claro que automóveis da época não foram feitos para correr com maestria. Mas o grande impacto da direção dos carros só se revela plenamente ao jogar na dificuldade Clássica.

Essa dificuldade adiciona outra camada de desafio e acentua a experiência, já que você deve respeitar, à risca, regras e leis de trânsito, limite de velocidade e ser discreto em suas ações perniciosas à sociedade. Qualquer vacilo é motivo pra polícia partir em sua captura e não é tão fácil se livrar, o que torna tudo mais emocionante e divertido.

Por outro lado, a missão “Jogo Limpo”, onde você pilota um carro de corrida em um autódromo, vira o inferno na Terra, já que a física do automóvel se comporta de um jeito esquisito que força o jogador a quebrar regras para vencer, já que jogar de maneira justa nunca levará à vitória. Aliás, vale dizer que existem 51 veículos para roubar e guarda em seu estacionamento, o que abre o modo “Veículopédia”, onde você pode ver o histórico técnico, personalizar e fazer um teste drive. Bem bacana.

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Definitivo

Como lá no início, Mafia: Definitive Edition segue a estrutura original com nova roupagem e adaptações de mecânicas modernas em sua jogabilidade, um equilíbrio para não descaracterizar a obra original e tornar a experiência palatável e mais intuitiva para novos jogadores, que vão estranhar bastante essa separação de história e exploração na cidade.

O título não escapa de bugs visuais, especialmente texturas engasgando e jogabilidade com comandos que falham vez ou outra, mas não chegam à gravidade e coisas absurdas como as vistas, na época, em Mafia III. Mesmo não renovando sua fórmula, ele reforça sua narrativa de forma incrível e se destaca como o mundo mais imersivo da trilogia.


Mafia: Definitive Edition está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. Este review foi feito com uma cópia cedida pela 2K.