Liga da Justiça de Zack Snyder | Crítica

Quatro horas de cinema visionário em estado bruto: ambrosia para alguns, azia para outros.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Liga da Justiça de Zack Snyder | Crítica

Todo filme deveria ser julgado por seus próprios méritos. Eventuais comparações com outras obras, mesmo nos casos de adaptações e remakes em relação ao material original, só se justificam quando usadas de forma ilustrativa (e moderada) na análise de determinada escolha dos realizadores.

Mas eis que chega a Liga da Justiça de Zack Snyder, que se coloca como alternativa — ou, vá lá, contraponto — à versão original, lançada nos cinemas em 2017 e que, apesar de assinada por Snyder, sofreu com as interferências do estúdio e a mão pesada de Joss Whedon, contratado para assumir o comando quando o diretor teve de abandonar o projeto já na fase de pós-produção, depois da trágica morte da filha.

Há quem argumente que a nova roupagem é que de fato é a “original”, uma vez que segue à risca a visão de seu criador. Caberia aí, então, uma piada envolvendo o Navio de Teseu, porém o interlocutor poderia interpretar como zombaria e se sentir pessoalmente atacado.

Debates filosóficos à parte, a “Liga 2.0” continua sendo, essencialmente, o mesmo longa-metragem. Tanto este quanto seu antecessor podem ser resumidos assim: no vácuo deixado pela morte do Superman (Henry Cavill), o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) parte em busca das três Caixas Maternas, artefatos de poder que lhe permitirão conquistar a Terra.

A fim de impedi-lo, Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) tentam recrutar a ajuda dos meta-humanos Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Ciborgue (Ray Fisher). Diante da força do oponente, eles decidem utilizar a última Caixa para reviver o kryptoniano, o que inicialmente tem resultados desastrosos, dentre os quais colocar o artefato em mãos inimigas. Somente com o esforço conjunto dos seis heróis o vilão é derrotado.

Obviamente, o foco de interesse não é o que existe de similar, mas sim o que diferencia o Snyder cut, sua própria razão de existir. E qualquer mudança só pode ser avaliada em termos comparativos, o que impossibilita uma análise convencional da obra como peça isolada, autônoma. Até porque nenhuma das alterações se sustenta apenas no contexto do filme. A começar pela mais gritante: o tempo de duração.

Ao longo de quatro horas, quase não se vê um acréscimo ou extensão cujo objetivo seja beneficiar a narrativa em si (a exceção mais notória será discutida adiante). Além de um punhado de passagens sem qualquer propósito discernível — como a cantoria no povoado e a interação entre Diana e Alfred (Jeremy Irons) —, a maioria das cenas inéditas está lá apenas para prestar o famigerado fan service ou preparar terreno para outros longas. Algumas delas podem dar a ilusão de frescor, mas não trazem informação relevante; outras claramente prejudicam o ritmo, deixando-o truncado e por vezes sonolento — um mal do qual a mais enxuta versão de 2017, com todos os seus defeitos, não sofria.

Por sinal, com a eliminação de todas as inserções feitas por Whedon, alguns trechos interessantes ficaram de fora, como o dilema ético de se trazer o Superman de volta à vida e a discussão aberta sobre o sentimento de culpa que Bruce carrega. Embora compreensível, a decisão de Snyder de apagar qualquer traço de interferência é feita em detrimento da história, e a vontade intransigente de concretizar sua visão tem efeitos colaterais.

O exemplo mais claro é a introdução de Darkseid, o grande vilão da DC, na franquia. Se por um lado isso garante a alegria dos fãs, por outro, torna o Lobo da Estepe um inimigo ainda mais genérico e raso, já que passa a ser mero lacaio, um preâmbulo para a verdadeira ameaça.

A inclusão de outros três personagens ausentes na iteração anterior tem efeito semelhante. O primeiro é irrelevante para a trama e logo, esquecido. O segundo vem e vai de modo tão forçado e canhestro que a reação do protagonista reflete a do espectador menos emocionado: “tá, e daí?”. O terceiro surge com tamanha pompa e pirotecnia que passa a impressão de que vem mais uma hora de filme pela frente. Mas não: a Liga da Justiça de Zack Snyder é um grande porvir.

As idiossincrasias do diretor também cobram um preço. O apego à violência gráfica, por exemplo, casualmente evapora o perfil compassivo de Diana, estabelecido por Patty Jenkins no primeiro longa solo da heroína (2017). A insistência no uso da câmera lenta, que o cineasta provavelmente enxerga como uma de suas marcas registradas, a essa altura beira a autoparódia. E a aposta na pouco usual proporção de tela 4:3 simplesmente não vinga — não há uma única composição ou enquadramento memorável que compense a estranheza do formato quadrado.

Nem tudo é negativo. O filme resolve de modo mais satisfatório as consequências da volta do Homem de Aço, bem como conserta o apêndice com Lex Luthor (Jesse Eisenberg) e Deathstroke (Joe Manganiello), eliminando o ar pueril e provocando na medida certa.

Mais importante, a nova versão redime o Ciborgue, dando-lhe um arco dramático completo e decente; pena ter sido amarrado com tão pouco capricho. Uma frase de efeito não substitui uma conclusão — declarar algo sem que isso tenha sido demonstrado não significa absolutamente nada. Aqui, porém, é preciso se concentrar na comparação: o fato de o personagem agora ter uma jornada clara e definida ao menos é um avanço.

É pouco para um projeto dessa dimensão? Possivelmente. Mas Snyder enfim teve a oportunidade de realizar o que havia se proposto. E os fãs vão receber exatamente o que pediram e esperaram. Difícil negar esses méritos.

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