“Achei que minha carreira tinha acabado”, diz James Gunn sobre sua demissão da Marvel

Diretor foi recontratado após pedido de desculpas, mas não diminui suas culpas ou esquece seus erros.

João Abbade Publicado por João Abbade

A vida de James Gunn parecia estar nos eixos. Depois de anos engatinhando como roteirista em Hollywood, ele criou uma das franquias mais lucrativas do cinema com Guardiões da Galáxia. Ele estava escrevendo o roteiro para o desfecho da sua trilogia. Até um dia que ele não estava mais. Comentários infelizes sobre estupro e pedofilia feitos dez anos atrás geraram um mar de polêmicas e a Disney optou por demiti-lo. Ele, então, decidiu assinar com a Warner Bros para escrever Esquadrão Suicida. Logo após isso, recebeu o convite para conversar com executivos da Disney e possivelmente retornar a comandar sua franquia na Marvel.

Durante toda essa epopeia de acontecimentos, Gunn se calou. Ele saiu das redes sociais, não foi a eventos públicos e muito menos deu entrevistas. Um ano após o imbróglio, James Gunn concedeu sua primeira entrevista ao site Deadline; comentou sobre sua demissão, seu retorno, seus erros, suas conversas com Kevin Feige e amor que sentiu nos dias seguintes ao seu mundo desabar — isso sem desqualificar decisão alguma, anular sua culpa ou esquecer seus erros. “A Disney tinha o direito de me demitir. Isso não é uma questão de liberdade de expressão. Nunca houve qualquer argumento disso”, destacou o diretor sobre os erros e ofensas que levaram a decisão empresarial de demiti-lo.

Eu não culpo ninguém. Eu me senti e continuo me sentindo mal com a maneira como falei publicamente; Algumas das piadas que eu fiz, alguns dos alvos do meu humor… tudo isso são as conseqüências não intencionais de uma falta de compaixão pelas pessoas. Eu sei que as pessoas foram magoadas por coisas que eu disse, e isso ainda é minha responsabilidade, que eu não tive a compaixão que deveria ter tido. Eu me sinto mal por isso e assumo total responsabilidade. A Disney tinha o direito de me demitir. Isso não é uma questão de liberdade de expressão. Eu disse algo que eles não gostaram e eles tinham o direito de me demitir. Nunca houve qualquer argumento disso.

Hoje, Gunn tem contrato fechado com duas das maiores produtoras do cinema mundial, mas, no calor do momento, ele chegou a pensar que sua carreira acabaria. “Foi o dia mais intenso da minha vida. Tive outros dias difíceis, como amigos se suicidando, mas isso [a demissão] foi muito intensa. Aconteceu rapidamente e quando vi tinha perdido tudo. Eu fui demitido e achei que minha carreira tivesse acabado.”

Nesse momento, ele se sentiu mal como nunca antes. Gunn confessa que sofre com muitas dificuldades emocionais; uma delas é a arrelia em se sentir amado pelos outros. Uma maneira dele superar essa dificuldade é fazer filmes e conversar com fãs. Num momento de tantas dúvidas, ele ficou perdido com esse sentimento, mas foi inundado de amor por seus amigos e parceiros: “Veio essa enxurrada de amor. Da minha namorada Jen; do meu produtor e meus agentes; Chris Pratt me chamando e enlouquecendo; Zoe Saldana e Karen Gillan, todas me ligando chorando. Sylvester Stallone fazendo FaceTime comigo. E, claro, Dave Bautista, que saiu em minha defesa de uma maneira tão forte… Essa quantidade de amor que eu sentia dos meus amigos, da minha família e das pessoas da comunidade era absolutamente esmagadora naquele momento”

Parte daquele dia foi o pior da minha vida, parte foi o melhor dia da minha vida. Nas primeiras semanas eu deixei completamente as redes sociais. Desconectei de tudo. Foi difícil, mas valeu a pena ter esse tempo para ver as coisas em outra perspectiva.

Durante os últimos anos, Gunn foi apenas uma das pessoas que foram apontadas e crucificadas pelos seus erros no passado. Muitos membros da indústria cinematográfica criticaram essa suposta perseguição ao procurar declarações antigas e fatos estranhos na vida das pessoas afim de incrimina-las. Gunn, no entanto, vê isso de uma maneira positiva: “Há muita coisa realmente positiva que está saindo de tudo isso, e um dos pontos positivos é que eu fui capaz de aprender nesse processo. As pessoas precisam aprender com os erros. Se eliminamos a possibilidade das pessoas aprenderem e se tornarem melhores, não sei o que nos resta. Aprendi todo tipo de coisa nesse processo.”