Hunters | Crítica

A nova produção da Amazon Prime tenta ir além de Al Pacino matando nazistas, mas erra por não saber onde quer chegar

Fernanda Talarico Publicado por Fernanda Talarico
Hunters | Crítica

No mundo do entretenimento, é muito difícil não se interessar por algo definido como uma “série produzida por Jordan Peele com Al Pacino matando nazistas”. E é exatamente desta maneira que Hunters, uma das grandes apostas da Amazon Prime Video, está chamando a atenção. Porém, a produção que chegou recentemente à plataforma provou que grandes nomes e um assunto interessante não importam tanto para o resultado final se a ideia não for bem executada.

A série conta a história de Jonah (Longan Lerman), um jovem judeu que mora em Nova York nos anos 1970, junto com a sua avó, Ruth (Jeannie Berlin), uma senhora sobrevivente do Holocausto. Uma noite, um homem entra em sua casa e mata sua avó, fato que faz a vida do garoto mudar completamente. Jonah acaba conhecendo Meyer Offerman (Al Pacino), um amigo de Ruth e líder de um grupo secreto que caça nazistas residentes dos Estados Unidos.

Os horrores causados pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, assim como as suas consequências, são muito visitados por obras de entretenimento e, mesmo as ficcionais, tendem a causar impacto no grande público. Quentin Tarantino, por exemplo, provou que é possível inclusive subverter a história real, ao mesmo tempo em que apresenta uma trama interessante, com toques de humor e drama: Bastardos Inglórios (2009) foi um sucesso de público e crítica, recebendo até mesmo uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Hunters tenta seguir uma linha parecida, mas não consegue trazer tais elementos com sutileza à narrativa.

Em uma das cenas mais macabras apresentadas logo no episódio piloto, um grupo de judeus é usado como peças em uma sádica partida de xadrez dentro de um campo de concentração. O momento é repulsivo e capaz de causar o sentimento proposto pela série: um ódio mortal pelos nazistas e a sede de vingança. Esta cena específica, porém, foi criticada pela organização Auschwitz Memorial. Para eles, “inventar um falso jogo de xadrez humano para Hunters não é só uma bobagem perigosa e uma caricatura. É algo que incentiva futuros negacionistas”. Por outro lado, a série mostra a importação de nazistas para trabalharem nos Estados Unidos ao final da Segunda Guerra, algo que realmente existiu – a chamada Operação Paper Clip –, mas retratá-la na mesma produção que inventa modos de tortura apenas para adicionar dramaticidade, diminui a relevância da obra.

A série criada por David Weil erra ao tentar falar de um assunto tão complicado por meio de diversas frentes e maneiras. São muitos os momentos com comédia, violência explícita, drama e questões morais, e o problema é justamente a falta de coesão entre esse elementos, deixando a produção confusa. A sensação é de que, ao longo dos maçantes dez episódios, com cerca de uma hora cada, há muito material que poderia ser cortado. Essa gordura existente em Hunters torna a obra um abarrotado de referências e tentativas desesperadas de arrancar lágrimas ou gargalhadas do público.

Al Pacino, em sua estreia em uma série, carrega a produção, sendo Meyer Offerman o único personagem construído de maneira orgânica e que consegue despertar a empatia do público. O seu grupo de anti-nazistas apresenta pessoas que poderiam ser interessantes, mas o roteiro os deixa rasos demais, sempre com as mesmas reclamações e com questões intermináveis. Uma pena, pois há boas ideias, como Lonny Flash (Josh Radnor), um ator em reabilitação que sofre pelo anonimato, Irmã Harriet (Kate Mulvany) uma freira que não se importa em matar, e Roxy Jones (Tiffany Boone), uma espécie de super-heroína que parece ter saído de um filme de blaxploitation. O mesmo acontece com os vilões, extremamente caricatos e nazistas sendo retratados como mimados megalomaníacos desorganizados.

Infelizmente, Jonah, o personagem principal, é o que mais sofre com a tentativa de discutir diversos assuntos e a séria acaba perdendo tempo demais em mostrá-lo em conflito ao invés de avançar com a trama.

Hunters é um caso de muito potencial desperdiçado por não conseguir achar qual o caminho certo a trilhar. A sensação de indecisão da própria narrativa acompanha toda a produção e torna difícil dizer qual o seu papel como obra de ficção inspirada em fatos reais. Não é possível apontar com certeza se a intenção é criar um debate, denunciar os horrores do nazismo ou apenas entreter o público. Assim, a série não consegue se sustentar e peca ao tentar ser tudo ao mesmo tempo.