20 anos de Homem-Aranha: por que o filme revolucionou o cinema de quadrinhos

Produção de Sam Raimi ajudou a pavimentar caminho para os grandes universos cinematográficos atuais

Pedro Siqueira Publicado por Pedro Siqueira
20 anos de Homem-Aranha: por que o filme revolucionou o cinema de quadrinhos

Antes de ler este texto, faça um pequeno exercício. Você consegue lembrar a última vez (com exceção do período de pandemia entre 2020 e 2021) em que não havia, no mínimo, quase uma dúzia de filmes baseados em quadrinhos lotando as salas de cinema ao redor do mundo?

Isso sem nem contar as séries que estão chegando na TV e streaming? Pode ser fácil esquecer, mas houve um tempo em que era inimaginável ver quatro ou cinco filmes da Marvel em um mesmo ano.

Se atualmente os filmes inspirados em HQ dominam as bilheterias e o falatório popular, temos uma produção bem específica a agradecer: o primeiro Homem-Aranha, que estreou em maio de 2002, há exatos 20 anos.

Tobey Maguire como Peter Parker

Naturalmente, o filme de Sam Raimi não foi a primeira história de super-herói chegou às telonas com sucesso estrondoso. Mas o longa está inserido em um contexto quase perfeito de momento da indústria e do cinema moderno.

Se iniciativas como o primeiro Superman (1978) ou o Batman (1989) de Tim Burton pareciam fenômenos isolados, Homem-Aranha teve companhia na primeira leva moderna de filmes modernos de herói, com Blade (1998) e o primeiro X-Men (2000). Mas enquanto estes, ainda que com sucesso de público e crítica, se preocuparam em transformar o universo fantástico dos quadrinhos em uma estética realista, o filme do Teioso abraçou as origens lúdicas sem o menor receio.

Enquanto Bryan Singer trocou os coloridos uniformes dos mutantes nos quadrinhos e animações por jaquetas de couro pretas do cinema, Raimi não abriu mão de fazer um filme, assumidamente, como uma carta de amor aos gibis, com quadros de Stan Lee e Steve Ditko praticamente jogados na tela.

X-Men foram da lycra ao couro em filme de 2000

Homem-Aranha era, na verdade, mais sobre adequar o mundo real a um filme de quadrinhos, do que adequar um filme de quadrinhos ao mundo real. Talvez pela primeira vez desde o já citado Superman: O Filme.

Na verdade, é possível encontrar diversos ecos narrativos entre os dois filmes. Primeiro, ambos são histórias de origem que tomam o tempo necessário para apresentar o herói, e mostrar por que devemos nos importar com ele. Basta lembrar que o Peter Parker de Tobey Maguire só aparece realmente como o herói após quase 1 hora de filme.

Raimi propõe um grande estudo de personagem sobre um jovem que se vê forçado a lidar com as novas responsabilidades adquiridas com os grandes poderes. Esse mesmo peso dramático, visto no Clark Kent de Christopher Reeve nos anos 1970, voltou poucos anos depois no Tony Stark de Robert Downey Jr., o ponto zero do universo inteiro do Marvel Studios, e em tantos outros heróis que chegaram à telona nos anos 2000.

Foco em lado humano do herói foi influência para todo o MCU, incluindo Homem de Ferro

A grande revolução de Raimi, curiosamente, foi buscar a pedra fundamental do que faz um herói ser um herói. E um gibi, um gibi.

A influência do cineasta no que se tornou o MCU é admitida até mesmo por um cara de boné que os fãs conhecem bem e que, em 2002, trabalhou apenas como assistente de produção do filme. Falando ao ScreenRant em 2021, Kevin Feige, atual presidente do estúdio e uma das mentes criativas por trás de todo o planejamento da produtora na telona, lembra:

“Eu estava principalmente assistindo e aprendendo com o Sam Raimi. Convivi com um grupo de pessoas que estava tentando superar todas as expectativas. Queriam realizar seus sonhos como fãs desses personagens. E é isso que tentei fazer em cada filme e série de TV que trabalhei desde então.”

Mas não se engane pensando que Raimi também não levou o personagem a sério. Muito pelo contrário. Talvez seja justamente a paixão e o respeito do cineasta pelos quadrinhos que tenha possibilitado o equilíbrio perfeito entre o lado fantástico dos gibis e, bem no fundo, uma história de amadurecimento. Falando à Variety em reportagem especial dos 20 anos do filme, Raimi explica:

“Eu queria ter a certeza de que não estávamos fazendo o público pensar que se trata de uma piada. Não havia piada nenhuma ali para mim. Não queria agir como se soubéssemos que aquilo era bobo mas estávamos fingindo que não. Eu nunca quis nenhum tipo de distanciamento da história para mim ou para o público. Não existe zona neutra. É preciso apenas acreditar. Acreditar que Peter Parker existe, e aprofundar o máximo possível no coração e problemas dele, e compartilhar isso com o público.”

De um orçamento de US$ 139 milhões, Homem-Aranha bateu os US$ 825 milhões na bilheteria mundial, tornando-se também o primeiro filme a bater US$ 100 milhões só no fim de semana de estreia.

Para fins de comparação, X-Men (2000) ficou na casa dos US$ 296 milhões. Apenas dois anos separam as duas produções da Marvel, mas o recado já estava dado, os filmes de quadrinhos chegavam para ficar.

Duas décadas depois, o filme segue tendo o carinho de boa parte dos fãs do herói que acompanharam o lançamento do longa. Para muitos, inclusive, Tobey Maguire é até hoje a versão definitiva do herói nos cinemas. Mesmo com as críticas ao terceiro filme da franquia, e praticamente duas gerações inteiras acostumadas com outros astros como Andrew Garfield e Tom Holland no papel do Teioso.

Se ainda restava dúvida do legado da produção, basta pensar nas reações enlouquecidas com a aparição do ator em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021), encerrando o ciclo do garoto do Queens inseguro sobre si mesmo, agora como o adulto que está sempre “tentando ser melhor.”

Para quem quer matar a saudade do Peter Parker de Tobey Maguire em sua primeira aventura nos cinemas, o longa está disponível na Netflix, Globoplay e HBO Max.

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