História de um Casamento | Crítica

Tão difícil quanto não se emocionar com o filme é encontrar defeitos nele

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
História de um Casamento | Crítica

“Toda arte é autobiográfica; a pérola é a autobiografia da ostra”, afirmou o cineasta italiano Federico Fellini à revista The Atlantic, em matéria publicada em 1965. Hoje célebre, a frase costuma ser citada para reforçar o argumento de que, em maior ou menor medida, qualquer obra expressa algum aspecto íntimo de seu autor.

Noah Baumbach está mais do que familiarizado com a ideia. Ao longo da carreira, ele tem sido constantemente lembrado do quanto seus longa-metragens parecem se basear em vivências próprias, seja no caso do jovem recém-formado e à deriva, em Tempo de Decisão (1995), sua estreia como diretor; dos dois garotos lidando com o divórcio dos pais, um casal de intelectuais nova-iorquinos, em A Lula e a Baleia (2005); ou do documentarista em plena crise de meia-idade, em Enquanto Somos Jovens (2014).

Não é surpresa, portanto, que sua separação da atriz Jennifer Jason Leigh venha sendo tópico recorrente nas discussões sobre História de um Casamento. Baumbach é o primeiro a reconhecer ter buscado inspiração em suas experiências, mas também nas de amigos, conhecidos e de seu elenco, acrescentando que não enxergaria sentido ou valor em um trabalho que não fosse, em essência, uma criação. “Esse filme não é autobiográfico; é pessoal, e existe uma verdadeira diferença aí”, observou, em recente entrevista ao jornal The New York Times.

Tal insistência em buscar correspondências entre ficção e fato atesta a habilidade do cineasta em elaborar uma narrativa orgânica e envolvente, a tal ponto capaz de gerar identificação que se torna completamente verossímil — “essa situação parece tão real, ela deve ser real”, pensa o espectador ao acompanhar cada embate entre a atriz Nicole (Scarlett Johansson) e o diretor de teatro Charlie (Adam Driver) no decorrer de um longo e doloroso processo de divórcio.

Assinado pelo cineasta, o brilhante roteiro enumera, logo nos primeiros minutos, as virtudes de cada um dos personagens centrais na visão do parceiro, algo que um mediador profissional sugere, de modo que eles possam “lembrar por que se casaram antes de mais nada”. Além de ajudar a estabelecer uma atmosfera pessimista, em que toda a alegria do relacionamento parece relegada ao passado, o recurso serve ainda para que a audiência seja apresentada aos protagonistas de modo positivo e não tome partido logo de cara. A partir daí, todavia, Baumbach passa a brincar justamente com essa noção, revelando aos poucos a pior faceta de ambos.

Por sinal, aqui ele corrobora sua aptidão para construir personagens que, apesar de falhos (ou talvez por causa disso), conseguem criar enorme empatia, como no já mencionado A Lula e a Baleia, em O Solteirão (2010) e, acima de tudo, no excelente Frances Ha (2012), escrito em parceria com e estrelado por Greta Gerwig, esposa do diretor. Complexos e tridimensionais, Nicole e Charlie podem se encaixar até certo ponto nos rótulos de mulher amargurada e vingativa e sujeito egoísta e manipulador que os advogados de suas contrapartes tentam lhes impor, porém, não se limitam nem tampouco são definidos por eles.

Rico por si só, o texto ainda se beneficia das arrebatadoras performances de Driver e Johansson, que passeiam com desenvoltura pela ampla gama de emoções que seus papéis exigem, muitas vezes alternando-se entre elas em uma única cena. O elenco de apoio também se destaca, em especial Laura Dern, Ray Liotta e Alan Alda, na pele dos representantes legais, com quem os protagonistas desenvolvem relações significativas, simbolizadas pelos figurinos.

Na primeira reunião de Nicole com a poderosa Nora (Dern), a diferença de visual entre elas é gritante; mais tarde, no entanto, durante uma audiência no tribunal, a atriz mimetiza a aparência da advogada — trajes, postura e até cor de cabelo —, mostrando que, àquela altura, abraça a estratégia proposta por ela. Por sua vez, quando Charlie e o pacífico Bert (Alda) se conhecem, eles estão vestidos com a mesma combinação — paletó, malha e camisa, sendo as do veterano defensor uma versão mais antiquada —, indicando sua proximidade em termos de mentalidade e status naquele microcosmo.

O capricho nos detalhes é indicativo da qualidade da direção, que, por ser discreta, pode dar a impressão de ser pouco interferente. Na realidade, ocorre o oposto: cada tomada é minuciosamente planejada, como fica claro na sequência da briga. Os planos gerais na sala branca e praticamente vazia ilustram a distância entre o casal, bem como os trechos em que eles continuam a discutir mesmo estando em cômodos diferentes do apartamento. Dali para diante, os cortes rápidos e os enquadramentos cada vez mais fechados espelham a crescente animosidade entre os dois, até o desfecho, de volta ao plano geral. Um primor.

Não bastasse tudo isso, o cineasta domina a narrativa visual, concebendo momentos de partir o coração sem que uma palavra seja dita — um corte de cabelo sinaliza um resquício de ternura em meio ao caos, um portão se fechando conta que não há mais volta, um longo suspiro é um desabafo mais eloquente do que qualquer frase de efeito. E nunca um sapato sendo amarrado foi tão repleto de significado.

História de um Casamento é o ápice da filmografia de Baumbach até aqui. Pode não ser uma obra autobiográfica. Mas sem dúvida é uma pérola.