Good Omens | Crítica

Mesmo com deslizes, carisma dos protagonistas sustenta série baseada no livro de Terry Pratchett e Neil Gaiman

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Good Omens | Crítica

Um anjo e um demônio cultivam uma amizade há alguns milhares de anos. Vivendo com formas humanas na Terra, os dois descobrem que a vida por aqui, apesar de tudo, é bem confortável.

Tudo ia bem, até que é chegado o momento do Apocalipse e do fim de todas as coisas. Ambos, querendo se livrar desse pequeno grande incômodo em suas vidas, decidem sair em busca do Anticristo, tentando impedir a destruição iminente.

Essa é a premissa de Good Omens, série baseada no livro Belas Maldições, de Neil Gaiman e Terry Pratchett. Adaptada para a TV pelo próprio Gaiman, que também assume o cargo de showrunner, os seis episódios já estão disponíveis no Amazon Prime Video.

Com Michael Sheen (Masters of Sex) vivendo o anjo Aziraphale, e David Tennant (Doctor Who) interpretando o demônio Crowley, Good Omens tem como um de seus trunfos conseguir captar os melhores momentos e a essência de seu material original, com direito a toda loucura e ironia presentes no texto de Gaiman e Pratchett.

A conquista, porém, acaba também sendo a causa dos maiores deslizes de Good Omens, já que Gaiman, se atendo demais ao livro, acaba esquecendo que algumas coisas que funcionam em uma mídia, não funcionam em outra, necessariamente. O fato de Crowley só escutar as músicas do Queen em seu carro tem uma explicação hilária no romance. Já na série, o roteiro tenta inserir essa característica ao personagem mas, ao não dar uma justificativa, entrega algo que fica apenas destoante do resto da obra.

Porém, a dinâmica entre Aziraphale e Crowley é tão bem trabalhada que os defeitos da série ficam diminuídos. Sheen dá ao anjo uma inocência quase infantil, ao mesmo tempo que Tennant entrega a Crowley uma malandragem rock ‘n’ roll que acaba criando um contraste divertidíssimo entre os protagonistas. Mais engraçado ainda são as cenas em que um dos dois precisa tomar uma decisão que seria a do outro.

Outros destaques do elenco são Jon Hamm (Mad Men), que dá ao anjo Gabriel uma arrogância burocrática irritante; e Frances McDormand (Três Anúncios Para um Crime), que narra os eventos da série como a voz de Deus, incluindo no Todo Poderoso um sarcasmo hilário quando se trata dos destinos do Universo.

Com o livro original sendo escrito no final dos anos 80, e publicado em 1990, a história de Good Omens é apresentada para a televisão em um contexto atualizado, com o roteiro de Gaiman trazendo o espírito de sua obra para os dias de hoje. É interessante ver, por exemplo, a Fome, um dos Cavaleiros do Apocalipse, ser retratado como uma entidade que faz a humanidade consumir alimentos não saudáveis, em vez de se apresentar como uma força que causa a miséria.

Com elementos como esse, Good Omens consegue discutir, mesmo que de leve, questões que estão presentes nas nossas mentes, como a formação da nossa própria moral e as consequências do livre arbítrio. Uma série simples, que em nenhum momento é simplória, e que tem vários frutos a oferecer para aqueles que se aventurarem em todas essas maluquices.