Gears 5 | Review

As engrenagens da mudança começaram a girar

Jeff Kayo Publicado por Jeff Kayo
Gears 5 | Review

Gears of War ainda é a franquia mais importante do Xbox. O responsável por fazer toda uma geração de jogadores se aproximarem do console, além de servir de modelo para grande parte dos jogos de tiro em terceira pessoa que vieram após o seu lançamento. Com um sistema simples, eficiente e desafiador manteve-se no mercado inabalável, e agora com Gears 5, as engrenagem da mudança começam a girar, entregando uma experiência completamente nova aos fãs. Mas será que vai agradar a todos?

Em time que está ganhando…

Um fato curioso aconteceu recentemente no mundo das franquias famosas de videogames. Jogos super famosos com seus sistemas super influentes dentro desse universo se reinventaram. Aconteceu um pouco com Uncharted 4, muito com God of War e, não podia deixar de acontecer com Gears of War. Quer dizer, esse ainda demorou um ano a mais que seus concorrentes porque apostava no certo.

Desta vez, a Coalition arriscou muito e inovou num modelo que poucos imaginariam para Gears 5: uma campanha de mundo semiaberto gigantesco, veículo para locomoção, missões secundárias que precisam ser encontradas, personalizações, upgrades e uma narrativa como nunca foi vista antes na série.

Foi um susto de início, confesso. “Como assim agora eu posso navegar livremente por esse mapa sem me preocupar com a missão principal?”. Pois é, agora podemos vasculhar por colecionáveis e upgrades para o nosso drone antes de partirmos para a campanha principal. Não é nada inovador dentro do gênero, e até que as missões secundárias não se afastam quase nada da trama principal, mas em se tratando de jogo pelo jogo, oferecem o desafio extra que todo mundo gosta de encontrar no caminho dos “mil G”.

A paisagem esbranquiçada de neve do mapa aberto é bem não característico de Gears of War. Talvez seja por isso que chamou tanto a minha atenção desde o primeiro momento. Não só pelo visual, mas também porque esse novo território inóspito também serve como planejamento estratégico com seus lago congelados e a chance de quebrar esse gelo e afogar alguns inimigos de imediato.

As cores contrastantes são fundamentais em Gears 5. Do branco de luminosidade altíssima, ao vermelho escaldante do deserto, fase que me lembrou de cara Os Últimos Jedi. Infelizmente ambos os mapas acabam se tornando semelhantes demais no conceito — neve / areia, mas visualmente são bem bonitos.

Além dessa exploração, também temos momentos de narrativa com passeios em bases de operações e conversas com personagens secundários. É engraçado porque o jogo não se preocupa em mudar nada daquele formato “tanque de guerra” que é o controle dos bonecos em Gears. Esses momentos contemplativos se dão a cada novo ato da história, que agora são bem maiores que os anteriores, dada a quantidade de coisas para se fazer.

Provavelmente as mudanças não vão agradar à todos. Aquela narrativa tradicional de Gears, que já dava indícios menores de mudanças desde o jogo anterior, agora se deu por completo. Para ser sincero, é difícil quantificar o quanto essa exploração casual mudou como enxergamos o gameplay de Gears 5, já que apesar de tudo isso, as missões ainda são missões “Gears of War”, com o jogador sabendo exatamente o que vai acontecer em cada uma delas. A única certeza que consegui tirar disso tudo é que vale a pena explorar um pouco esses novos mapas em busca de upgrades, seu “eu” das próximas fases vai agradecer.

Conheça Jack

Realizar missões secundárias em Gears 5 tem um único propósito: evoluir seu drone de combate, Jack. O robozinho simpático já apresentado em trailers e como personagem jogável do modo versus é uma mão na roda quando estamos enfrentando as hordas de Swarms e Locust sozinhos.

Preciso ser honesto aqui: Jack não tem nada de simpático. Ele é bem qualquer coisa, faz uns barulhinhos aqui e ali parecendo conversar com a gente e só mesmo o Delmont “Del” Walker parece se importar com ele. Mas é incrível como depois de um tempo a gente passa a achá-lo simpático dada tantas as vezes que suas habilidades nos salvaram. Enfim.

Jack é um drone que nos auxilia durante o combate e pode ser controlado por um jogador (no caso do cooperativo) ou pela inteligência artificial. É possível sempre deixar equipado duas habilidades para o uso, uma de ataque e outra de suporte, acionadas de acordo com o gosto do jogador. Depois de utilizadas, elas passam por um período de cooldown até que possam ser usadas novamente.

Todas as habilidades de Jack podem passar por melhorias, e aí entram as missões secundárias. Praticamente todas elas recompensam o jogador com uma habilidade única de upgrade, e essas peças só podem ser adquiridas dessa maneira.

Outro item que precisamos nos atentar durante nossas buscas pelo cenário são pequenas peças brilhantes que ajudam na melhoria de Jack. Elas funcionam como pontos de atributos que podem ser distribuídos em diversas categorias de combate ou suporte do drone. Ficar invisível por mais tempo, disparar mais raios nos adversários, granadas de choque mais potentes, raios paralisantes, o jogador escolhe e evolui o que melhor satisfazer a sua vontade no combate. Parece que vai demorar anos no começo do jogo, mas até o começo do “Ato 3” é possível ter um Jack 73% evoluído. Vai na fé.

De onde paramos mesmo?

A campanha de Gears 5 retoma os acontecimentos do jogo anterior, e se você lembrar, o final da história deixou mais pontas soltas que filme mal feito de viagem no tempo. Era como se não tivesse acabado de fato, mas ele tinha acabado.

O game é tenso, do seu começo até o final. Obviamente aqui não é lugar para comentar fatos específicos para não estragar a diversão de ninguém, mas como todos sabem teremos uma mudança de posição principal no esquadrão COG do quinto jogo. Sai JD Fenix, entra Kait Diaz como protagonista.

A transição de protagonismo é interessante, mas infelizmente do ponto de vista do gameplay, não muda praticamente nada. Inclusive, as falas de JD e Kait são praticamente as mesmas durante a jogatina (se você se lembrar do quarto título então, fica ainda mais decepcionado). Não que eu estivesse esperando alguma mudança drástica, aliás, não esperava mudança nenhuma, mas dada a evolução da campanha com o mundo semiaberto, achei que controlar Kait pudesse trazer alguma novidade ao game. Não aconteceu e as coisas funcionam da maneira mais previsível possível nesse sentido.

Gears 5 introduz na história o prepotente Fahz Chutani. Logo de cara já arruma confusão com todos os personagens do time principal, e a gente passa a nutrir aquele odiozinho no coração. Um ódio bem vindo, que funciona na trama e faz o personagem crescer. Pena que isso passa, e de uma maneira bem abrupta, deixando-o ‘normalzão’ muito rápido.

Se você terminou o game anterior, ótimo. Senão, a minha recomendação é a de jogar antes de ingressar na trama do novo título. Gears 5 está bem amarradinho com o anterior e ajuda bastante o jogador novato, que não vai precisar revisitar mais de 10 anos de história, basta um único jogo de início.

Ajustes finos

Exagerar nas mudanças do gameplay de Gears 5 era desnecessário. E por isso mesmo a Coalition se preocupou em ajustar uma ou outra coisa dentro dos combates. A começar pelo acréscimo de novas armas.

Não são muitas, mas além do retorno do arsenal clássico tivemos o acréscimo de alguns novos rifles de precisão, metralhadoras, granadas especiais, uma lancer com lançador de granadas e até uma arma de ataque corpo a corpo.

Para os inimigos, novos híbridos estão à solta no planeta Sera, e um deles funciona quase igual aos Snatchers, só que ao invés de carregar os personagens convalescidos dentro da sua barriga, eles meio que o arrastam à força. Outro que faz a sua estreia no game são os Warden, inimigos corpulentos, imunes a qualquer tipo de ataque em seus corpos (é preciso atirar na cabeça e arrancar seus elmos).

Os robôs infectados que aparecem no final de Gears 4 também são uma ameaça real que colaboram para momentos mais “stealth”. É possível eliminá-los por trás sem fazer barulho, mas se o jogador estiver no campo de vista de um, todos são ligados e passam a atacar de uma vez.

A inteligência artificial de Gears 5, no entanto, parece ter sofrido um downgrade em relação ao game anterior. Controlados pelo computador, os personagens secundários custam até mesmo a ressuscitá-lo quando necessário. Ah, e agora o número de vezes que podemos ser resgatados também diminuiu. Parando para pensar um pouco, o que parece ser um ponto negativo talvez possa ser entendido como um ponto positivo, já que balanceia melhor toda a ajuda que recebemos da CPU durante o jogo, o que nos força a jogar melhor, sempre.

Multiplayer bem-vindo

O multiplayer competitivo de Gears of War é famoso e renderia um review exclusivo dele. No entanto, tivemos pouquíssimo tempo de acesso a ele devido às restrições da cópia de review antecipada do jogo. Sem pessoas para jogar, sem multiplayer para testar efetivamente. Os modos mais prejudicados por isso foram o Versus e a Horda.

Pelo menos eram modos já conhecidos do pessoal, e a Microsoft já vinha realizando testes abertos do multiplayer competitivo há algum tempo já, creio que não haverá problemas no lançamento (se existir, serão coisas já esperadas, como servidores lotados, por exemplo). Já o modo Horda, passou por ajustes, mas nada que fuja do que já era o padrão de jogos anteriores (vencer 50 ondas de inimigos para prosperar, etc).

O que deu para experimentar bastante foi o modo Escape, inédito e exclusivo de Gears 5. Para quem não conhece, esse modo exige que os jogadores escapem de um ninho de Swarm, com tempo limitado, munição escassa e muitos inimigos pela frente.

Você e mais dois amigos precisam unir esforços para vencer um desafio que está mais voltado para a cooperação do que a matança desenfreada. Times que não trabalham em equipe tendem a falhar miseravelmente.

O que acontece é que muitos jogadores dentro desse modo tentam aplicar o famoso Rambo 2: A Missão e correr sozinho pelo mapa. E aí eles acham que estão mandando muito, quando na verdade vão precisar ficar esperando no ponto de check-in da fase, e não dá para passar sozinho e tirar a pontuação máxima.

Todos os personagens selecionáveis desse modo possuem habilidades especiais e são divididos por classes. Um bom time, para variar, precisa ser equilibrado e misturar ataque, defesa e suporte. Jogar com o mesmo personagem o faz evoluir de nível e acumular cartas de habilidades, que podem ser gastas para adquirirmos vantagens durante a partida.

O Escape é um modo super divertido, com diversos mapas especiais, desafios semanais e uma seção especial para a criação e utilização dos mapas criados pela comunidade — que ainda não estava habilitado nos testes porque, bem, não existe uma comunidade ainda. Mas em breve existirá!

Ao meu ver, Gears 5 evoluiu bastante sua narrativa e a forma como apresentou alguns desses novos elementos de gameplay. Ao mesmo tempo não deixou de lado o que faz de Gears of War, um Gears of War. O jogador ainda se sentirá em casa, mesmo agora precisando explorar um mapa como nunca antes precisou, e isso é bom. Uma mistura certamente até um pouco forçada, mas que não estraga a diversão, apenas a prolongou. Mudar também faz parte do crescimento.