Fundação, adaptação de Asimov, tem estreia promissora

Primeiros episódios da série da Apple TV+ capricham no roteiro e na estrutura narrativa

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Fundação, adaptação de Asimov, tem estreia promissora

“Ambiciosa” é a primeira palavra que vem à mente para descrever Fundação, nova série da Apple TV+, criada por David S. Goyer e Josh Friedman. Ela adapta a influente obra-prima homônima de Isaac Asimov (1920-1992): uma coleção de oito histórias publicadas originalmente na década de 1940, mais tarde compiladas como trilogia (formato em que se consagrou) e posteriormente expandida com mais quatro livros, entre prelúdios e continuações.

O desafio de transportar esse material para as telas está, é claro, no volume e também no conteúdo em si: a história se desenrola ao longo de séculos, com saltos temporais consideráveis e um vasto elenco de personagens que entram e saem de cena (sem necessariamente serem aprofundados) conforme os anos avançam. Na melhor tradição da ficção científica (que, inclusive, ajudou a consolidar), Fundação se concentra em conceitos filosóficos, sociais e históricos — algo que funciona no papel, mas se mostra difícil de traduzir em audiovisual.

[Atenção: spoilers dos dois primeiros episódios a seguir!]

Goyer e Friedman parecem ter encontrado seu caminho: trazer os dramas individuais para o primeiro plano, expandindo e criando conflitos para personagens centrais. Em especial, no caso de Gaal Dornick (Lou Llobell), que ganhou seu próprio arco e foi alçada ao posto de protagonista. E ao menos nos dois episódios iniciais, que os criadores assinam também como roteiristas, a unidade temática foi escolhida como fio condutor.

A clarividência é o mote no primeiro, A paz do imperador. Isso se reflete já na estrutura, construída com uma narrativa moldura (que introduz e conclui o episódio) ambientada 35 anos no futuro, em relação à narrativa principal. No inóspito planeta Terminus, localizado na periferia da galáxia, a escassa população local conta lendas a respeito do Cofre, uma misteriosa construção de função desconhecida, que gera ao seu redor um campo nulo capaz de repelir qualquer ser vivo.

Um grupo de crianças tenta bater o recorde de resistência à ação do campo e fincar sua bandeira o mais próximo possível do Cofre. Um dos garotos perde a consciência na empreitada e, enquanto seus companheiros vão buscar ajuda, ele é resgatado por Salvor Hardin (Leah Harvey) — alguém que a narradora descreve como tendo papel decisivo na luta pela salvação da humanidade.

35 anos no passado, somos apresentados a outras duas figuras-chave na trama. Uma é Hari Seldon (Jared Harris), renomado professor de teoria da probabilidade na Universidade Streeling, em Trantor, a capital do Império Galáctico. A outra é Gaal (a narradora), que vence uma competição matemática proposta pelo professor; ela faz isso resolvendo um complexo problema conhecido como Conjectura de Abraxas. Com isso, a garota passa a ser tratada como herege em seu planeta, Synax, controlado pela rígida doutrina anticientífica da Igreja Vidente.

A fim de fugir da iminente execução em sua terra natal e poder trabalhar com Hari, Gaal se muda para Trantor, onde é recebida por Raych (Alfred Enoch), filho adotivo do matemático. Nem bem chega, porém, é informada por seu novo empregador de que ambos estão prestes a ser presos. Isso porque as pesquisas de Hari no campo da psico-história, que analisa o comportamento de grandes populações, o levam a concluir que o Império está fadado a ruir e sua queda será seguida por 30 mil anos de trevas.

A divulgação de tais informações é vista como insurreição pela autoridade máxima, Dia (Lee Pace), que, ao lado dos irmãos, Alvorada (Cassian Bilton) e Crepúsculo (Terrence Mann), personifica o Império. Os três são clones, de idades diferentes, do primeiro imperador, Cleon I. Essa, por sinal, é uma das mais interessantes inovações da adaptação — não há melhor representação de uma oligarquia que se perpetua no poder, resistente a mudanças, do que uma Dinastia Genética.

Outra virtude do roteiro é a já mencionada unidade temática. E, como observado acima, neste caso, tudo gira em torno da ideia de clarividência. Embora sejam colocados como opostos, aqui, ciência e religião apresentam muitos paralelos. Por exemplo, a fala de Gaal a Hari, narrando os esforços para alertar seus compatriotas de que os mares de Synax estavam se erguendo, remete à síndrome de Cassandra: uma metáfora inspirada pelo mito grego, em que a personagem título, presenteada pelos deuses com o dom da profecia, tenta advertir os outros sobre eventos futuros, mas ninguém acredita.

A visão quase religiosa da ciência está presente ainda no modo como o Primeiro Radiante, dispositivo que armazena todos os cálculos feitos pelo professor, é retratado com ares de relíquia; suas previsões também são sempre referidas em tom  messiânico. E depois que Hari e Gaal são, de fato, presos, o promotor Xylas (Alexander Siddig), durante o julgamento, descreve as afirmações do matemático como “esotéricas”.

Para o espectador, a confirmação de que as predições do professor são verdadeiras surge quando dois terroristas explodem a Ponte Estelar, gigantesca torre que liga a estação espacial de Trantor à superfície do planeta. A cena dos destroços esmagando a estátua de Cleon funciona como prenúncio visual da queda do Império.

Na mesma sequência, porém, há a imagem de um livro em chamas na biblioteca. Ela remonta a uma fala anterior de Hari, em que ele vaticina que o prédio queimaria. Isso levanta suspeitas de que aquela previsão em particular foi precisa demais. Afinal, a personalidade manipuladora do professor fica evidente quando, logo após o Imperador bani-los para Terminus, ele revela para Gaal que aquilo fazia parte de seu plano o tempo todo. No planeta remoto, eles terão liberdade para estabelecer a Fundação, repositório de conhecimento que guiará a humanidade quando as trevas chegarem.

O caráter profético é retomado no epílogo, que fecha a narrativa moldura. No futuro, 35 anos à frente, Salvor consegue, por algum motivo, passar ilesa pelo campo nulo e abrir o Cofre — o que talvez também faça parte do plano do matemático.

Já no segundo episódio, Preparando para viver, o tema é a farsa: a maioria dos pontos da trama envolve algum tipo de encenação. Mais uma vez, esse mote é incorporado à narrativa: a bordo da nave que leva a equipe da Fundação rumo a Terminus, há cenários artificiais, usados para minimizar a sensação de confinamento durante a longa jornada, bem como simulações que servem de treinamento para situações reais que eles podem enfrentar no planeta.

De maneira alegórica, Gaal e Raych também estão em uma simulação: apaixonados, eles precisam fingir distância, pois acreditam que Hari não aprovaria o relacionamento. Por sua vez, o matemático encena um controle absoluto que pode não ter — ao examinar as equações armazenadas no Primeiro Radiante, Gaal percebe que o matemático não fez todos os cálculos, o que torna o plano da Fundação incompleto e não totalmente previsível. A garota revela tal descoberta a Raych, abalando a confiança dele no pai adotivo.

Enquanto isso, em Trantor, uma farsa é averiguada: embora todos os indícios apontem para o envolvimento dos reinos de Anacreon e Téspis no atentado à Ponte Estelar, os embaixadores desses planetas (que estavam na capital e foram feitos prisioneiros), negam as acusações. Demerzel (Laura Birn), a governanta do palácio imperial e tutora do jovem Alvorada, conduz as investigações e chega à fabricante dos artefatos usados pelos homens-bomba, mas os resultados da diligência são inconclusivos.

Frustrado com a falta de soluções, Dia contempla a ideia de criar outra farsa e jogar a culpa em Hari e seus apoiadores. Alheio a tudo isso, seu irmão mais velho busca as próprias respostas e interroga os embaixadores, encenando jantares amigáveis com cada um deles. Além disso, forçado a confrontar a idade e as crescentes limitações de seu corpo, Crepúsculo também decide visitar o sacerdote da Igreja Vidente, nas ruínas da cidade, e questioná-lo sobre o futuro do Império.

Demerzel acompanha o velho na pequena excursão e é atingida por escombros que desabam. O acidente revela ao espectador mais um aspecto farsesco: a governanta, na verdade, é um robô, o último de sua espécie, pois, como ela faz questão de lembrar a Alvorada, todos os outros foram destruídos pelos humanos. Além de ligar a história à Saga dos Robôs, a outra obra mais emblemática de Asimov, essa informação certamente terá repercussões no próprio arco da personagem.

Engenhoso, o roteiro justapõe essa sequência à seguinte, em que Dia e Crepúsculo discutem diante do corpo conservado do Cleon original, oferecendo um paralelo entre robôs e clones como simulacros humanos. O velho pondera sobre a arrogância necessária para alguém achar que deve governar para sempre por meio de cópias suas. O irmão o repreende e reafirma sua autoridade como imperador.

Mais tarde, no entanto, Dia acaba ilustrando essa arrogância. Em uma decisão imprudente, ele executa quase todos os membros das comitivas anacreoniana e tespsiana, poupando apenas os embaixadores, e ordena um ataque a seus respectivos planetas de origem. O que deveria ser uma encenação de força talvez tenha consequências desastrosas para o Império no futuro próximo.

O tom de farsa, portanto, predomina no episódio. Isso sugere que alguns eventos podem não ser o que parecem. Por exemplo: em determinado momento, Hari vai à lavanderia da nave e, interpelado por uma das funcionárias, faz um discurso motivador, que soa fora de propósito. Mais tarde, o matemático e Raych têm uma discussão pública, em pleno refeitório, que, mais uma vez, parece desatinado — especialmente porque o desentendimento é motivado por um comentário descuidado por parte do professor, sempre tão racional e ponderado.

O que nos leva ao final: o aparente assassinato de Hari pelo filho adotivo é inverossímil se considerarmos o que conhecemos dos personagens até aqui; mas faz sentido dentro de uma encenação, da qual os acontecimentos acima descritos fariam parte. O único elemento imprevisto seria a repentina chegada de Gaal, que se dirige à cabine do professor movida por um pressentimento de que há algo errado. Teria a garota o dom da clarividência fora do âmbito da psico-história?

Talvez tenhamos alguma resposta no terceiro episódio, que estreia nesta sexta-feira.


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