Far Cry 5 | Review

Jogo segue a fórmula dos anteriores, entrega ação na medida e se destaca pela temática religiosa

Bruno Izidro Publicado por Bruno Izidro
Far Cry 5 | Review

Quem já jogou algum Far Cry sabe muito bem o que esperar do game: ação com muito tiro, porrada, bomba e exploração em um mundo aberto com diversas atividades (que se resumem a mais ação com tiro, porrada e bomba). Tudo isso ambientado em alguma região isolada do mundo controlado por um vilão maluco e sádico.

Far Cry 5, que chegou nesta terça-feira (27) ao PlayStation, Xbox One e PC, não é diferente. O novo game segue à risca essas diretrizes para entregar uma experiência divertida de jogar, com o diferencial no tema, que aborda fanatismo religioso, e ambientação nos EUA.

Em nome do Pai…

Desde o icônico Vaas do terceiro jogo, um aspecto importante em Far Cry é a figura do vilão que rouba o protagonismo na aventura. Em Far Cry 5, a Ubisoft extrapola essa ideia colocando não um, nem dois, mas sim quatro grandes antagonistas pro jogador enfrentar. Por mais que Joseph Seed, o “Pai”, tenha ganhado os holofotes nos trailers e material de divulgação, ele não atua como vilão sozinho. No decorrer da aventura são apresentados também os irmãos dele: John, Jacob e Faith Seed.

Juntos, os Seed comandam a seita Portão do Éden – um grupo de fanáticos religiosos que tomou o controle da fictícia Hope County, uma região isolada entre as montanhas do Estado americano de Montana, e que pretende purificar os habitantes de lá para se preparar para o fim dos tempos.

Já o jogador, no papel de um recruta sem nome e desconhecido da polícia local, tem o objetivo de encontrar e salvar sobreviventes e organizar uma resistência para tomar de volta a região.

O “Pai” com os irmãos Jacob, John e Faith ao fundo

John, Jacob e Faith controlam, cada um, uma das três regiões no mapa que o jogador explora, o que dita a estrutura geral de como o Far Cry 5 funciona, porque os territórios podem ser liberados em qualquer ordem, não seguindo uma narrativa linear.

Além disso, eles fazem o papel de generais a serem derrotados antes do embate contra o “Pai”, o que poderia facilmente limitá-los à meros coadjuvantes. Por sorte, eles são tão ou mais importante que o vilão principal. Mesmo que caiam vez ou outra em clichês típicos de vilões, os irmãos Seed são personagens interessantes por possuírem personalidades distintas e fortes, o que causa uma abordagem narrativa diferente em cada um.

Eles também ganham importância na história por causarem uma ameaça constante e mais próxima ao jogador. Quanto mais territórios deles são tomados pela resistência, mais eles ficam irritados e enviam mais soldados para impedir o progresso do jogador. Com isso, quem acaba perdendo um tanto a força como personagem é o próprio Joseph Seed, que, por si só, não é tão carismático quanto um Vaas ou um Pagan Min. Porém, os Seed, juntos, tornam-se marcantes como antagonistas no jogo.

Em nome do filho…

Far Cry 5 não tenta reinventar a roda nem se arrisca muito em coisas diferentes. Por exemplo, elementos de criação de itens foram minimizados e sistemas adicionais, como o Karma de Far Cry 4, não ganharam chance aqui. Só mesmo o recurso de chamar companheiros controlados por Inteligência Artificial que te ajudam a enfrentar inimigos voltou e ficou mais robusto.

Boomer pode ser um dos seus companheiros que ajuda na hora do combate

A impressão é que a Ubisoft quis deixar o novo Far Cry mais direto e simples possível para focar na experiência de ação, com um arsenal considerável de armas para usar, e na descoberta, com a exploração do mapa em veículos por terra, água e ar.

Aliás, o que vai fazer muita gente comemorar, é o abandono do ultrapassado sistema de subir em torres para liberar as atividades de uma região (e o próprio jogo tira sarro desse clichê). Agora, a simples exploração pelo mapa ou conversar com outros personagens libera as atividades paralelas, que vão de resgatar membros da resistência, tomar uma bases inimigas (de forma furtiva ou metralhando tudo mesmo) até pescaria.

Os fanáticos religiosos podem esperar, eu quero mesmo é pescar algumas trutas e salmões

O problema é que as mesmas atividades se repetem em cada uma das três regiões, com somente uma ou outra ação nova. Depois de um tempo, ter que tomar mais uma base pela décima vez acaba cansando. Já algo que foi muito bem implementado é como agora o jogador é incentivado a conhecer melhor os recursos do game com uma progressão de personagem. Calma que eu explico melhor: em vez de ganhar XP e aumentar de nível ao realizar atividades, o jogador ganha pontos de vantagens para gastar em novas habilidades. Esses pontos são conquistados após concluir missões e atividades paralelas, mas boa parte também é adquirida ao realizar ações específicas, o que vai desde matar um número de inimigos com uma escopeta ou fuzil até percorrer tantos quilômetros usando um paraquedas.

Isso significa que o jogador é incentivado a explorar os diversos recursos que o game tem a oferecer de forma inteligente, o que inclui aí também o Far Cry Arcade. Separado da campanha de história, esse é um modo com forte ênfase no multiplayer (mas dá para jogar solo também) em que o jogador passa por fases curtas e rápidas para ganhar mais dinheiro e pontos de vantagens. Pense nele como o modo multiplayer cooperativo de Zumbis dos Call of Duty, só que mais legal.

Far Cry Arcade tem modo solo, coop e até PvP pros jogadores

O que atrai nesse modo é que as fases possuem objetivos variados, como matar alvos específicos ou só fugir de um lugar, e com modificadores de jogabilidade para deixar a experiência mais divertida, que vai de morrer com um só tiro, não poder regenerar a energia ou munição infinita.

Tudo isso acontece em fases criadas tanto por desenvolvedores da Ubisoft quanto por jogadores, com um editor de fases disponível dentro do jogo. Isso, por si só, é algo que pode prender mais os jogadores a Far Cry 5, mesmo depois de terminar a campanha principal.

E olha que ainda teremos mais conteúdos no pós-lançamento do jogo, como eventos públicos (para dar aquele gostinho de Destiny) e três grandes expansões de histórias já anunciadas: Horas de Escuridão, Perdido em Marte e Ataque dos Mortos Vivos. Todas elas parecem ter experiências bem diferentes do que é visto no jogo base.

Em nome do Espirito Santo…

O que chama muito a atenção em Far Cry 5, e o que mais o diferencia dos jogos anteriores, é a temática religiosa que ele possui. E ela está bem ali na capa do jogo, com uma representação da Santa Ceia. Muitos podem ver uma ousadia da Ubisoft em abordar o assunto, mas não chega a tanto.

A religião é, sim, um tema bem presente e determinante para pintar os antagonistas de lunáticos, mas tudo é colocado pela ótica do fanatismo, usando um argumento mais fácil de justificar todos os atos ruins dos vilões e que, ao mesmo tempo, foge de polêmicas.

Na teoria, os Edenetes (como são chamados os membros da seita da família Seed) poderiam trazer um retrato de pessoas que se sentem abandonadas e como elas são manipulados por uma fé distorcida como a única salvação deles. Na prática, porém, eles são só mais uma milícia que servem para você ter em quem atirar durante as missões. E só.

John Seed batizando um novo membro da seita

A ambientação nos EUA também daria “pano pra manga” na discussão sobre violência e autoritarismo. Verdade seja dita, a trama até trata um pouco disso, mas tudo de forma superficial, só dando umas indiretas em Donald Trump e o caos em que se encontra o mundo. Nesse sentido, Far Cry 5 desperdiça potencial.

Amém

O distanciamento de dois anos em relação ao último jogo da série, Far Cry Primal, acaba se tornando uma vantagem para não deixar toda a experiência de Far Cry, apesar de boa, com cara de mais do mesmo. No final, Far Cry 5 é um daqueles jogos que parecem versões revistas e ampliadas de seus antecessores, sem fugir tanto das características que definem a série para não afastar quem já gostava.

Ao mesmo tempo, ele pode ser atraente o suficiente para chamar mais jogadores, principalmente com o foco maior nos elementos cooperativos. Quem nunca teve oportunidade de jogar outros Far Cry, o novo jogo é um bom ponto para apreciar o que de melhor a série pode oferecer em termos de ação e experiência de um mundo aberto.