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Falcão e o Soldado Invernal derrapa na reta final, mas cruza a linha

Conclusão morna e deslizes no roteiro não tiram os méritos da série da Marvel

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Falcão e o Soldado Invernal derrapa na reta final, mas cruza a linha

“Brilhante ou desesperadamente otimista.” Lá atrás, no quarto episódio, Karli Morgenthau (Erin Kellyman) ponderou qual dessas seria a melhor descrição de Sam Wilson (Anthony Mackie). Ele, por sua vez, perguntou por que não poderia ser “um pouco dos dois”. Pelo visto, tal dilema não se aplica a Falcão e o Soldado Invernal — no season finale, a série da Marvel para o Disney+ abraça a segunda opção sem reservas.

[Aviso: O texto abaixo contém SPOILERS e recomendamos assistir ao sexto episódio antes de continuar.]

Um Mundo, Um Povo retoma de onde o capítulo anterior havia nos deixado: infiltrados em uma reunião do Conselho de Repatriação Global em Nova York, os Apátridas sequestram os membros do CRG a fim de impedir a votação que decidirá o reassentamento dos refugiados. Assim que chega ao local, Bucky Barnes (Sebastian Stan) ganha a companhia de Sharon Carter (Emily VanCamp), convocada por Sam como reforço.

Este, aliás, entra em cena exibindo o tão aguardado novo uniforme, um híbrido entre o do Falcão e o do Capitão América. O herói logo tem um embate com Batroc (Georges St-Pierre), que repetidamente consegue neutralizar o escudo, mostrando que seu novo portador ainda terá um longo caminho antes de fazer jus ao legado de Steve Rogers. Nesse meio-tempo, Karli despista Bucky por tempo suficiente para que seus companheiros fujam do prédio com os reféns.

O foco, então, passa a ser o resgate dos conselheiros do CRG. Depois de se livrar do mercenário, Sam persegue um helicóptero e consegue libertar parte deles. Bucky faz o mesmo no solo, mas, sedento por vingança, John Walker (Wyatt Russell) chega para tumultuar. Sem alternativa, a líder dos Apátridas tenta cumprir sua missão e eliminar os últimos prisioneiros, jogando o veículo em que estão do alto de um prédio em construção.

John Walker (Wyatt Russell) em Falcão e o Soldado Invernal
John Walker (Wyatt Russell) em Falcão e o Soldado Invernal

Nesse instante, o roteiro, assinado por Josef Sawyer e pelo showrunner Malcolm Spellman, comete o primeiro deslize significativo da série. Ao longo de quatro episódios, Walker foi cuidadosamente construído como uma figura complexa, um antagonista com motivações compreensíveis, capaz de despertar empatia no público.

Seu ponto de virada — optar entre salvar os reféns ou perseguir Karli — alude a uma fala do finado amigo, Lemar Hoskins (Clé Bennett): “você consistentemente toma decisões certas no calor da batalha”. No entanto, não há referência direta a isso na cena, que se desenrola sem qualquer peso dramático. Em sua hora da verdade, o militar parece sofrer mais com uma enxaqueca do que com a gravidade da escolha.

Assim, o que deveria ser a redenção do personagem acaba tendo impacto pífio, prejudicado ainda mais pelo que vem em seguida: é Sam quem leva o mérito por livrar os prisioneiros do destino fatal. Para completar, nem ele nem Bucky sequer mencionam o ato de heroísmo ou a mudança de espírito de Walker. A coisa toda é tratada com tamanha casualidade que o Soldado Invernal e o ex-Capitão agem como se fossem velhos camaradas quando capturam o bando fugitivo.

Após essa sequência indigesta, Karli confronta Sharon, em um diálogo que revela que a sobrinha de Peggy Carter é, de fato, o Mercador do Poder. Batroc reaparece, oportunamente, e, diante dessa nova informação, resolve chantagear sua contratante, que o executa a sangue frio.

A líder dos Apátridas aproveita para escapar, sendo logo interceptada por Sam. Ela parte para cima, mas o novo Capitão se recusa a reagir e acaba encurralado. É salvo por Sharon, que amplia sua contagem de corpos no episódio e mata Karli. Sam leva o corpo para as autoridades e é cumprimentado pelos membros do CRG, que o agradecem por ter detido os terroristas.

Aqui, mais uma abordagem questionável por parte dos realizadores. O uso do diálogo pode até estar de acordo com o personagem — afinal, o Falcão demonstrou ser um homem tanto de palavras quanto de ação. E sua fala para o senador e demais conselheiros pode até, de algum modo, ter ajudado a amarrar os temas políticos da série, incluindo a crise dos refugiados e a questão racial nos Estados Unidos.

Porém, não deixa de ser uma resolução ingênua, pueril ou “desesperadamente otimista”. Ainda mais considerando que, somente na base do discurso, Sam consegue a façanha de influenciar nas decisões de um órgão internacional, bem como convencer o governo de seu país a reconhecer um capítulo tenebroso em sua história — e, com isso, honrar o passado de Isaiah Bradley (Carl Lumbly) — e conceder perdão total a uma criminosa.

Sharon Carter (Emily VanCamp) em Falcão e o Soldado Invernal
Sharon Carter (Emily VanCamp) em Falcão e o Soldado Invernal

A propósito, mesmo perdoada, Sharon demonstra que não pretende deixar de ser o Mercador do Poder, o que lança uma sombra no futuro do MCU. O mesmo vale para a Condessa Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), que consegue restaurar a carreira de Walker, introduzindo-o como o Agente Americano; e para o Barão Zemo (Daniel Brühl), que, embora prisioneiro na Balsa, ainda é capaz de influenciar o mundo de fora — é Oeznik (Nicholas Pryor), seu velho serviçal, quem explode o veículo que conduzia os Apátridas para a prisão, matando-os.

Se Wandavision deu o pontapé inicial nas séries de TV da Marvel com um toque de ousadia e originalidade, Falcão e o Soldado Invernal preferiu seguir à risca a fórmula aperfeiçoada pelo estúdio nos cinemas. E isso traz tanto os aspectos positivos quanto os negativos: a azeitada mistura de ação e humor, com personagens cativantes em uma trama coesa e, ainda assim, sujeita a eventuais tropeços; a minuciosa e bem planejada construção de universo, que, algumas vezes, acaba sendo feita em detrimento da história isolada que se pretende contar. Com cinco ótimos episódios e um razoável, o saldo é positivo.

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