Eu, a Vó e a Boi | “O ser humano é infinito na capacidade de amar e de odiar”, diz diretor

Entrevistamos Paulo Silvestrini, diretor, e Daniel Rangel, ator que interpreta Roblou

Marina Val Publicado por Marina Val
Eu, a Vó e a Boi |

Há alguns dias, a Globoplay lançou Eu, a Vó e a Boi, série baseada em uma thread do Twitter que narrava os conflitos de duas vizinhas que se odeiam há décadas e vão até as últimas consequências para enfurecer a outra.

Durante a CCXP 2019, conversamos com Paulo Silvestrini, diretor, e Daniel Rangel, ator que interpreta Roblou e que serve como um narrador para a história.

Justamente por conta de a trama ter essa realidade bizarra e caótica, originada de uma mídia tão diferente, o diretor, Paulo Silvestrini, explicou que o texto demandava um espaço mais teatral e menos realista, flertando levemente com a linguagem dos jogos, para que o público tivesse a sensação de participar da série de maneira mais imersiva.

A pouca sugestão que há dessa linguagem [dos jogos] fez com que a gente entendesse que valia a pena construir digitalmente este ambiente cênico e teatral. Muita das imagens dentro das quais a gente vê a ação acontecer ou em que os personagens estão inseridos são ambientes digitais a gente não percebe muito a diferença e a ideia é que fosse essa.

O fato de a série ser inspirada justamente em uma thread do Twitter não mudou apenas o formato, mas também o peso da responsabilidade para os atores, já que quem acompanhou a origem da história estava aguardando ansiosamente a adaptação. De acordo com Daniel Rangel:

[Os usuários do Twitter] estavam muito ansiosos para ver o que a gente ia fazer com a história que eles consideram deles. Eles falam com propriedade, “É a nossa thread.” Não é do Eduardo [Hanzo], é deles. Porque de certa forma é deles, eles que viralizaram.

Daniel Rangel em Eu, a Vó e a Boi
Daniel Rangel em Eu, a Vó e a Boi

Claro que sendo algo que teve origem em uma rede social, a repercussão nelas seria mais intensa que o normal. E, mesmo tentando que tenha tentado resistir à tentação de ver os comentários no Twitter, Daniel não acabou não resistindo.

Eu prometi pra mim mesmo que não ia ver. Eu prometi… Porque o Twitter geralmente é o lugar que as pessoas gostam de ir mais pra [reclamar]. Não é à toa que existe o meme de “vou xingar muito no Twitter.” Aí falei “Vou evitar o Twitter, porque tô muito inseguro com esse trabalho, não sei o que vai dar,” mas não consegui.

Comecei a ver a repercussão no Instagram e lá as pessoas sempre são mais positivas. Só que vi que tava positivo demais e pensei “Será que me arrisco no Twitter?” E entrei… e as pessoas estavam realmente muito felizes. Fiquei muito espantado!

O ator comentou que mesmo durante o um ano e meio que estrelou Malhação, a repercussão nas redes sociais não foi tão grande quanto Eu, a Vó e a Boi, nesses poucos dias desde a estreia no Globoplay:

Fiquei muito surpreso, muito surpreso. Acho que todo mundo tá muito surpreso. Por mais que a gente soubesse que a galera da internet estivesse esperando, a gente tinha um receio que eles achassem que não estávamos representando eles da maneira que eles esperavam.

Paulo Silvestrini também acompanhou a repercussão nas redes sociais e comentou que mesmo as reclamações tem um lado positivo.

Os comentários são pertinentes, uma vez que uma pessoa se deu ao trabalho de parar ali e escrever uma coisa, eu acho que merece ser ouvida. Se for um desabafo, se a pessoa odiou, eu acho que ela tem o direito, como público, de odiar. Na verdade, eu não me sinto impactado negativamente por isso.

Costumo entender que é uma orientação de um gosto do público que eu posso escolher perseguir – ou o contrário – posso querer provocar, porque a nossa função como artistas, para além de atender a expectativa do público, é também provocar uma reação. Se ela for negativa, ok, vamos lidar com isso, vamos procurar, de uma maneira ou de outra, fazer disso uma coisa positiva. Eu acompanho [as redes sociais] e fico realmente feliz de ver as pessoas querendo discutir, entendendo que há uma proposição de tema sobre os quais vale a pena discutir.

Vera Holtz, Paulo Silvestrini e Arlete Salles nos Bastidores de Eu, a Vó e a Boi
Vera Holtz, Paulo Silvestrini e Arlete Salles nos Bastidores de Eu, a Vó e a Boi

O diretor destacou como essa dinâmica é algo diferente de outras épocas em sua carreira, quando levava meses até que ele pudesse receber qualquer tipo de feedback dos espectadores.

Acho isso sensacional. Faço Dramaturgia desde a época que a gente esperava um bocado para fazer uma pesquisa, lá pelo capítulo 20, capítulo 30. A gente encomendava uma pesquisa e depois de um mês vinha um resultado. […] Então depois que eu estreava uma novela, só depois de três meses eu ouvia o que o público pensava.

Mesmo que eu fizesse um acompanhamento diário, minuto a minuto, do IBOPE, que também é um reflexo se as pessoas estão gostando, se estão acompanhando, se estão ligando ou não, os comentários a respeito levavam um tempo enorme. E agora, antes mesmo de eu ter assistido no Globoplay, porque tive que esperar o meu dia de trabalho terminar para ver à noite, já tinham pessoas comentando.

Sobre a possibilidade de a série ser renovada para uma segunda temporada, nenhum dos dois descarta a ideia. Silvestrini indica até que acredita que o programa poderia ter várias temporadas a mais:

O ser humano é realmente infinito na sua capacidade de amar e na sua capacidade de odiar, até por não serem tão distantes assim esses conceitos. Eu acho que é possível explorar, ainda mais com a capacidade criativa do Miguel [Falabella], que é um bocado ímpar. Então tenho plena confiança na infinita capacidade criativa do Miguel e acho que ele pode fazer muito mais do que só uma nova temporada de Eu, a Vó e a Boi, com certeza.

Todos os seis episódios de Eu, a Vó e a Boi já estão disponíveis no Globoplay.