Esquadrão 6 | Crítica

Carisma de Ryan Reynolds não basta para remediar roteiro fraco e direção ultrapassada.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Esquadrão 6 | Crítica

Dadas suas particularidades, o filme de ação talvez seja o mais efêmero dos gêneros cinematográficos. Apoiando-se em sequências de luta e perseguição, ele acaba ligado de forma intrínseca ao zeitgeist, uma vez que sua realização depende de questões técnicas e escolhas estéticas que rapidamente se tornam obsoletas. São raras as obras que conseguem transcender tais limitações e se tornar atemporais — e, quase sempre, elas o fazem incorporando a ação à trama de modo orgânico e apresentando heróis críveis, empáticos e bem desenvolvidos.

O espírito do nosso tempo se caracteriza por uma consciência aguda das fórmulas de ação estabelecidas e exploradas à exaustão em décadas passadas, mais notadamente nos anos 1980 e 90. Como consequência, observa-se três tipos de abordagem nos quais os realizadores têm apostado: assumir os clichês e extrapolá-los de maneira extravagante, over-the-top, casos das franquias Missão Impossível e Velozes & Furiosos; seguir uma estratégia oposta e adotar um tom sombrio e realista, como a trilogia Bourne e as mais recentes iterações da série James Bond; e por fim, buscar a desconstrução do gênero, muitas vezes em um misto de reverência e sarcasmo, que marca, por exemplo, o trabalho de diretores como Edgar Wright e a dupla Phil Lord & Christopher Miller.

Esquadrão 6 se perde em uma espécie de limbo, tateando entre esses três caminhos, porém, sem se comprometer com nenhum deles ou desbravar uma quarta via. O envolvimento dos roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick poderia sugerir uma tendência à sátira, já que eles se provaram mais que capazes de identificar os lugares-comuns e brincar com eles em Zumbilândia e nos dois Deadpool. Todavia, os esforços nesse sentido ficam restritos a uma piada visual durante a fuga de um carro esporte. De resto, o script se mostra convencional e pouco inventivo.

Esquadrão 6 Crítica
A equipe de Esquadrão 6 reunida

Na trama, um bilionário (Ryan Reynolds) passa por uma experiência traumática que o faz reavaliar suas prioridades. Decidido a agir onde governos e instituições parecem falhar, ele forma um grupo paramilitar, que inclui uma ex-agente da CIA (Mélanie Laurent), um ladrão acrobata (Ben Hardy), uma médica (Adria Arjona) e um assassino (Manuel Garcia-Rulfo), e toma para si a missão de derrubar o ditador de uma fictícia nação no Oriente Médio.

O primeiro ato e parte do segundo são estruturados em uma série de flashbacks, que deveriam introduzir cada um dos membros da equipe, mas que, em três casos, se resumem a cenas vistosas, que falham em estabelecer com clareza a motivação de cada um. Pior sorte tem um personagem, que nem chega a merecer a distinção e, como resultado, fica fadado a desfilar pela tela como estereótipo unidimensional. Mesmo o protagonista, que ganha mais tempo de desenvolvimento, carece de personalidade, soando como uma versão genérica de outros papéis vividos por Reynolds — algo que nem o carisma do astro é capaz de consertar. Isso sem mencionar os diálogos artificiais, que supostamente serviriam para construir a camaradagem entre os parceiros de esquadrão, e o romance entre dois deles, que surge do nada e leva a lugar nenhum.

Embora se proponha a tomar emprestados alguns elementos de subcategorias de ação — os filmes de assalto e de espionagem —, o roteiro derrapa novamente ao ignorar pontos básicos, como as funções de cada integrante do time (um deles exerce sua habilidade apenas uma vez; outro assume o papel do colega sem a menor cerimônia) e a necessidade de um plano elaborado para alcançar os objetivos e engajar o espectador. Isso fica claro na sequência principal do segundo ato, em que o grupo precisa invadir um prédio e o faz sem qualquer método. De modo similar, os dois obstáculos que eles se veem forçados a enfrentar nesse momento são jogados, sem qualquer contextualização ou antecipação, deixando, assim, de criar tensão.

Nem todos os defeitos de Esquadrão 6 devem ser colocados na conta dos escritores. Boa parte da culpa recai sobre o diretor Michael Bay, cujo estilo habitualmente exagerado e espalhafatoso sabota uma eventual pretensão do filme de rir de si mesmo. Além disso, suas idiossincrasias se tornam cada vez mais datadas em um gênero que prima pelo dinamismo. Um exemplo evidente é a perseguição inicial — a câmera frenética e a pirotecnia tentam emular um senso de perigo e urgência; no entanto, apenas mascaram o fato de que, em vez de uma almejada sucessão de eventos encadeados, o que é mostrado ali não passa de um amontoado de ações e explosões desconexas.

Esquadrão 6 Crítica

Por fim, não bastasse a risível maneira como o time consegue insuflar uma rebelião no país fictício, a conclusão aprofunda a reprovável defesa da justiça com as próprias mãos que a premissa do filme apresenta, bem como insiste no chavão do herói ocidental que salva o oprimido povo estrangeiro — conceitos que deveriam ter ficado para trás, lá nas décadas de 1980 e 90.