Entre Facas e Segredos | Crítica

Novo filme de Rian Johnson subverte o gênero do mistério e entrega uma ótima homenagem aos clássicos

Fernanda Talarico Publicado por Fernanda Talarico
Entre Facas e Segredos | Crítica

O patriarca de uma família rica aparece morto no dia seguinte ao seu aniversário. Como o clima era de comemoração, a casa estava cheia e todos os presentes se tornam suspeitos de terem cometido o assassinato. Um detetive excêntrico é chamado para desvendar o mistério e, com o caminhar da investigação, descobre que todos os que lá estavam têm os seus próprios motivos para desejarem a morte do homem. Este enredo, já tão conhecido pelos fãs de Agatha Christie e outras histórias whodunit (quando o que importa é descobrir quem é o culpado), é também o mote de Entre Facas e Segredos, novo filme dirigido e escrito por Rian Johnson (Star Wars: Os Últimos Jedi).

Ao começar a assistir ao longa é possível ter a sensação de déjà vu, principalmente se pensarmos que uma versão de Assassinato No Expresso do Oriente foi lançada em 2017. Mas a história criada por Agatha Christie parece ter servido apenas de inspiração a Johnson, que também homenageou o legado da autora ao escrever o roteiro.

Os personagens são bastante caricatos, o que ajuda a dar o tom de humor na produção, além de se aproximar ainda mais das conhecidas tramas de mistério, nas quais os personagens têm suas características exacerbadas e beiram estereótipos.

Mas, ao mesmo tempo, Entre Facas e Segredos cria personalidades diferentes, como caso da enfermeira Marta Cabrera, vivida pela ótima Ana de Armas (Blade Runner 2049), que foge da usual falta de protagonismo que se esperaria de sua personagem e acaba se tornando peça chave do filme.

Outro ponto em que o longa subverte os clichês do gênero é o fato de que não acompanhamos a história pelo ponto de vista do detetive responsável pela investigação, o famoso Benoit Blanc, uma clara inspiração no belga Hercule Poirot, vivido por Daniel Craig (007 Contra Spectre) com um engraçado e carregado sotaque. Esta mudança chama mais a atenção do espectador, pois o tira da zona de conforto de saber tudo o que o detetive sabe.

O filme vai além de ser apenas uma produção de mistério e inclui uma explícita crítica social à atual política de imigração norte-americana que está presente durante toda a narrativa.

O elenco conta também com grandes nomes do cinema, como Toni Colete, Chris Evans, Michael Shannon, Don Johnson e Jamie Lee Curtis. Todos entregam atuações no ponto certo da narrativa e brincam com os estereótipos que vivem.

Além de um elenco extremamente competente, Rian Johnson soube aproveitar muito bem os cenários e objetos de cena. O uso certeiro de closes demorados, câmeras lentas e ações em segundo plano ajudam na construção do suspense, ao mesmo tempo que fazem todas as resoluções se tornarem dinâmicas e fáceis de se acompanhar.

Explicar muito da história é estragar a divertida experiência de assistir ao filme sem saber aonde a narrativa está te levando. Houve um assassinato e há uma investigação acontecendo; isso é o máximo que você precisa saber.

Entre Facas e Segredos é um daqueles filmes que traz a sensação de “já assisti a algo assim antes”, mas o longa soube usar este fato ao seu favor. A trama é interessante e em nenhum momento deixa o ritmo cair ou ficar arrastado.

Ao final, o filme não perde fôlego e entrega um “grand finale” gratificante, uma espécie presente aos fãs do gênero.