Doutor Sono | Crítica

Adaptação concilia as obras de King e Kubrick em um terror cativante e bem conduzido.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Doutor Sono | Crítica

Não é segredo que Stephen King reprova a versão cinematográfica de seu romance O Iluminado (1977), que Stanley Kubrick roteirizou (em parceria com Diane Johnson) e dirigiu em 1980. Tanto que chegou a escrever a seu respeito: “muita gente parece recordar [dela] — por motivos que nunca cheguei a compreender — como um dos filmes mais aterrorizantes que já viram”.

Como adaptação, a obra de Kubrick de fato tropeça em alguns aspectos, em especial, no que se refere ao protagonista. O script pouco se esforça para criar empatia com Jack Torrance (Jack Nicholson), apresentado como detestável logo nos primeiros minutos, e praticamente apaga a importância do alcoolismo em sua construção. Como resultado, o caráter trágico do personagem acaba reduzido de modo drástico.

Todavia, é injusto questionar os méritos do longa-metragem por si só. Além de concretizar a interpretação pessoal do cineasta para a história — segundo ele, uma metáfora para o lado sombrio inerente à natureza humana —, a película é, sim, aterrorizante, bem como primorosa do ponto de vista técnico. Kubrick estabelece um clima de claustrofobia em meio aos amplos salões do Hotel Overlook (todos criados dentro de um estúdio, não em locação) e concebe sequências carregadas de suspense, executadas com maestria, caso do passeio de triciclo que antecede o primeiro encontro com o sobrenatural.

Doutor Sono tinha, portanto, um grande desafio pela frente: adaptar o romance homônimo publicado por King em 2013, dando continuidade à saga da família Torrance, e, ao mesmo tempo, lidar com o fato de que boa parte da audiência está muito mais familiarizada com o filme de 1980. Responsável pelo roteiro e pela direção, Mike Flanagan passa no teste com louvor, mantendo-se, em grande medida, fiel ao material original, mas assumindo-se como continuação direta do longa de Kubrick.

Na trama, vemos que Danny Torrance precisa aprender a enfrentar os fantasmas do Overlook, que ainda o perseguem — algo que o faz mergulhar no alcoolismo e, mais tarde, já adulto (Ewan McGregor), o força a buscar ajuda. Quando tudo parece entrar nos eixos, seu caminho cruza com o de Abra Stone (Kyliegh Curran), jovem que, em virtude de seu imenso poder, cai na mira do Verdadeiro Nó, grupo liderado por Rose, a Cartola (Rebecca Ferguson), e que se alimenta de iluminados.

Embora existam alguns pontos do enredo que ajudem a conectar os dois filmes — por exemplo: ao contrário do que ocorre no livro, Dick Hallorann, o chef de cozinha que ajuda Danny, está morto, ao passo que o hotel amaldiçoado continua de pé —, a maior herança da obra de Kubrick é a atmosfera perturbadora e de crescente tensão que Flanagan consegue retomar. O que não significa que o criador da série A Maldição da Residência Hill não faça suas próprias contribuições.

Merece aplausos sua concepção visual para certos elementos, como a habilidade de Abra e Rose de invadir a mente uma da outra. O diretor também escolhe com precisão os momentos em que explora os (felizmente econômicos) jump scares, o body horror ou a violência implícita — nesse quesito, destaca-se a sequência na fábrica abandonada, que ganha com a performance de Jacob Tremblay na pele do “garoto do beisebol”.

Mas a grande virtude de Doutor Sono é a sabedoria no uso das referências. Sim, o inquietante tema musical de O Iluminado marca presença, e algumas cenas reproduzem quadro a quadro trechos daquele longa. Só que tudo isso tem função narrativa, não está lá apenas em nome da nostalgia.

Uma amostra clara é quando o doutor John Dalton (Bruce Greenwood) conversa com Danny a respeito de uma vaga de emprego no asilo local. A cenografia do consultório do médico copia nos mínimos detalhes (da cor da parede aos quadros e objetos sobre a escrivaninha) o escritório do gerente do Overlook, que entrevista Jack para a posição de zelador no primeiro filme. Ao espelhar os dois momentos, a intenção é contrapor a fragilidade do filho (que reconhece ser aquela sua última oportunidade) com a arrogância do pai (que ignora as advertências do futuro patrão).

De quebra, o recurso também ajuda a conciliar as narrativas — afinal, o Jack do livro, mais humano e multidimensional, tem uma postura próxima à do filho durante a entrevista. O novo longa ainda busca redimir o protagonista de O Iluminado recuperando o peso dos problemas com a bebida em seu arco, durante o tocante discurso de Danny no encontro dos Alcoólicos Anônimos.

Por sinal, o casting é outro acerto. Ewan McGregor equilibra força e vulnerabilidade, ao passo que Kyliegh Curran empresta uma confiança quase prepotente a Abra, em evidente contraste com a relutância de Danny. Já Rebecca Ferguson constrói a antagonista perfeita: cruel, sedutora e estranhamente relacionável, graças à bem desenvolvida motivação de luta pela sua sobrevivência e a de seu bando.

Doutor Sono triunfa porque se mantém reverente às obras em diferentes mídias nas quais se baseia e encontra voz própria a fim de oferecer uma narrativa cativante, conduzida com competência. Desta vez, nem Stephen King pode reclamar.