Days Gone | Review

Novo exclusivo da Sony faz de tudo pra ser relevante e surpreende com uma boa experiência

Jeff Kayo Publicado por Jeff Kayo
Days Gone | Review

Do seu anúncio um tanto minguado, apresentando um trailer que mostrava seu protagonista fugindo de uma horda de monstros genéricos, meio zumbis, até o momento em que pus minhas mãos em Days Gone, não botava fé no jogo. Pois bem, como já dizia CPM22, “O mundo dá voltas”.

O novo trabalho do Bend Studios, que antes foi responsável pelos dois Uncharted no PS Vita, Resistance Retribution e toda a franquia de Syphon Filter, apesar de ser uma amálgama de experiências de outros jogos populares do mercado, entrega uma diversão honesta e a sua própria visão de um mundo apocalíptico com dois MCs que fazem de tudo para sobreviver.

E não, eles não são dois funkeiros perdidos nos Estados Unidos. MC é a sigla para Motorcycle Club, e se você é fã de Sons of Anarchy, vai se sentir em casa com as referências à cultura das motocicletas na pele e nos coletes recheados de insígnias que contam um pouco de uma vida passada de Deacon St. John e Boozer antes do fim do mundo.

Uma epidemia que ninguém sabe direito como começou consumiu boa parte do Oregon (e dos EUA até onde sabemos), e apesar do exército ter feito o possível para evacuar a população e controlar a situação, muita gente ficou para trás. Este é o caso de Deacon e Boozer, dois motoqueiros integrantes dos Mongrels, que sobrevivem realizando bicos para os acampamentos de sobreviventes enquanto cuidam um do outro (como todo bom “bromance” deve ser).

Entre manobras políticas de poder com os chefes de acampamento, saqueadores inescrupulosos, cultistas suicidas e animais selvagens que sobraram na região, ainda precisamos lidar com ameaça fétida dos frenéticos, um tipo de zumbi doidão que pode ser encontrado em qualquer lugar do mapa e são um mal sem cura.

Days Gone segue a linha survival, com recursos limitados, pouco espaço de armazenamento, fabricação de armas e, se você não estiver minimamente preparado para os encontros aleatórios com inimigos no mapa, já pode encomendar as flores para o seu funeral.

Como disse anteriormente, a amálgama dos jogos que podem servir de referência para o jogador são muitas. Visualmente ele lembra bastante o estilo Sony de produzir em casa (Uncharted e Last of Us). No entanto, ele não consegue otimizar tão bem a experiência para o PS4 raiz como o pessoal da Naughty Dog faz com seus jogos, e, de vez em quando, temos pequenas quedas de framerate devido à velocidade de traslado da motocicleta, por exemplo.

A experiência de jogar nos remete ao mundo de State of Decay, mas com produção de blockbuster AAA. Temos mais detalhes nos personagens, nos lugares visitados, paisagens deslumbrantes e até um sistema climático que apesar de existir, é puramente estético, não afeta em nada o jogador. Saquear lojas em busca de materiais, ajudar a manter o acampamento vivo com suprimentos e evitar que pessoas (ou monstros) indesejados invadam seu espaço fazem parte das tarefas diárias do jogo.

Claro, aqui se você morrer não é um game over definitivo, como no exclusivo da Microsoft. Por ser um jogo focado em apresentar a história de um protagonista específico ao jogador, não existem mortes definitivas. No entanto, muito cuidado com o sistema de salvamento do jogo. Apesar do salvamento automático, toda a sua andança livre pelo mundo aberto precisa ser salva constantemente de forma manual, caso contrário adeus horas de gameplay (aconteceu comigo, então só avisando).

Recursos são limitados e muito importantes para o andamento do jogo. Vasculhar por materiais debaixo dos capôs dos carros abandonados, recolher pregos, latas de querosene, garrafas vazias, esparadrapos e curativos, tudo tem o seu propósito. E como todo survival de respeito, o seu inventário tem um limite muito inferior ao que você gostaria que tivesse.

Você cria kits de cura e coquetéis molotov em tempo real, assim como em The Last of Us. É possível criar modificações para as armas brancas que carregamos durante a aventura, mas os manuais para tal são liberados aos poucos pelo jogo. Um taco de baseball com pregos na ponta é bastante eficiente, fica a dica.

A motocicleta, parte muito importante do jogo (talvez a mais importante, sem brincadeira), é mais ou menos como o Interceptor de Max, em Mad Max, aquele jogo de 2015. O mapa é grande o suficiente para não ser possível atravessá-lo a pé (você não vai querer fazer isso). A motocicleta é o seu “Carpeado” e é preciso cuidar bem dele. O dinheiro que é acumulado nos acampamentos pode ser usado para comprar melhorias para moto, personalizar faróis, quadro, guidão, e o mais importante de tudo, mantê-la sempre abastecida (a gasolina acaba rápido, é uma maravilha).

Armas de fogo passam por um processo um pouco mais complicado, no entanto. Sim, é possível desarmar vagabundos pelo mapa e ficar com suas armas, mas elas não podem ser armazenadas no seu cofre pessoal (tipo uma garagem de GTA, só que para suas armas). Para termos acesso aos melhores equipamentos precisamos construir um bom relacionamento com os acampamentos de refugiados do game.

Em Days Gone, apesar de você e seu colega Boozer se manterem como freelancers de ocasião, motoqueiros de passagem, etc., eventualmente será preciso visitar acampamentos vizinhos e construir um grau de afinidade com eles. Lá você consegue pegar o dinheiro por suas caçadas, vender carne e peles de animais, comprar armas e peças para sua moto.

Só que existe um porém: tudo lá é dividido por níveis de afinidade. Por isso precisamos realizar uma série de tarefas para esses acampamentos. O respeito e dinheiro acumulados em cada um desses lugares só pode ser utilizado lá. Os itens que são possíveis de serem adquiridos também mudam de lugar para lugar.

Todo esse sistema de confiança entre você e os acampamentos para destravar os melhores equipamentos é uma enrolação que serve apenas para afastar o jogador. E, no final das contas, é um belo tiro no pé, já que é possível ir bem longe no jogo apenas seguindo as missões principais sem comprar sequer uma arma de nível dois ou superior.

O que me leva a outro problema em Days Gone: a inteligência artificial de inimigos humanos, frenéticos e animais em geral é, no mínimo, de duas gerações atrás. Tudo é muito precário, ser sorrateiro nunca foi tão fácil, as rotinas dos adversários são simples demais e por vezes, a IA se atrapalha sozinha (contra ela mesma). Isso sem contar que muitas vezes é possível vencer acampamentos inimigos inteiros munido apenas de um facão de cortar grama (uma das melhores armas do jogo, sem brincadeira).

Pelo menos isso é um tipo de problema que pode ser resolvido com uma atualização, assim como a queda de framerate (no PS4 normal, pelo menos) e outros bugs visuais que possam vir a acontecer.

A maior surpresa que o game me proporcionou foram as hordas de frenéticos. Sabe aquela enxurrada de morto vivo, ou quase vivo, ou quase morto, correndo atrás do protagonista, enquanto ele sobe telhados e tenta fugir à todo custo, sabe? Então, isso não é só uma CG, acontece durante o jogo, e é bem capaz de você fazer uma curva errada com sua moto, ou estar caçando feliz e sorridente um cervo no meio do mato e dar de cara com uma horda. O que fazer? Correr. Muito.

Days Gone não deve ser indicado a jogo do ano por ninguém, sejam profissionais ou jogadores. Mas não é por isso que ele é completamente descartável, né? Tem seus probleminhas que esperamos que sejam resolvidos em breve, mas ao mesmo tempo entrega uma diversão honesta. E talvez até consiga te surpreender de alguma maneira. Eu me surpreendi.


Esse review foi escrito com uma cópia fornecida pela Playstation. Days Gone estará disponível no dia 26 de abril, exclusivo para Playstation 4.