Cruella | Crítica

Filme entrega visual e atuações incríveis em trama pouco inspirada

Priscila Ganiko Publicado por Priscila Ganiko
Cruella | Crítica

Depois de retificar as origens da vilã Malévola nos filmes estrelados por Angelina Jolie, a Disney resolveu pegar outra de suas figuras vilanescas amplamente detestadas e criar uma história de origem para ela.

Cruella é um filme cuja produção começou pouco depois da estreia de Malévola e que demorou para tomar forma. De acordo com Emma Stone, que dá vida à uma versão mais jovem da vilã que conhecemos em 101 Dálmatas, a ideia nasceu há cerca de seis anos e, de lá para cá, foi desenvolvida por uma série de roteiristas até chegar na versão que chegou às telinhas do Disney+.

A trama mostra as origens de Cruella, indo desde sua infância até sua entrada caótica no mundo da moda. Ainda que tenha ligações tanto com o filme live-action de 101 Dálmatas lançado em 1996 quanto com o desenho de 1961, o longa deixa pontas soltas que não necessariamente são amarradas nas produções anteriores, funcionando como uma versão alternativa da personagem e não como uma antecessora direta da versão interpretada por Glenn Close (que, inclusive, participou da produção deste filme).

Emma Stone é Estella e Cruella, representando dois lados de uma mesma jovem que sofre para se adaptar à sociedade, seja por suas ideias diferentes ou por seu cabelo biologicamente meio preto e meio branco. Após virar órfã enquanto ainda era apenas uma menina, Estella conhece Jasper e Horace e passa a roubar pelas ruas de Londres para viver. Obcecada por moda, a protagonista conquista uma chance de trabalhar em uma loja de roupas e, depois, de trabalhar para a Baronesa (Emma Thompson), uma estilista renomada e igualmente obcecada que é capaz de usar tudo o que está a seu alcance para se manter no poder.

A dinâmica entre as personagens bebe da fonte de O Diabo Veste Prada (2006), explicitando sentimentos de admiração e ódio simultaneamente, quase levando o público a simpatizar com a mocinha Estella — que, devo lembrar a vocês, também é a vilã Cruella. Tanto Stone quanto Thompson estão excelentes em seus papéis, interpretando situações absurdas vestidas como peças de arte e mantendo a seriedade necessária para que suas caricatas personagens tenham ainda mais impacto.

Há momentos de maior sensibilidade em que podemos ver um lado mais humano e familiar da protagonista, como quando ela ainda é criança logo no começo do filme ou quando contracena com Joel Fry e Paul Walter Hauser, que interpretam Jasper e Horace, os “capangas”. Curiosamente, outro personagem muito querido é justamente o cachorrinho de estimação de Estella, que não é um dálmata. E, antes que me perguntem, nenhum cãozinho é machucado durante as mais de duas horas do filme.

Ambientado numa Londres dos anos 70, o título é como um grande desfile da época com figurinos exagerados e impactantes, inspirados em modelos de estilistas conhecidos, como Alexander McQueen e Vivienne Westwood. Nos momentos em que as roupas são o foco, Cruella esbanja criatividade e momentos icônicos, como em uma cena com um caminhão de lixo e em outra com um táxi. Ainda que breves, os embates entre a protagonista e sua nêmesis acrescentam humor e entregam visuais deslumbrantes.

Outro ponto de destaque do longa é sua trilha sonora. Mais do que apenas acompanhar a narrativa, as escolhas musicais roubam a atenção do público e complementam momentos cruciais com canções bastante conhecidas que representam a época em que a história se passa e a alma rebelde da protagonista.

Embora tenha sido dito durante coletiva de imprensa que o objetivo de Cruella era apresentar uma história de origem que permitisse que a personagem se tornasse àquela que vemos nas outras produções da franquia, não foi isso que senti. O longa funciona bem por conta própria, em seu próprio universo, e não necessariamente se conecta com os filmes anteriores, o que pode ser interpretado como um ponto positivo caso a Disney resolva ampliar aquele mundo e trabalhar em novas sequências, mas é um ponto negativo se o objetivo realmente era criar uma ligação com a franquia já existente.

Talvez o distanciamento seja melhor ainda se lembrarmos que a vilã em questão sonhou em fazer um casaco de pele de cachorrinhos — ainda mais com a cena pós-créditos.

Cruella é um espetáculo visual e bem orquestrado, com trama previsível que não inova, mas funciona. Apoiando-se em glitter, paetês e uma boa dose de punk rock, o filme não tenta justificar demais as ações questionáveis da personagem e entrega atuações de alto nível para uma vilã que talvez nem merecesse um filme.

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