Crítica | Logan

Filme é uma peça única que explora muito bem os dramas de seu protagonista

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Crítica | Logan

O filósofo francês Jean-Jacques Rosseau escreveu que “os maiores males nascem de nós mesmos”. Talvez essa seja a frase que resume perfeitamente Logan, terceiro filme solo do Wolverine. O longa, que se apresenta como uma produção ousada e bem executada, consegue mergulhar na essência de seu protagonista para entregar um filme que foge às convenções das adaptações de quadrinhos e acaba se tornando uma peça única, que retrata de maneira muito humana alguém que, apesar de andar e respirar, já foi morto e destruído há muito tempo pelo seu próprio passado.

O filme já estabelece o estado do mutante logo nos primeiros segundos da projeção, deixando claro que seus dias de glória já foram embora. Hugh Jackman chega com um ar melancólico, olhos avermelhados e um caminhar meio bambo. O uso excessivo de álcool funciona como uma forma de escape para Wolverine não ter de lidar com seu maior inimigo: a culpa que carrega por tudo que fez em outros tempos. O clima de Logan é de decadência completa, tanto dos seus personagens como do mundo onde se passa. Para trabalhar isso visualmente, o diretor James Mangold aposta nos planos abertos para mostrar a ruína dos cenários e nos fechados para criar uma conexão intimista com as pessoas ali mostradas.

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O cineasta também faz forte uso de cores quentes, que contribuem para a atmosfera de western da produção e para reforçar ainda mais a ideia de que Logan é um morto-vivo. Mangold também traz forte influência do filme Os Brutos Também Amam, de 1953, que é mostrado rapidamente em uma cena — na trama do clássico, um antigo pistoleiro que se isola para não precisar lidar com o seu próprio passado. O diretor acerta em cheio no uso das referências, que não aparecem aqui como um mero easter egg e deixa claro que passou a dominar o tema presente nas duas produções.

Além de Jackman, que dá um peso que vai além da violência para seu personagem, Patrick Stewart brilha mais uma vez com o Professor Xavier, dessa vez dando uma nova faceta instável que se afasta da pose serena e sensata que o líder dos X-Men teve outrora. Porém, o grande destaque fica nas mãos de Dafne Keen como Laura: ela domina a tela como uma garota instável e (altamente) violenta, mas que também tem seus momentos de doçura e que, mesmo em situação complicada, continua sendo uma criança. Boyd Halbrook também se destaca como o vilão Donald Pierce, um sujeito com um forte sotaque e um ar de indiferença que impõe sua presença de forma asquerosa e se mostra um antagonista que funciona dentro da narrativa.

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Logan também soube aproveitar sua classificação indicativa mais elevada para dar aos fãs a violência brutal que eles sempre quiseram de Wolverine. Contudo, a direção não se valeu dessa liberdade para entregar um gore desenfreado e palavrões soltos fora de contexto — tudo foi utilizado em prol da história. Os momentos de diálogo levam até as cenas de ação e estas acabam dando um novo peso aos personagens numa sintonia perfeita.

A trilha sonora funciona, mas não se destaca tanto quanto nos trailers. Porém, Mangold acerta mais uma vez em termos de coerência temática quando opta por usar em dado momento “The Man Comes Around”, de Johnny Cash. Uma parte da letra diz: “Vozes chamando, vozes chorando, alguns nascem e outros morrem”, mais uma vez sinalizando o estado de morte simbólica de Wolverine.

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Logan é uma experiência visceral que chega como um soco na boca (ou uma garra na cara) e que deixa o gosto agridoce do questionamento sobre a vida e sobre a morte, acerca do passado e das escolhas erradas que nele ficaram e também sobre a possibilidade de uma redenção. Talvez o filme não agrade àqueles que buscam algo similar aos outros filmes de super-herói, mas certamente irá encantar todos os que buscam um drama melancólico, ríspido, tenso em muitos momentos, mas acima de tudo humano.