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Crítica | Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Nova história do bruxo traz nostalgia, mas peca na falta de força narrativa

Cuidado, spoilers de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada abaixo!

Imagino que a frase “Você é um bruxo, Harry” tenha tido o mesmo impacto na geração dos anos 90 do que “Que a Força esteja com você” teve na geração dos anos 70 e 80. Voltar ao mundo de Harry Potter é como estar de volta em casa. É uma pena, porém, que esse retorno não seja tão legal quanto imaginávamos que seria.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada estreou nos palcos londrinos no último domingo (31) e o roteiro da peça foi lançado no formato livro no mesmo dia – logo, se engana quem compra o tomo esperando um livro como os outros da série. A versão é apenas um roteiro, ou seja, trezentas páginas de diálogo intercaladas com brevíssimas descrições das ações dos personagens.

A premissa é idêntica a maior parte das histórias que envolvem viagem temporal. Nesse caso, Albus, um dos herdeiros do bruxo,  tem uma relação conturbada com Harry e decide usar um Vira-Tempo para salvar Cedrico Diggory durante o Torneio Tribruxo, com a intenção de corrigir pelo menos um dos erros do pai. Com a ajuda de Scorpius Malfoy (filho de Draco e melhor personagem dessa história), os garotos voltam e alteram a linha temporal. Quando voltam ao presente, vêem que algumas coisas estão mudadas, mas que Cedrico continua morto. Eles decidem voltar novamente e dessa vez a alteração causa efeitos gigantescos no Mundo Bruxo, criando uma realidade onde Harry morreu, Albus nunca nasceu e Voldemort é o líder supremo.
harry potter e a criança amaldiçoada

É nítido para os fãs mais ávidos que John Tiffany e Jack Thorne (os verdadeiros autores do volume, já que apenas o argumento foi escrito por J.K. Rowling) não conhecem tão bem os personagens do Mundo Bruxo, já que em diversos momentos estes são forçados a falarem e dizerem coisas que jamais diriam  – como Harry dizer que preferia que Albus não fosse seu filho.

A experiência acaba sendo familiar pela ambientação e pela presença dos personagens que já conhecemos, mas ao mesmo tempo estranha por conta desses momentos onde nada faz muito sentido na diegese criada por Rowling previamente. O fan service também está em quase todas as cenas. Estes, apesar de não agregarem muito à trama, conseguem dar aos fãs mais antigos a sensação de familiaridade necessária para que os novos personagens não pareçam tão distantes ou estranhos assim.

A Criança Amaldiçoada não é uma experiência completamente em vão: o volume consegue nos dar, em muitos momentos, a sensação de estarmos de volta em um lugar que conhecemos e amamos, onde nos sentimos em casa. Outro ponto positivo dessa história é que ela serve de experimento para uma nova expansão do universo de Rowling, que aqui se projeta para o futuro e em Animais Fantásticos e Onde Habitam se projeta para o passado. Não seria de espanto se a Warner anunciasse novos filmes ambientados nesse mundo (ou até mesmo uma adaptação desta peça).

harry potter e a criança amaldiçoada

A amizade e as relações familiares também são ponto central dessa nova história. Algo interessante que Tiffany e Thorne exploram é a relação entre Harry, Ron, Hermione e Draco. Os roteiristas conseguem explorar muito bem os erros do passado de Malfoy e como estes eram guiados apenas por medo e desespero do garoto. O perdão e o começo de uma nova relação acaba sendo essencial para a resolução do conflito central da trama.

Ao escolher contar essa história apenas no teatro, Rowling ficou escrava do próprio formato e não teve tempo de dar sua identidade pessoal ou instruir Tiffany e Thorne nas diretrizes de como desenvolver essa narrativa. Se escrevesse um romance propriamente dito, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada poderia ser uma história muito melhor, muito mais divertida e que abriria o leque para o futuro da obra. Não foi o caso. Mas, mesmo assim, é muito gostoso estar de volta a Hogwarts. Mesmo que numa sequência bizarra que não precisava ter sido feita.

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