Crítica | BoJack Horseman – 4ª Temporada

Episódios brilhantes compensam uma temporada que escorregou em alguns momentos

Pedro Duarte Publicado por Pedro Duarte
Crítica | BoJack Horseman - 4ª Temporada

A quarta temporada de BoJack Horseman é a que mais trata de política até agora, sempre em tom ácido e, de certa maneira, desesperançoso diante de um sistema falido e facilmente manipulável. Alterações nas leis comandadas por lobistas, eleitores que não se importam com a verdade, debates vencidos com a pior (ou a melhor, a depender do ponto de vista) retórica possível… A série não poupa nenhum aspecto.

Embora seja uma parte bem feita e interessante, se torna uma solução simples para não deixar de criticar o atual momento norte-americano quando escolhe o caminho mais escancarado e óbvio. Os personagens falam sobre a importância das frases de efeito, de manter posicionamentos ambíguos e de se mostrar descolados para garantir a vitória. Isso tudo mais importante que propostas, histórico do candidato ou a verdade. Apesar de bem encaixada na trama, é o tipo de crítica que outras séries já fazem bem.

BoJack Horseman se torna única mesmo quando trata da mente humana — autossabotagem, preocupação e ansiedade sobre assuntos que se mostram sem importância depois, os próprios defeitos e a escolha de culpar todo o resto menos a si mesmo. Tudo isso através de roteiros que saem da zona de conforto em episódios que exploram mais de uma realidade ao mesmo tempo (e de diferentes personagens), brincam com linhas do tempo e que se complementam. Ao final da temporada, há o sentimento de unidade, de que determinado assunto foi tratado com cuidado e teve o encerramento que merecia.

Com exceção de Todd, que resolve abrir uma clínica de dentistas palhaços (ou palhaços dentistas) — uma ideia forçada, deslocada e que não serve nem para divertir — todos os núcleos são bem desenvolvidos. Princess Carolyn, inclusive, protagoniza um dos melhores episódios da temporada, quando a história é contada por uma suposta parente dela em um futuro distante.

Inserir Hollyrock na série foi uma escolha arriscada: um personagem novo, a essa altura, quando já conhecemos e queremos saber mais sobre quem criamos afinidade, pareceu, em um primeiro momento, uma maneira fácil de ter mais assunto. Mas se prova acertada e justifica o retorno de Beatrice — a mãe de BoJack e a razão pela qual a temporada é realmente boa.

Em outros momentos, Beatrice era só mais uma personagem de “mãe caricata, de comentários ácidos, que não apoia o filho em nada — pelo contrário”. Dessa vez, ela é apresentada de maneira frágil, vulnerável, sofrendo com a demência que a faz esquecer até mesmo do próprio filho.

Ao conhecer o passado complicado da personagem, é impossível não enxergar as coisas de outra forma. Esses episódios são criativos, perturbadores e levam a um final imprevisível, melancólico e muito bonito. De um lado, o espectador consegue compreender Beatrice. Do outro, BoJack (que não viu o que nós vimos), diante de tamanha fragilidade, consegue achar alguma paz para perdoar. Uma cena curta e que mostra todo o potencial da série.

Se BoJack Horseman acerta em cheio no drama e nas reflexões sobre os problemas da mente humana, erra no humor, que se torna besta demais, com textos bem escritos mas que não são bons (trocadilhos e brincadeiras com as palavras em inglês bem executados, contudo, são apenas uma demonstração da capacidade dos roteiristas; além de excessivas referências ao universo hollywoodiano). Esse tipo de humor também já é feito por outras séries — e melhor.

A quarta temporada de BoJack Horseman faz pensar, consegue criar momentos brilhantes que demonstram o cuidado que os criadores têm em cada pedaço, principalmente ao manter tudo coerente e colocando elementos que vão conversar entre si no tempo certo. Só erra quando tenta ser o que não é e tenta assumir a missão de tratar de “assuntos do momento”, recurso que não é necessário. BoJack Horseman já demonstrou nos últimos três anos que é atemporal — a nossa mente, e todo o problema que ela capaz de causar, ultrapassa qualquer momento político ou “sacadas geniais” que massageiem o ego dos roteiristas. Bojack não precisa falar sobre mais nada além de Bojack.

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