Crítica | Blade Runner 2049

Mais do que uma sequência, novo filme é uma declaração de amor ao original — e uma belíssima expansão de seu universo.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Crítica | Blade Runner 2049

Dizem que, uma vez tornada pública, a obra deixa de ser do artista. Obviamente, ninguém está se referindo à propriedade intelectual — a questão aqui é interpretação. Cada um tem direito de apreender um quadro, livro ou filme à sua maneira, a despeito do que o criador tenha originalmente concebido.

Rick Deckard é um ser humano e ponto final — ao menos é assim em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, romance de Philip K. Dick que inspirou Blade Runner, o Caçador de Androides. No entanto, isso não impediu que os envolvidos na produção do longa-metragem de 1982 imprimissem sua própria visão ao personagem, chegando ao cúmulo de três representações distintas coexistirem na película. Harrison Ford, o ator que o interpreta, acredita que Deckard seja humano. Já o diretor Ridley Scott o considera, sem sombra de dúvida, um replicante. Por fim, Hampton Fancher, um dos responsáveis pela adaptação, afirma que a questão é propositalmente ambígua.

Blade Runner 2049 não pretende tomar partido. O único momento que faz menção à polêmica é deliciosamente vago. O retorno de Fancher ao posto de roteirista, desta vez ao lado de Michael Green, deve ter contribuído para essa abordagem elusiva. Mas o mérito maior é do cineasta Denis Villeneuve, que parece ter compreendido que o debate é, assim como a temática existencialista, o visual e a trilha sonora, um dos elementos que contribuiu para que o filme original alcançasse status cult. Reverente, Villeneuve revisita todos esses aspectos, ao mesmo tempo em que expande os horizontes.

Um dos maiores feitos de Blade Runner 2049 é mostrar que revisitar uma obra antiga não é necessariamente algo ruim — basta encontrar um diretor talentoso que ame e compreenda o material original

Tudo o que pode ser dito a respeito da trama sem correr o risco de estragar as surpresas — elas existem e são bastante satisfatórias — é que, décadas após os acontecimentos do primeiro longa, o mundo é repleto de androides muito mais avançados do que os produzidos pela Corporação Tyrell. Esta, aliás, foi à falência, tendo seus espólios adquiridos pela empresa de Niander Wallace (Jared Leto), pai da nova geração de replicantes. Nesse cenário, os modelos antigos passam a ser considerados uma ameaça, sendo perseguidos por caçadores de recompensa afiliados à polícia — caso de K (Ryan Gosling), que, depois de aposentar uma dessas unidades ultrapassadas, se vê diante de um mistério com potencial de iniciar uma revolução.

Divisora de águas no gênero, não só no cinema como também em outras mídias, a estética idealizada por Scott (aqui, atuando como produtor executivo), é elevada a outro patamar — e o que logo chama a atenção é a ambientação. Além de uma Los Angeles ainda mais vertical e repleta de vielas iluminadas apenas por anúncios publicitários gigantescos, Blade Runner 2049 apresenta locais devastados, trazendo um contexto pós-guerra pouco explorado na película de 1982 e mais próximo do futuro descrito por Philip K. Dick. De modo semelhante, a escuridão, que remetia aos filmes noir, continua presente, mas ganha a companhia de sequências em uma paleta carregada de sépia, reforçando a ideia de aridez e desolação. O mesmo pode ser dito da chuva constante, que, agora, é substituída em alguns momentos por neve e poeira.

Outro elemento marcante no primeiro filme, a música de Vangelis também ganha referências — inicialmente, de maneira discreta, conforme os temas compostos por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch buscam reproduzir a atmosfera da trilha sonora original. À medida em que a narrativa conduz K ao encontro de Deckard, a alusão se torna mais evidente, com o acréscimo de sintetizadores retrô aos arranjos.

É na temática, todavia, que reside o grande trunfo do novo longa. Se antes o instinto de sobrevivência era o tópico principal, a discussão a respeito do que nos torna humanos é aprofundada. Memória, amor, sacrifício, perpetuação da espécie, tudo isso entra na pauta, que não se restringe as relações ao binômio homem/máquina — basta ver as ligações entre K e Joi (Ana de Armas) e entre Wallace e Luv (Sylvia Hoeks).

Em uma época em que Hollywood pouco arrisca e segue investindo em sequências e reboots, muitas vezes de qualidade duvidosa, um dos maiores feitos de Blade Runner 2049 é mostrar que revisitar uma obra antiga não é necessariamente algo ruim — basta encontrar um diretor talentoso que ame e compreenda o material original. Villeneuve preenche todos os requisitos.

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