Como Frosthaven arrecadou US$ 3 milhões em poucas horas mesmo em meio à crise global

Campanha do jogo de tabuleiro no Kickstater já superou a meta. Mas, afinal, esse é o momento de se fazer crowdfunding?

Pedro Duarte Publicado por Pedro Duarte
Como Frosthaven arrecadou US$ 3 milhões em poucas horas mesmo em meio à crise global

Talvez esse não seja o melhor momento para colocar campanhas de crowdfunding (financiamento coletivo) no ar — com a pandemia, isolamento social e as consequências disso ainda em aberto. Por causa disso, muitas pessoas e empresas deixaram para divulgar seus projetos em outra ocasião.

O que não quer dizer que todos tenham que deixar totalmente as campanhas de lado. A dica é recalcular custos e adaptar as metas para essa nova realidade. Acima de tudo, criar uma boa estratégia, como esclarece Raíssa Pena, diretora de publicações do Catarse, uma das principais plataformas de crowdfunding do Brasil:

Nessa época de crise, é hora de afiar o olhar estratégico e entender como o seu público está se comportando. Eu recomendo fortemente que autores, editores e produtores de conteúdo tirem um momento para rever seu planejamento estratégico de 2020 (pode ser a hora de priorizar um projeto ou realocar outro) e para, principalmente, conversar com a sua comunidade de leitores ou seguidores.

Frosthaven: um exemplo fora da curva?

Apesar do momento de crise também nos Estados Unidos (a pandemia do novo coronavírus é global, afinal), o americano Isaac Childres, designer e fundador da Cephalofair Games, colocou o projeto de seu jogo de tabuleiro, Frosthaven, no Kickstarter (a principal plataforma de crowdfunding do mundo), no ar, no dia 31 de março.

Em pouco mais de três horas, para a surpresa de alguns (mas não de muitos, explico já, já!), o projeto arrecadou US$ 3 milhões. Até o fechamento dessa matéria, Frosthaven já havia arrecadado mais de US$ 7 milhões. O diferencial dessa campanha, além de ser incrivelmente bem feita, com explicações claras sobre objetivos e recompensas, ótimas imagens e tudo o que o apoiador precisa saber, está em ser a continuação direta de outro projeto de sucesso: Gloomhaven.

Gloomhaven arrecadou, em 2017, US$ 386.104. Depois, passou a ser vendido em lojas — e é sempre bem avaliado pelos jogadores. Dessa forma, a campanha de Frosthaven era bastante antecipada. Se por um lado é um ponto fora da curva, considerando que estamos em tempos de economia frágil mundo afora, a promessa de qualidade de mais um projeto comandado por Childres garantiu que a meta de US$ 500 mil fosse superada em poucas horas.

Além disso, outra estratégia interessante de Childres foi de enviar o jogo para influenciadores especializados em jogos de tabuleiro antes mesmo de a campanha entrar no ar.

Claro que essa não é a realidade de muitas pessoas e empresas — que precisam primeiro financiar o projeto para só aí terem o produto pronto. O que não tira o mérito de Childres de separar parte do orçamento de Gloomhaven para o lançamento da sequência.

Enquanto isso, no Brasil

Um dos fenômenos do crowdfunding brasileiro, quando falamos de produções de entretenimento, é a Editora Wish. O projeto mais recente, finalizado no dia 9 de março, Contos de Fadas Celtas, arrecadou pouco mais de R$ 352.000 — isso é 413% além da meta projetada. Mas até a Wish, que tem um público cativo, teve que se adaptar à nova realidade: “É impossível ignorar que a nossa vida mudou com a chegada da Covid-19, e a forma como encararmos isso dirá muito sobre a nossa presença no mercado.”, conta Marina Avila, fundadora da editora.

A alternativa encontrada pela editora foi de criar um projeto de assinatura recorrente — modalidade de projeto inédita para a empresa — e apostar no formato digital:

Tivemos que adiar projetos que já estavam confirmados e nos adaptamos à realidade dos leitores. Eles precisavam de campanhas acessíveis e de se sentirem, mais do que nunca, como membros de uma comunidade. Uni-los conosco em um projeto recorrente de contos digitais antigos pareceu a forma ideal de realizarmos isso e atender a necessidade de manter a editora funcionando.

Ian Fraser, autor de três livros financiados no Catarse: dois da série Araruama: O livro das raízes, Araruama: O livro das sementes e Noir Carnavalesco, havia programado a campanha do último livro da série Araruama para o mês de maio, mas resolveu cancelar por enquanto: “Essa seria a minha maior campanha, a que investi mais em diversidade de apoios e de recompensas. Eu dizia que seria minha última grande campanha”, conta.

Decidi cancelar porque pensei: ‘acho que nesse momento poderia divertir as pessoas, tirando o foco de outras coisas e focando na literatura’. Contudo, minha campanha é voltada para a celebração. Tenho marcas de 10%, 15%, 25% da campanha, e sempre celebro [quando alcançamos] isso. E achei que não seria de bom gosto comemorar essas conquistas, quando, a seguir, a pessoa poderia ver notícias não tão boas. (…) Minha campanha é muito alegre e eu não conseguiria ser alegre nesse momento.

Planejamento é tudo

De volta a Frosthaven, ainda que o cenário não seja dos melhores, o exemplo mostra que uma campanha bem planejada ainda pode ser bem sucedida. O sucesso com números tão altos pode ser surpreendente para quem cai de paraquedas no Kickstaster e vê uma campanha milionária em meio a uma crise mundial. Mas isso não se aplica ao público dele e de jogos de tabuleiro de maneira geral, que já esperavam ansiosamente pelo lançamento do jogo.

Já um projeto inédito pode ser repensado, adiado. Nesse momento, vale mais o pensamento estratégico do que a ansiedade de ver algo finalmente saindo do papel.

Se já tinha algo preparado, a sequência de um projeto, por exemplo, a dica dos especialistas é: procure seu público, veja como ele se sente em relação ao momento, como conclui Pena:

Mande emails, faça enquetes de Instagram, pegue o telefone e ligue para algumas pessoas e procure entender como elas estão se sentindo agora e o que você pode oferecer enquanto criador. Só assim é possível fazer uma campanha que engaje as pessoas neste momento.

Se você quiser saber mais sobre Frosthaven, é só dar uma olhada na campanha aqui. Sobre o projeto da Editora Wish, Sociedade das Relíquias Literárias, só conferir aqui. E os livros de Ian Fraser já estão disponíveis na Amazon.