Como foram feitos os daemons e os ursos de armadura de His Dark Materials

Produção investiu em marionetes para criar uma experiência mais real para os atores em cena

Pedro Duarte Publicado por Pedro Duarte
Como foram feitos os daemons e os ursos de armadura de His Dark Materials

Um urso polar adulto pode chegar a 3,20 m, e eu não fiquei sabendo disso porque assisti algo na National Geographic ou muito menos porque estive cara a cara com um. Descobri isso porque estava escrito ao lado do contorno de um urso gigantesco desenhado com giz, em um dos corredores do Bad Wolf Studios. O estúdio fica em Cardiff, no País de Gales, e abrigou as filmagens da série His Dark Materials — a mais nova aposta da HBO.

Apesar de toda a tecnologia que a indústria de audiovisual conseguiu desenvolver, capaz de criar uma realidade na tela quase indistinguível do que é o real (veja O Rei Leão, por exemplo), His Dark Materials optou por incorporar marionetes na produção.

Em um trailer, que parecia pequeno diante da imensidão do restante do estúdio, a equipe responsável pelas marionetes, liderada por Brian Fisher (que trabalhou também em Detetive Pikachu), mostrou aos jornalistas a importância dos bonecos para a série. Diferentes modelos, alguns muito mais elaborados e caros do que outros, como a doninha (umas das formas de Pantalaimon, o daemon da protagonista), que tinha detalhes nos olhos e pelos quase reais.

Segurá-lo era como ter em mãos o animal de verdade — o que era justamente a intenção da equipe de Fisher: se já na filmagem fosse possível passar os dedos entre os pelos, o trabalho de pós-produção se tornaria mais rápido e o resultado mais próximo da realidade do que se tivessem que criar pelos no computador, por exemplo.

Além de facilitar o trabalho para a equipe de efeitos especiais, contar com marionetes no set ajudou a criar interação entre os atores.

“Se você tivesse um animal de verdade ali, você poderia dizer ‘faça isso’, e ele até faria às vezes. Se você tivesse tudo em computação gráfica, teria que adicionar depois, você não teria uma interação no set. O que nós oferecemos é algo para trabalhar antes, durante e depois, que todos podem discutir conosco. Gera algo na tela que você consegue captar, uma presença especial.”

Fisher também faz os movimentos e a voz original do Macaco Dourado, daemon de Marisa Coulter, que é interpretada por Ruth Wilson. É impressionante vê-lo caminhar com seu marionete preferido (segundo ele), emulando os passos do bicho, fazendo o boneco olhar nos seus olhos… Em poucos instantes, você esquece que tem alguém fazendo os movimentos. É assustador.

Ainda sobre o Macaco Dourado, algumas mudanças foram feitas em relação ao livro: o animal costumava escalar até chegar ao ombro da Sra. Coulter. Na série, em busca de mais verossimilhança, ele ficará no máximo no colo da personagem ou será carregado. Seria difícil ter um macaco de cerca de 15 kg usando seu corpo como escada o tempo todo.

Ruth Wilson (Marisa Coulter) e Brian Fisher (Macaco Dourado). Brian interpreta os movimentos e faz a voz original do daemon do macaco. Créditos: HBO

Dafne Keen, que interpreta Lyra Belacqua, conta que o uso de marionetes fez muita diferença em seu trabalho: “Sem as marionetes, seria muito mais difícil. Eu teria que olhar para um lugar vazio e fingir interagir com alguém.”

E os ursos?

Os bonecos mais incríveis são os ursos — se é que dá para chamar de bonecos. Havia um modelo em tamanho real, com as quatro patas no chão. Outro que era basicamente um dispositivo mecânico com a pelagem na parte do dorso, onde Keen montava e dois operadores cuidavam dos movimentos, como se o urso estivesse correndo. Segundo Fisher, a intenção era criar passos diferentes, não idênticos: “É como nós andamos. Um passo não é exatamente igual ao outro”, esclarece.

Por ser muito leve, enquanto o urso “corria”, Keen quase voava durante as gravações. Nada que não tenha sido divertido, segundo ela, e logo corrigido pela equipe de Fisher: “Fazia sentido que ela meio que ‘pulasse’, afinal, estava cavalgando um urso. Mas não ficava muito bonito na tela”, diz, rindo.

Havia também uma arcada dentária em tamanho real de um urso polar, com caninos assustadoramente gigantes. E a impressionante parafernália que simulava o animal em pé: acredite, você só tem noção do tamanho de um desses quando ele está de pé! Para mexer “a máquina” eram necessárias duas pessoas: uma que levantava o corpo, amarrado na cintura e nas costas como uma mochila; e outra que mexia as patas peludas em muitas direções — inclusive, em sua direção!

É um trabalho incrível de testemunhar, minucioso, um capricho em tempos de computação gráfica tão avançada — e muito apreciado por todo o elenco que tive oportunidade de conversar.

Ah, depois, enfim, pesquisei sobre quanto mede um urso polar adulto. E o macho — que é maior do que fêmea — não passa de 2,50 m. Fiquei me perguntando que contorno de urso era aquele, tão gigantesco… Concluí que era uma licença poética da produção mais do que bem-vinda. Quem leu a obra de Philip Pullman (no Brasil, a trilogia tem o nome de Fronteiras do Universo) já deve imaginar. Quem ainda não conhece os livros, vai descobrir mais sobre o urso de armadura (os Panserbjornes) em breve: His Dark Materials estreia no dia 4 de novembro, na HBO.


O jornalista viajou à Cardiff, no País de Gales, a convite da HBO.