Círculo de Fogo: A Revolta | Crítica

Sequência é inferior ao longa de 2013… mas tem monstros e robôs gigantes!

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Círculo de Fogo: A Revolta | Crítica

Críticos sofrem de um sério problema de imagem — em especial, os de cinema, cujo objeto de estudo é a mais massificada das artes. Para grande parte do público, não passamos de criaturas arrogantes e desprezíveis, que têm apenas um prazer na vida: achar defeito nas obras alheias. É claro que há muitos assim no ramo, ainda mais em uma época em que controvérsia gera burburinho e, consequentemente, page views — e que melhor maneira de criar polêmica do que esculachar um filme popular?

Quando assume a tarefa de informar, o crítico procura deixar de lado os elementos subjetivos, que formam sua opinião, para se concentrar nos objetivos, que emprega para construir sua análise. O papel primordial da crítica é informar ao espectador de modo que ele possa escolher por si próprio se assistirá à película ou não. E isso nem sempre é tarefa fácil. Afinal, somos também espectadores. No meu caso, como seria possível manter a objetividade ao ver um robô gigante usar um navio como porrete para dar na fuça de um monstro?! Sim, o crítico em mim sabe que Círculo de Fogo (2013) é, em muitos aspectos, apenas um blockbuster convencional. Mas a criança nerd aqui dentro responde: “Cala a boca e olha isso!”.

Após se recompor, meu lado profissional consegue perceber que, embora abuse dos clichês, o longa-metragem não é vazio. E isso se deve, basicamente, a seu realizador. Se Guillermo del Toro segue as fórmulas do gênero kaijū, é porque cresceu assistindo os “filmes de monstro” japoneses — e em seu longa, o uso de tais convenções não parece manipulação, mas, sim, autêntica homenagem. Ao criar a mitologia (ele assina o roteiro, juntamente com Travis Beacham), ao se esmerar no visual, ao armar um dos robôs com uma espada, ao escolher nomes como Gipsy Danger e Knifehead, ao empregar aquele tema musical fodástico (composto por Ramin Djawadi, com participação do guitarrista Tom Morello), del Toro — assim como nós, uma criança nerd — está abrindo sua caixa de brinquedos e nos convidando para participar.

E eis o maior problema em Círculo de Fogo: a Revolta — a sequência traz o cineasta mexicano atuando apenas como produtor. Certamente, muitas das decisões passaram por seu crivo, mas o comando ficou nas mãos do diretor estreante Steven S. DeKnight. Como resultado, o conhecimento e a genuína afeição pelas referências exploradas no original foram substituídos pela aparente obrigação de prosseguir com a história e ampliar seus conceitos — muitas vezes, apenas inflando os números. Assim, em vez de uma novata, temos um grupo de cadetes; além de uma espada, os jaegers são armados com chicote ou mangual; e os kaiju de categoria 5 ganham a companhia de outro tipo de adversário.

Dez anos depois dos eventos do filme anterior, Jake (John Boyega), filho do falecido Stacker Pentecost (Idris Elba), se mantém distante do legado do pai e vende no mercado negro peças de jaegers roubadas. Por intermédio de sua meia-irmã, Mako (Rinko Kikuchi), acaba retornando ao quartel-general da Pan Pacific Defense Corps para ajudar a treinar os futuros pilotos, incluindo a órfã Amara (Cailee Spaeny).

O roteiro, assinado por DeKnight ao lado de Emily Carmichael, Kira Snyder e T.S. Nowlin, tem seus problemas. O maior deles é a repetição do arco dramático do par central — exatamente como aconteceu com Mako e Raleigh (Charlie Hunnam), Amara e Jake devem se ajudar mutuamente para conseguir superar seus traumas familiares.

Sem a mesma química da dupla anterior, os protagonistas de Círculo de Fogo: a Revolta dependem exclusivamente dos diálogos e situações para construir sua relação. Infelizmente, o material com o qual precisam trabalhar não oferece o suficiente para criar empatia com o público. Boyega ainda consegue se salvar graças ao seu carisma, mas a estreante Spaeny acaba apagada — para se ter uma ideia, um dos principais conflitos enfrentados por sua personagem é tão raso que se resolve com uma frase.

Outro ponto questionável se refere à reviravolta na trama. Sem entrar em detalhes, ela traz elementos que se relacionam ao primeiro filme, mas que sequer haviam sido sugeridos. Assim, a sequência acaba se valendo da famigerada retcon, ou continuidade retroativa, para introduzir informações que justificam o novo enredo, porém, podem modificar a percepção do espectador a respeito de eventos anteriores.

É possível que, diante de todas essas ressalvas, você decida ir ao cinema de qualquer maneira para, mais uma vez, embarcar na cabine de um jaeger. Pois fique tranquilo: a criança nerd aí dentro encontrará muitos motivos para vibrar mesmo assim. Foi o que aconteceu comigo.


Rex esteve em Los Angeles e conversou com o elenco do filme (vestido de piloto brasileiro de jeager! Confira o papo!)