Cinderela | Crítica

Filme de Camila Cabello entrega versão repaginada - e divertida - de conto de fadas clássico

Camila Sousa Publicado por Camila Sousa
Cinderela | Crítica

Há histórias que fazem parte do imaginário popular, e uma das mais famosas é a da Cinderela: o clássico conto de uma jovem órfã que sofre nas mãos de sua madrasta, fazendo todo o serviço doméstico e sendo proibida de ir ao baile real. Essa trama já foi contada em filmes, livros, séries e animações, por isso é curioso imaginar por que a Columbia e a Sony Pictures decidiram revisitar a personagem. Porém, ainda que o conto seja conhecido, sempre há espaço para inovar, e a produção estrelada por Camila Cabello e lançada no Amazon Prime Video faz isso muito bem.

A base narrativa é a mesma, com algumas mudanças interessantes: a jovem Ella é, na verdade, uma talentosa estilista, que sonha em vender seus vestidos e ter o próprio negócio. O desejo pelo amor verdadeiro é despertado em certo momento, mas este não é seu principal objetivo. Ao cantar uma das primeiras músicas da produção, Cabello fala sobre o desejo de viver da forma que quer, mostrando sua ânsia por liberdade.

A inquietude de Cinderela também é alimentada pela forma que as mulheres são tratadas em seu reino, já que é uma vergonha para qualquer garota ter o desejo de trabalhar, uma vez que todos ali (incluindo as mulheres) acreditam que elas devem se dedicar somente ao lar, aos filhos e ao marido.

Só por essa descrição já fica claro que o novo filme de Cinderela é diferente do que já vimos ser criado para a personagem. E antes que surja alguma reclamação sobre a militância entrar nas histórias de princesas, é bom ressaltar que tais mudanças trazem boas oportunidades narrativas.

O encontro de Cinderela com o príncipe, por exemplo, ganha novas camadas: para ser a princesa, Ella precisará deixar de lado seu maior sonho, algo que ela ainda não sabe se é capaz de fazer. E será que o príncipe Robert (Nicholas Galitzine) poderia fazer o mesmo por ela? Colocar isso em uma história tão conhecida como a da Cinderela moderniza um clássico, o tornando mais atrativo, sem tirar sua essência.

A nova Cinderela canta enquanto faz seus vestidos

Escrito e dirigido por Kay Cannon (New Girl, Girlboss), o longa aproveita essa abordagem para dar uma nova história para Vivian, a madrasta interpretada por Idina Menzel. Em uma rápida sequência, a personagem deixa claro como as mulheres do reino sempre são punidas quando têm a audácia de querer mais e mostra por que é tão dura com a Cinderela. Isso não a impede de ser cruel com a afilhada, mas abre espaço para que o público se conecte melhor com a personagem, e afasta o conceito de uma maldade pura e sem motivos.

Cinderela também acerta ao entregar todos os conceitos citados acima, sem se tornar chato. Ao contrário, o longa tem diversos números musicais que complementam a trama naturalmente – como quando o príncipe canta “Somebody To Love”, do Queen, para anunciar o baile em que deve escolher sua amada. Há também camadas de hip hop em certas canções, algo que parece ser uma influência direta do sucesso de Hamilton. E, claro, ter Camila Cabello como a protagonista significa que o longa usa seu talento musical sempre que possível, algo que até destoa dos outros astros da produção que não são cantores profissionais.

Fazendo jus ao musical que é, Cinderela termina com um grande espetáculo, com todos cantando e dançando felizes. O filme não é extremamente memorável e não vai se tornar um clássico imediato, mas é um bom começo na carreira de atriz de Cabello – que não surpreende, mas também não é terrível – e também uma oportunidade para repensar como as histórias de princesas e contos de fadas ainda podem ter espaço na cultura pop, com algumas modernizações.

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