Cientista diz ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados em laboratório

Gêmeas teriam nascido neste mês

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Cientista diz ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados em laboratório

O geneticista chinês He Jiankui anunciou na última segunda-feira (26) que teria desenvolvido os primeiros bebês geneticamente modificado em laboratório do mundo, gêmeas que nasceram neste mês. A informação é do The New York Times.

He diz ter trabalhado nos embriões usando a técnica Crispr. O pai das gêmeas é portador de HIV, e o geneticista alega que fez com que os embriões se tornassem imunes ao vírus. O cientista não publicou nenhum artigo científico descrevendo seu processo, mas membros da comunidade científica que foram consultados pelo New York Times dizem que, com base em seus trabalhos anteriores, é bem possível que ele realmente tenha conseguido.

A pesquisa em modificação genética de embriões é proibida em muitos lugares do mundo, mas não na China. Apesar disso, um grupo de 122 cientistas chineses emitiu um manifesto condenando os trabalhos de He, chamando-os de “loucos” e dizendo que terão um grande impacto negativo na reputação da comunidade científica do país.

O Dr. Alexander Marson, PhD em modificação genética na Universidade de San Francisco, diz que o trabalho de He é assustador. Membros da comunidade científica acreditam que a modificação genética de embriões pode dar margem para que bebês sejam desenvolvidos visando características físicas e mentais específicas, e não a partir do desejo de se prevenir doenças, algo diretamente correlacionado com o conceito de eugenia. A Comissão Nacional de Saúde da China vai abrir uma investigação para apurar o caso.

Além da questão ética e política, a comunidade científica fica assustada com esse tipo de trabalho por motivos de segurança. A modificação genética de genes específicos pode causar reações em cadeia em outros genes, que podem passar a se comportar de maneiras inesperadas. He garante que as gêmeas nasceram saudáveis.

Em agosto, He esteve em uma conferência com especialistas em modificação genética na cidade de Nova York. Na ocasião, ele disse que estava trabalhando com a técnica Crispr para a modificação do gene CCR5, que produz a proteína CCR5, que está diretamente ligada com o vírus HIV. O público do evento ficou indiferente às declarações de He na época, já que esse tipo de pesquisa avançou rapidamente nos últimos 10 anos. O que eles não sabiam, porém, é que He já tinha fertilizado dois embriões de sua pesquisa. “Ele poderia ter dito”, diz o Dr. Fyodor Urnov, do Instituto Altius de Ciências Biomédicas, “eu jamais jogaria pôquer com ele”, completou.

Em entrevista, He diz que quer que seu trabalho não seja apenas o primeiro, mas também um exemplo do que pode ser feito na área. “A sociedade vai decidir o que fazer depois disso”, disse. Por enquanto, He não deu nenhum sinal de que vai publicar um artigo sobre o assunto.